STM contraria juiz e mandar abrir ação penal contra coronel que criticou cúpula do Exército
Coronel do Exército Rubens Pierrotti Junior, hoje na reserva, quando era comandante do 8º Grupo de Artilharia de Campanha Pára-quedista, entre 2015 e 2016 - Reprodução
O STM (Superior Tribunal Militar) decidiu, por unanimidade, reverter a decisão de um juiz de primeira instância e determinar o recebimento da denúncia contra o coronel da reserva Rubens Pierrotti Júnior.
Pierroti foi acusado pelo Ministério Público Militar por fazer comentários críticos à cúpula do Exército. Ele se tornou réu pelos crimes militares de crítica indevida e ofensa às Forças Armadas.
O coronel foi chamado a dar entrevistas para falar do livro “Diários da Caserna: Dossiê Smart: A História que o Exército Quer Riscar”, em que acusa de corrupção a corporação e vários de seus oficiais –especialmente Hamilton Mourão, ex-vice-presidente e hoje senador (Republicanos-RS)– pela compra de um equipamento milionário.
Nas entrevistas, Pierrotti fez críticas à atuação do Exército na trama golpista e disse que o golpe de Estado liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não avançou por “inépcia dos próprios militares”.
“Enxergo a atitude do comandante do Exército, do Alto Comando do Exército como uma atitude oportunista muito mais do que o que está se vendendo como legalista”, disse o coronel em um dos comentários destacados na denúncia.
Ele também fez críticas ao STM por gastar muito dinheiro e produzir pouco e disse que o Exército se tornou uma “unidade politizada” nos últimos anos.
O Ministério Público Militar concluiu que Pierrotti deveria responder pelos dois crimes porque “criticou publicamente ato de superior hierárquico, […] além de propalar fatos, que sabe ser inverídicos, ofendendo a dignidade e abalando o crédito das Forças Armadas, bem como a confiança que estas merecem do público”.
Na primeira instância, o juiz responsável por analisar o caso decidiu negar a denúncia e sequer abrir o processo contra Pierrotti. Ele justificou que o coronel deu as declarações quando estava na reserva, sem as “restrições disciplinares dos militares que estão na ativa”.
“Não alcançando as ações o status material de delito, inviável torna-se a possibilidade jurídica da demanda para o exercício da Ação Penal Militar, impõe-se o não recebimento da exordial”, disse.
O juiz usou como base para sua decisão a jurisprudência do STF (Supremo Tribunal Federal) que permite o “exercício regular do direito à crítica, que configura direta emanação da liberdade constitucional de manifestação do pensamento”.
A decisão do Superior Tribunal Militar se deu em um recurso apresentado pelo Ministério Público Militar. A decisão do juiz de primeira instância foi contrariada por unanimidade no STM, por 14 votos a zero. Não votou a ministra Maria Elizabeth Rocha, presidente do tribunal.
“Considerando que o entendimento do Superior Tribunal Militar contrariou a jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal sobre o tema —como reconhecido até mesmo no parecer que o Subprocurador Geral de Justiça Militar apresentou—, impetraremos em breve um Habeas Corpus com o objetivo de restabelecer a decisão que havia rejeitado liminarmente a acusação formulada contra o Coronel Rubens Pierrotti”, disse o advogado André Perecmanis.
O livro escrito por Pierrotti usa uma técnica conhecida como “roman à clef” (“romance com chave”, na tradução literal do francês), uma obra aparentemente ficcional que narra histórias reais trocando apenas os nomes dos personagens.
Pierrotti valeu-se do recurso para, em mais de 500 páginas, detalhar denúncias de corrupção contra o Exército e alguns oficiais, especialmente Hamilton Mourão, ex-vice-presidente e hoje senador (Republicanos-RS).
O autor, que hoje atua como advogado, acusa ex-colegas de farda de compactuarem com irregularidades na compra de um simulador de apoio de fogo da empresa espanhola Tecnobit, que custou € 13,98 milhões aos cofres públicos (cerca de R$ 32 milhões quando o contrato foi assinado, em 2010, quase R$ 83 milhões pelo câmbio atual).
O Exército e Mourão defendem o negócio e argumentam que ele trouxe economia para a corporação. O Ministério Público Militar arquivou as denúncias. Apesar de a área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União), numa investigação de mais de três anos, ter apontado diversas irregularidades no processo, o plenário da corte arquivou o caso em 2021.