Belarus liberta vencedor do Nobel da Paz e oposicionista; EUA aliviam sanções
Ales Bialiatski, prisioneiro libertado por Belarus e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2022, aparece em frente à embaixada americana em Vilnius, na Lituânia. - Gonzalo Fuentes/Reuters
O ditador da Belarus, Alexandr Lukachenko, libertou 123 prisioneiros no sábado (13), entre eles Ales Bialiatski, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2022, e a líder oposicionista Maria Kalesnikava, após dois dias de negociações com um enviado do presidente Donald Trump, segundo comunicado dos Estados Unidos.
Em troca, os EUA concordaram em suspender as sanções ao potássio belarusso. O antigo Estado soviético é um dos principais produtores globais do mineral, um componente essencial a fertilizantes.
Foi a maior libertação de prisioneiros determinada por Lukachenko desde que o governo de Donald Trump iniciou negociações este ano com o ditador, um aliado próximo do presidente russo, Vladimir Putin.
Governos ocidentais evitaram negociar com Lukachenko devido à repressão contra a oposição em Belarus e ao apoio do país à guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Bialiatski, um dos vencedores do Prêmio Nobel da Paz de 2022, é um ativista de direitos humanos que lutou durante anos em nome de prisioneiros políticos antes de se tornar um deles. Ele estava preso desde julho de 2021.
Também foram libertados Kalesnikava e Viktar Babarika, que foi preso naquele ano enquanto se preparava para concorrer contra o líder em uma eleição.
Tatsiana Khomich, irmã de Kalesnikava, disse à agência de notícias Reuters que falou com ela por telefone. “Ela me disse que está muito feliz por estar livre, que está agradecida aos EUA e a Trump por seus esforços em liderar o processo, e a todos os países envolvidos.”
Kalesnikava, 39, havia sido condenada em setembro de 2021 a 11 anos de cadeia. Ela fez parte do trio de mulheres que liderou uma frente contra Lukachenko na eleição presidencial de 2020. A opositora estava presa desde setembro de 2020, quando escapou pela janela de um carro e rasgou seu passaporte para evitar uma expulsão forçada do país. No dia anterior à prisão, ela havia sido sequestrada quando caminhava em Minsk e interrogada por agentes da KGB, a polícia secreta belarussa.
Após ser libertado, o ativista Bialiatski, que, segundo a esposa, seguia para a Lituânia, afirmou ao veículo da oposição belorussa Belsat que “a luta continua”. Sua mulher, Natalia Pinchuk, disse à agência de notícias AFP que suas primeiras palavras para ele foram: “Eu te amo”.
O Comitê Nobel Norueguês declarou alívio com a libertação de Bialiatski e voltou a pedir a libertação de outros presos.
Já Kalesnikava, transferida para a Ucrânia ao lado de outros detentos libertados, disse viver uma “felicidade surreal”, segundo vídeo divulgado pelo governo ucraniano. Ela também conversou por telefone com o presidente do país, Volodimir Zelenski.
Autoridades americanas disseram à Reuters que o engajamento com Lukachenko faz parte de um esforço para afastá-lo da influência de Putin, pelo menos em certo grau —um esforço que a oposição belarussa, até agora, via com ceticismo.
“Conforme as instruções do presidente Trump, nós, os EUA, suspenderemos as sanções ao potássio”, disse o enviado de Trump, John Coale, a repórteres em Minsk.
Os EUA e a União Europeia impuseram sanções a Belarus quando Minsk lançou uma violenta repressão contra manifestantes após uma eleição contestada em 2020, prendendo quase todos os opositores de Lukachenko que não tinham fugido para o exterior.
As sanções foram intensificadas depois que Lukachenko permitiu que a Belarus servisse como base para a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
A oposição belarussa no exílio também manifestou gratidão a Trump. Segundo eles, o fato de Lukachenko ter concordado em libertar prisioneiros em troca das concessões sobre o potássio é prova da eficácia das sanções.
Opositores têm afirmado que veem a aproximação de Trump com Lukachenko como um esforço humanitário, mas acreditam que as sanções da UE devem permanecer em vigor.
“As sanções dos EUA são sobre pessoas. As sanções da UE são sobre mudança sistêmica —parar a guerra, permitir a transição democrática e garantir responsabilização. Essas abordagens não se contradizem; elas se complementam”, escreveu a líder da oposição exilada Sviatlana Tsikhanouskaia em comunicado.
Lukachenko negou, em outras ocasiões, que existam prisioneiros políticos na Belarus e descreveu as pessoas em questão como bandidos. Ainda em agosto, ele questionou por que deveria libertar pessoas que ele vê como opositores do Estado e que poderiam “novamente travar uma guerra”.
Trump descreveu Lukachenko como “o altamente respeitado presidente da Belarus”, o que destoa da visão dos opositores, que o consideram um ditador. O americano instou o belarusso a libertar até 1.400 prisioneiros, descritos por Trump como reféns.
“Os Estados Unidos estão prontos para um engajamento adicional com a Belarus que promova os interesses americanos e continuarão a fazer esforços diplomáticos para libertar os prisioneiros políticos restantes no país”, escreveu, em nota, a embaixada dos EUA na Lituânia.
O grupo de direitos humanos belarusso Viasna —que é classificado por Minsk de organização extremista– contabilizou em 1.227 o número total de prisioneiros políticos no país, antes das libertações de sábado.
A agência de notícias estatal Belta citou o enviado de Trump, Coale, dizendo que ele discutiu uma ampla gama de questões com Lukachenko, incluindo a guerra da Rússia na Ucrânia e a situação na Venezuela.
Lukachenko fez duas reuniões recentes com um alto diplomata venezuelano e disse que o ditador do país sul-americano, Nicolás Maduro, seria bem-vindo a Belarus. Trump está pressionando Maduro a deixar o cargo.
por Reuters