BC corta Selic de novo em 0,25 ponto, a 14,5% ao ano, mas vê inflação mais longe da meta
O economista Gabriel Galípolo. Foto: Reprodução
por Folha de S.Paulo
O Copom (Comitê de Política Monetária) manteve o ritmo gradual de redução de juros e repetiu o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica (Selic), de 14,75% para 14,5% ao ano. O colegiado do Banco Central optou por um ajuste conservador depois de ver as projeções para inflação mais distantes da meta de 3%.
A decisão foi tomada por unanimidade pelo presidente, Gabriel Galípolo, e mais cinco diretores, com três desfalques na reunião da quarta-feira (29).
No comunicado, o comitê reforçou a necessidade de cautela e não sinalizou abertamente o rumo de seus próximos movimentos, evitando se comprometer antecipadamente com os ajustes futuros.
No encontro anterior, em março, quando iniciou a flexibilização dos juros, o comitê já tinha deixado seus passos seguintes em aberto diante do aumento da incerteza frente à guerra no Irã. A ideia era ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito geopolítico.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, destacou.
Sem paz à vista, a expectativa do mercado financeiro era de um passo pequeno. O consenso das projeções de analistas apontava para um corte de 0,25 ponto na Selic, a 14,5% ao ano, segundo a agência Bloomberg. Apenas uma casa de análise, entre as 31 consultadas, apostava na manutenção do patamar de 14,75% ao ano.
Diante da incerteza no ambiente global, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu manter os juros entre 3,5% e 3,75% ao ano pela terceira reunião consecutiva, na despedida de Jerome Powell como presidente do órgão. Agora, a diferença entre os juros dos Estados Unidos e do Brasil está em 10,75 pontos percentuais.
No cenário de referência do Copom, a estimativa de inflação para este ano saltou de 3,9% para 4,6%. Para 2027, o comitê vê a inflação em 3,5%. No último encontro, quando mirava o terceiro trimestre do ano que vem, a projeção estava em 3,3%.
O colegiado voltou a dizer que as projeções de inflação apresentaram distanciamento adicional em relação à meta. Mas ponderou que a incerteza em relação a suas próprias estimativas cresceu consideravelmente, diante da falta de clareza sobre a duração da guerra e de seus impactos.
O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No atual modelo, de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
Ao justificar a decisão de dar sequência ao ciclo de queda da Selic, mesmo com a inflação subindo, o Copom disse notar os efeitos dos juros altos por longo período sobre a desaceleração da atividade econômica.
Segundo ele, isso criou condições para que “ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis” de forma a garantir a convergência da inflação à meta.
O último boletim Focus registrou elevação da expectativa para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 2026 a 4,86% –acima do teto da meta (4,5%). Para 2027 –prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia–, a estimativa de inflação atingiu 4%.
No acumulado de 12 meses até março, o IPCA chegou a 4,14%. Nesta terça (28), o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), que sinaliza uma tendência para a inflação oficial do país, já mostra pressão sobre preços de combustíveis e alimentos.
“A inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação”, disse no texto.
A análise da conjuntura internacional voltou a ocupar posição central na discussão do Copom. A incerteza, segundo o comitê, está relacionada à indefinição sobre a “duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais.
Nas últimas semanas, não houve sucesso nas negociações para o fim da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, e o preço do petróleo manteve-se acima de US$ 100. O barril Brent, referência mundial, chegou a US$ 111 nesta quarta, maior valor desde 7 de abril.
O câmbio, por outro lado, apresentou melhora desde o último encontro, com o dólar cotado a R$ 5. Em março, a cotação da moeda americana usada pelo comitê em seus cálculos para projeção de inflação era de R$ 5,20.
Em relação à política fiscal, o Copom voltou a dizer que segue acompanhando seus efeitos sobre a política de juros e sobre os ativos financeiros, enfatizando que esse quesito reforça a postura de cautela em cenário de maior incerteza.
Para o colegiado do BC, o cenário doméstico continua marcado por projeções de inflação elevadas e expectativas distantes da meta. Enquanto a trajetória da atividade econômica apresenta moderação no crescimento, com recuperação em relação ao fim de 2025, mas desaceleração acumulada neste ano, o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência, segundo seus membros.
O comitê ressaltou que os riscos que podem mudar a trajetória da inflação permanecem mais elevados do que o usual por influência da guerra no Oriente Médio e acrescentou o tema do petróleo em seu balanço.
Entre os fatores que puxariam os preços para cima, que ganharam mais relevância no comunicado, destacou a possibilidade de as expectativas de inflação seguirem distantes da meta por longo período, mencionando impactos potenciais em caso de restrições de oferta de petróleo e seus derivados.
Também repetiu a chance de a inflação de serviços se mostrar mais persistente em função de um hiato do produto mais positivo (quando a economia opera acima do seu potencial e sujeita a pressões inflacionárias). Mencionou ainda possíveis impactos provocados por políticas econômicas dentro e fora do Brasil, como um câmbio mais depreciado.
Entre os elementos que afetariam os preços para baixo, o Copom repetiu o risco de a economia doméstica perder força de forma acentuada e a chance de haver uma desaceleração global mais forte em função de um choque de comércio e do petróleo ou do próprio cenário de incerteza. Citou ainda uma eventual queda nos preços das commodities.
Continuam vagas as diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, enquanto o governo Lula (PT) não indica os substitutos de Diogo Guillen e Renato Gomes, cujos mandatos terminaram em 2025. O diretor Rodrigo Teixeira (Administração) não participou do encontro devido ao falecimento de um familiar.
O colegiado voltará a se reunir nos dias 16 e 17 de junho, no quarto dos oito encontros previstos para o ano.