Farmacêutico que trabalha com maconha para fins medicinais quebra preconceitos contra a profissão: ‘pode transformar vidas’
Plantação de cannabis medicinal na Abrace — Foto: Comunicação/Abrace
“Já escutei sim alguns comentários preconceituosos por parte de pessoas que não conhecem a seriedade do trabalho”, relatou o farmacêutico Carlos Espínola, de 35 anos, sobre o trabalho que desempenha com a produção e manuseio de maconha para fins medicinais, na Paraíba. Por outro lado, sempre que o profissional faz questão de explicar como o produto “pode transformar as vidas das pessoas, esse preconceito acaba”.
Esta é uma das reportagens de uma série que conta histórias curiosas e relatos do dia a dia de trabalhadores que atuam em funções não tão comuns para a maior parte da população. Para marcar o Dia do Trabalho, esses profissionais contam as particularidades, qualidades e desafios de cada profissão. O g1 também conversou com o porteiro de uma praia naturista e um necromaquiador.
Se algumas pessoas demonstram, em muitas vezes, estranhamento sobre a profissão de Marcos, no seio da família ele sempre encontrou compreensão, principalmente porque ele trabalha com a promoção de saúde e bem-estar.
“Por parte da minha família nunca sofri esse tipo de preconceito. Muito pelo contrário, sempre me apoiaram em tudo que eu fiz, e não iria ser diferente nessa profissão”, reforçou.

Para desenvolver esse trabalho, Carlos precisou se formar no curso de farmácia. Atualmente, ele assume as funções relacionadas ao cargo de diretor técnico – em regime de CLT – da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace). A instituição, atualmente, tem 31 mil associados do Brasil inteiro, que demanda do laboratório uma produção de, em média, 15 mil frascos de óleo de cannabis por mês.
Nessa função, ele tem a responsabilidade de gerir os assuntos técnicos da entidade, principalmente relacionados com a produção, controle e manutenção da qualidade dos medicamentos produzidos pela associação.
Por causa da função de gestão, ele acaba tendo que fazer muitas viagens a trabalho, e o horário diário destinado ao trabalho varia de acordo com a necessidade. Mas geralmente fica em torno de 8 a 10 horas por dia, entre inspeções e reuniões com as equipes e fornecedores.
Ainda na rotina da direção, o farmacêutico faz a gestão das equipes, reuniões com os fornecedores e realiza visitas técnicas nos setores, para garantir o cumprimento das normas vigentes e manter o trabalho na entidade.
A equipe de produção dos medicamentos ainda conta com outros profissionais, a exemplo de farmacêuticos, químicos e outros cargos técnicos.

Etapa para produção dos medicamentos à base de cannabis
A produção dos medicamentos que têm a cannabis como matéria-prima segue quatro fases (conheça todas mais abaixo) diferentes que se complementam. Todas elas são controladas para que o produto final atenda normas de segurança e qualidade.
Etapa 1 – O insumo vegetal (cannabis) é reproduzido e cultivado em áreas próprias só para essa finalidade. Isso garante segurança e rastreabilidade.
Etapa 2 – O insumo farmacêutico ativo (IFA) é extraído da cannabis no laboratório de extração para que haja um maior aproveitamento das substâncias dele.
Etapa 3 – O IFA é encaminhado para o laboratório de produção, onde todos os testes de qualidade são realizados até a diluição. Enquanto está no processo de fabricação, o produto passa por outras fases de controle de qualidade, com acompanhamento de lote a lote.
Etapa 4 – Após a aprovação e liberação dos lotes pelo laboratório, os medicamentos seguem para dispensação onde são encaminhados para os associados que fazem a solicitação.
Mas, não funciona assim com todos os medicamentos. Cada medicamento, segundo Carlos, tem suas particularidades de produção e também de controle de qualidade.
“Então cada indústria farmacêutica precisa desenvolver as etapas de acordo com as especificidades dos seus produtos”, explicou.
Entenda o que é a Abrace e como ser um associado
A Abrace é uma instituição sem fins lucrativos. A entidade, localizada em João Pessoa, tem autorização da Justiça brasileira desde o ano de 2017 para cultivar e oferecer medicamentos derivados na cannabis aos associados, nas formas de óleos e pomadas.
A entidade acredita tem a finalidade “não apenas de dar apoio às famílias que precisam de um tratamento com a cannabis medicinal, como também de apoiar pesquisas sobre o uso da planta”.
Para ser associado e ter acesso aos medicamentos, é necessário que o paciente passe por atendimento médico. Todos os produtos só podem ser disponibilizados mediante apresentação da receita de acordo com o catálogo da Abrace.
Para fazer o cadastro, é necessário apresentar os seguintes documentos:
- Receita médica;
- Laudo contendo a Classificação Internacional de Doenças (CID);
- Termo de ajuizamento;
- Documento com foto do paciente. Caso o cadastro seja feito por um responsável, ele também deve anexar também o seu documento com foto.
A receita e laudo médico têm prazo de validade de apenas um ano, desde que não haja validação inferior do médico, sendo necessário sua atualização após esse período.
Após fazer o cadastro, é necessário aguardar o prazo de ativação de até cinco dias úteis. Assim que tiver o cadastro for ativado, o paciente recebe um e-mail com a confirmação e o link de pagamento de uma taxa associativa. Depois do pagamento, é só aguardar a compensação no sistema e pedir o produto de acordo com a receita médica.