‘Não tenho amanhã’, diz pai de estudante de medicina morto há um ano pela PM em SP

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Os médicos Julio Cesar Acosta Navarro e Silvia Mónica Cárdenas Prado pais do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta - Karime Xavier - 23.jul.25/Folhapress

Os pais do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, dizem “não ter amanhã” desde que o filho foi morto, em novembro do ano passado, com um tiro disparado por um policial militar dentro de um hotel na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo.

Julio Cesar Acosta Navarro e Silvia Mónica Cárdenas Acosta, que nasceram no Peru, buscam a prisão de Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado, agentes envolvidos na morte do filho. Até aqui sem sucesso. Os reiterados pedidos de prisão foram negados pela juíza Luciana Menezes Scorza.

“Desde a morte do meu filho, eu morri. E cada dia que vivo, vivo como se fosse o último dia. Não tenho amanhã. Na luta intensamente pela justiça por Marco Aurélio”, diz Julio Cesar.

Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, aluno do 5º ano de medicina, morto pela polícia em SP
Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, aluno do 5º ano de medicina, morto pela polícia em SP – Arquivo pessoal

Em uma audiência, tentou se aproximar de Macedo. Houve uma confusão no fórum. Os advogados do PM chegaram a pedir uma medida protetiva contra Julio Cesar. A juíza Luciana negou, por não ver amparo legal na solicitação.

“Coração destroçado, me sinto frustrada. É algo inexplicável quando se pensa em como a justiça é levada aqui. É como se o sistema fosse feito para destruir as famílias, porque se nega o direito ao mais elemental, justiça”, disse Silvia ao jornal Folha na quarta-feira (19), véspera do caso completar um ano.

Médica intensivista, ela lançou no último dia 12 o livro “Justiça Sem Tempo – Diário de Uma Dor e de Uma Luta”. É um texto de memórias, afirma.

“Marco Aurélio iluminou a casa com risos, que corria pela vida com generosidade rara, beleza suave, essa alegria que parecia não caber no peito”, conta a mãe.

O estudante e os dois policiais se cruzaram na madrugada de 20 de novembro de 2024. O estudante caminhava pela avenida Conselheiro Rodrigues Alves em direção à hospedaria onde estava uma jovem com quem mantinha relacionamento.

Macedo e Do Prado, que estavam em uma viatura, pararam Marco Aurélio, que deu um tapa no retrovisor. Macedo, então, desceu e passou a persegui-lo. O estudante correu para o hotel. Lá, encurralado em um portão, levou um tiro na barriga disparado pelo soldado.

Marco Aurélio foi levado para o Hospital Ipiranga, na zona sul, a cerca de 6 quilômetros de distância, mesmo tendo sido baleado em uma rua com uma unidade médica e diversas outras nas proximidades. Depois se soube que o Hospital Ipiranga não tinha recursos para receber o estudante. A emergência estava superlotada, e o aparelho de tomografia, inoperante.

Segundo a investigação, Macedo conhecia Marco Aurélio. O soldado teria associado o jovem a um morador da favela Mario Cardim, também na Vila Mariana, sem saber que, de fato, o estudante vivia num amplo imóvel em outra rua da região.

Toda a ocorrência foi gravada pelas câmeras corporais usadas por Macedo e outros policiais militares envolvidos.

A investigação das polícias Civil e Militar indicaram que houve homicídio doloso, ou seja, Macedo teve intenção de matar. O Ministério Público chegou a pedir a prisão do PM, assim como os advogados da família.

Para o advogado João Carlos Campanini, que defende os dois policiais militares, a ação foi em legítima defesa. De acordo com ele, Macedo agiu “para defender a vida dele e a do outro policial, que chegou até ser derrubado de uma escada”.

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