Com tarifas e ameaças, Trump tenta forçar nações a recuarem em metas climáticas
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen - Brendan Smialowski/AFP
O presidente Donald Trump não está apenas trabalhando para interromper a transição dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos. Ele está pressionando outros países a relaxarem seus compromissos de combate às mudanças climáticas e, em vez disso, queimarem mais petróleo, gás e carvão.
Trump, que se uniu aos republicanos no Congresso para destruir o apoio federal a veículos elétricos e à energia solar e eólica, está aplicando tarifas, impostos e outros mecanismos da maior economia do mundo para induzir outros países a queimarem mais combustíveis fósseis.
Sua animosidade está focada principalmente na indústria eólica, que é uma fonte de eletricidade bem estabelecida e em crescimento em vários países europeus, assim como na China e no Brasil.
Durante uma reunião de gabinete na terça-feira (26), Trump disse que estava tentando educar outras nações. “Estou tentando fazer com que as pessoas aprendam sobre energia eólica rapidamente, e acho que fiz um bom trabalho, mas não bom o suficiente porque alguns países ainda estão tentando”, disse Trump.
Ele afirmou que os países estavam “se destruindo” com energia eólica e disse: “Espero que eles voltem aos combustíveis fósseis.”
Há duas semanas, o governo prometeu punir países —aplicando tarifas, restrições de vistos e taxas portuárias— que votarem a favor de um acordo global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa do setor de transporte marítimo.
Dias depois, em Genebra, a administração Trump se juntou à Arábia Saudita e outros países produtores de petróleo para se opor aos limites na produção de plásticos à base de petróleo, cujo uso explodiu nos últimos anos e estão poluindo cursos d’água, prejudicando a vida selvagem e foram detectados até mesmo no cérebro humano.
No mês passado, a gestão Trump fechou um acordo comercial com a União Europeia no qual concordou em reduzir algumas tarifas se o bloco comprasse US$ 750 bilhões (R$ 4 trilhões, na cotação atual) em petróleo e gás americanos ao longo de três anos. Esse acordo levantou preocupações em alguns países europeus porque entraria em conflito com planos para reduzir o uso de combustíveis fósseis, cuja queima é o principal motor das mudanças climáticas.
“Eles estão claramente usando várias ferramentas em uma tentativa de aumentar o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo em vez de diminuí-lo”, disse Jennifer Morgan, ex-enviada especial da Alemanha para ação climática.
Também no mês passado, o secretário de Energia Chris Wright advertiu que os Estados Unidos poderiam se retirar da Agência Internacional de Energia depois que a organização previu que a demanda global por petróleo atingiria o pico nesta década em vez de continuar a subir.
Wright disse aos europeus em abril que eles enfrentavam uma escolha entre a “liberdade e soberania” dos abundantes combustíveis fósseis e as políticas de “alarmismo climático” que os tornariam menos prósperos.
Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, disse que o objetivo de Trump era “restaurar a dominância energética da América, garantir a independência energética para proteger nossa segurança nacional e reduzir custos para famílias e empresas americanas”, e acrescentou: “A administração Trump não colocará em risco a segurança econômica e nacional do nosso país para perseguir metas climáticas vagas.”
Especialistas em energia e autoridades europeias consideraram preocupante o nível de pressão que Trump está exercendo sobre outros países.
O ano passado, o mais quente já registrado, foi o primeiro em que a temperatura média global ficou 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Junto com isso vieram calor mortal, seca severa e incêndios florestais devastadores. Este ano está a caminho de ser o segundo ou terceiro mais quente já registrado, de acordo com dados de várias agências.
Cientistas concordam amplamente que, para evitar consequências ainda piores das mudanças climáticas, os países precisam fazer uma transição rápida dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpa como eólica, solar, geotérmica e hidrelétrica.
“Neste momento, é absolutamente imperativo que os países redobrem, tripliquem sua colaboração diante da crise climática para não permitir que os esforços ativos por um mundo de combustíveis fósseis pela gestão Trump tenham sucesso”, disse Morgan.
Trump rotineiramente zomba da ciência estabelecida sobre mudanças climáticas e seu governo emitiu um relatório, escrito por cinco pesquisadores que rejeitam o consenso científico sobre o tema, argumentando que centenas dos principais especialistas do mundo exageraram os riscos de um planeta em aquecimento. O presidente também não fez segredo de seu desgosto por turbinas eólicas e painéis solares.
A energia eólica representa cerca de 20% da matriz elétrica na Europa, e os países da União Europeia planejam que esse índice ultrapasse 50% até 2050.
“A energia eólica precisa de subsídios massivos, e vocês estão pagando na Escócia e no Reino Unido, e em todos os lugares onde eles os têm, subsídios massivos para ter esses monstros feios por toda parte”, disse Trump em reunião com o primeiro-ministro britânico, Kier Starmer.
A pressão vai muito além das ações de Trump durante seu primeiro mandato, disseram alguns observadores.
Como fez em 2017, em janeiro Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, um pacto global entre quase 200 países para combater as mudanças climáticas. Mas, durante o primeiro mandato, Trump concentrou principalmente sua política energética na retirada dos Estados Unidos das discussões globais sobre mudanças climáticas enquanto promovia a produção doméstica de combustíveis fósseis.
Desta vez, o governo está “tentando ativamente minar [os esforços de] países” contra o aquecimento global, disse David L. Goldwyn, presidente da Goldwyn Global Strategies, uma empresa de consultoria em energia.
Vários diplomatas de outros países disseram que a gestão Trump tem usado táticas cada vez mais agressivas para influenciar políticas energéticas internacionais.
Em fevereiro, Wright dirigiu-se a uma conferência em Londres por vídeo e chamou a meta de zerar emissões líquidas (quando a quantidade de dióxido de carbono adicionada à atmosfera é igual ou menor que a quantidade removida) de “objetivo sinistro” e criticou uma lei britânica para atingir o chamado net zero até 2050.
Em março, a administração denunciou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que foram adotados por nações unanimemente em 2015 e incluem acabar com a pobreza e a fome, e abordar as mudanças climáticas. O governo Trump disse que “o governo dos Estados Unidos deve se concentrar novamente nos interesses dos americanos” e corrigir o rumo em questões como “ideologia climática”.
O governo se recusou a participar das negociações globais que precedem a COP30, cúpula climática das Nações Unidas, a ser realizada no Brasil em novembro.
Também não compareceu a uma reunião de abril da Organização Marítima Internacional, onde os maiores países do mundo em navegação concordaram em impor uma taxa mínima de US$ 100 (RS 541) por tonelada de gases de efeito estufa emitidos por navios acima de certos limites como forma de reduzir as emissões. Esperava-se que o órgão adotasse formalmente a taxa em outubro.
Mas o anúncio da administração este mês de que rejeitaria o acordo da organização marítima chocou muitos com sua promessa de que os Estados Unidos “não hesitariam em retaliar” contra outros países que apoiam a taxa de navegação.
Enquanto isso, praticamente todos os acordos comerciais da gestão Trump incluem requisitos de que os parceiros comerciais comprem petróleo e gás dos EUA.
“Você vê uma tentativa mais sistemática de se ter uma estratégia de combustíveis fósseis em primeiro lugar para tudo o que eles fazem”, disse Jake Schmidt, diretor de programas internacionais do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um grupo ambientalista.
O governo americano pode desacelerar a transição para energia limpa por outros países, mas não pode detê-la, disse Schmidt. A maioria dos países que assinaram o Acordo de Paris apresentará metas mais ambiciosas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa às Nações Unidas este ano, embora alguns possam moderar esses planos devido à posição dos EUA, disse ele.
Diana Furchtgott-Roth, diretora do Centro de Energia, Clima e Meio Ambiente da Fundação Heritage, uma organização de pesquisa conservadora, argumentou que a administração Trump estava fazendo a coisa certa ao pressionar os países a rejeitarem a energia renovável.
“A Europa está vindo aos Estados Unidos dizendo: ‘Ajude-nos a nos defender contra a Rússia, ajude-nos com a Ucrânia'”, disse Furchtgott-Roth. “Ao mesmo tempo, eles estão gastando US$ 350 bilhões por ano em investimentos em energia verde que estão desacelerando suas economias.”
“Isso não parece fazer muito sentido para a administração Trump”, disse ela, acrescentando: “Acho que vamos ver mais pressão.”