Professor se torna palhaço após diagnóstico de Parkinson: ‘No humor, os tremores são aceitos’
Dirceu Krainski foi professor de pós-graduação na área da saúde. Aposentado devido ao Parkinson, resolveu entrar para a escola de teatro. — Foto: Arquivo pessoal
Dirceu Krainski Pinto, de 58 anos, começou a sentir os primeiros sintomas do Parkinson aos 42 anos de idade, quando atuava como professor. Na contramão da tristeza que vem logo após o diagnóstico, Dirceu aceitou a realidade e conseguiu reinventá-la por meio da arte. Ele se tornou palhaço e passou a ocupar um espaço onde os sintomas de Parkinson não apenas são aceitos, como tornam seus personagens ainda mais verdadeiros.
“Eu criei alguns personagens palhaços em que os movimentos do Parkinson são naturais para eles”, explica Dirceu.
Enfermeiro e ex-professor aposentado, decidiu procurar ajuda após ser questionado em sala de aula por uma de suas alunas: “professor, o senhor tem braço mecânico?”. Inquieto com a pergunta, Dirceu resolveu consultar um médico e lá recebeu o diagnóstico: “meu chão tremeu, a gente recebe o diagnóstico como se fosse uma sentença de morte”.
Passado o susto inicial, ele começou a ler sobre a doença. “Fui buscando conhecimento até conseguir encontrar uma maneira de enfrentar e de viver tranquilo e feliz, apesar do Parkinson”, lembra.
Decidido a sair da tristeza e de ressignificar seu diagnóstico, Dirceu buscou amparo na escola de teatro. “Eu precisava sair daquela crise de tristeza e depressão. Fui procurar, por recomendação médica, uma escola de teatro. Comecei a gostar realmente e hoje trabalho de palhaço nos lares de idosos de João Pessoa, além de realizar apresentações”, relata.

O palhaço conta que conviver com Parkinson não é nada fácil, mas não é impossível. “Você pode ressignificar sua vida, criando um sentido novo para ela”. Apesar de viver momentos desconfortáveis, ele afirma que “o parkinson veio pra mudar minha vida e mudou para melhor”.
“Eu falei: vou criar um novo sentido, não vou ficar chorando! Foi aí que me descobri palhaço. Então aproveito os sintomas do Parkinson, como a descoordenação, o movimento dos tremores e a lentidão, para fazer as apresentações. Botei em contato com humor o que o Parkinson me trouxe de modificação”, explicou.
“Criei personagens em cima dos movimentos da situação do Parkinson”, diz o ator. “Isso tem me dado uma qualidade de vida muito boa, pois além de estar fazendo atividades físicas, eu divirto as pessoas. Acho que todo mundo pode ressignificar sua vida”, afirma.

Na arte, tudo é possível. Dirceu coordena o grupo de teatro “Praiaços”, cujo lema é “alegria como instrumento de transformação e melhoria da qualidade de vida dos idosos e portadores de parkinsonismo”. O grupo realiza apresentações nos lares de idosos de João Pessoa, e outras apresentações independentes.
Enfrentando preconceitos
Além dos sintomas motores, a doença de Parkinson possui também sintomas não-motores, como ansiedade e depressão. Além disso, as pessoas com Parkinson enfrentam inúmeros preconceitos cotidianamente que podem agravar esse cenário.
Embora seja tão ativo na vida cultural da cidade, Dirceu não está isento dos preconceitos destinados ao parkinsoniano.
“O problema é que as pessoas têm muito preconceito, essa semana mesmo fui ao shopping e pedi uma refeição. Enquanto aguardava, comecei a ter alguns tremores e um rapaz começou me perseguindo. Creio que ele achava que eu estava drogado, aquilo me incomodou. Quando cheguei na praça de alimentação, ele falou para moça: ‘cuidado com ele’, e eu ouvi aquilo. Eu denunciei ao shopping, eles ficaram pedindo desculpa. Mas é muito desagradável, acontecem várias situações que é por puro desconhecimento da doença”.

Seu trabalho enquanto artista é motivado pelo desejo de informar a população sobre o parkinsonismo. Tanto para quem convive com ele, quanto para quem convive com os doentes. “Minha proposta é desenvolver esse trabalho de divulgação da importância de ajudar o parkinsoniano, pois o Parkinson dá trabalho. É uma doença de tratamento caro. Você tem que contar com o apoio dos outros e também ter a humildade de aceitar, não a situação desagradável de dor, mas a situação de que precisa ser tratada”.
Dirceu afirma que, em público, é comum que quem tem Parkinson seja acusado de estar drogado ou bêbado. “Então esse Dia Mundial de Conscientização do Parkinson é extremamente importante. Infelizmente, são muitas pessoas que estão dentro de casa por vergonha e é muito triste. Temos que fazer fisioterapia e exercícios, mas as pessoas não saem por medo de serem mal interpretadas e mal atendidas nos lugares que vão”.
“Eu me considero feliz e com bastante otimismo para viver”, diz o ator. Ele pedala, dirige dentro das condições seguras, e também faz pilates e ioga, além dos cursos de teatro que ministra. “Então acho que a minha vida ganhou um novo sentido, tem momentos chatos, mas tem coisas piores na vida. A gente pode viver bem feliz sem ficar se lamentando, e ajudar as pessoas para que tenham informação sobre isso. É muito útil você ser solidário para as pessoas”.
“Quando você faz a coisa com amor, tudo fica bonito, então vamos aproveitar esse momento para refletir nossa postura ou nossa não postura sobre como agir diante do parkinsoniano”, diz o palhaço Dirceu, pessoa com Parkinson.

Ele explica que para ser palhaço, não basta ser engraçado. “É necessário estar pleno na vida. Transformando dor em alegria, o palhaço segue espalhando sorrisos, ressignificando vidas e despertando motivos e a felicidade de viver a vida como eu posso e como eu quero. Para deixar a vida um pouco melhor do que a encontrei”.
Conscientização da Doença de Parkinson
Parkinson é uma doença degenerativa. Afeta uma área do cerébro que é responsável pelas capacidades motoras. Até o momento, possui tratameto, mas não cura. Manter uma rotina de realização de exercícios físicos é fundamental a quem tem a doença, bem como continuar a levar uma vida social saudável.
Nesta segunda-feira (11), é o Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson. Estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1998, a data tem como objetivo informar sobre a doença e sobre as possibilidades de tratamento para que o paciente e sua família tenham uma melhor qualidade de vida.
O neurologista especializado na doença de Parkinson, Alex Tiburtino Meira, afirma que é possível ter qualidade de vida tendo Parkinson. “A gente tem que entender que se trata de uma uma vida que, por ocasião, tem a doença. Uma doença crônica com a qual a gente pode lidar, com a qual a gente pode reabilitrar”.