Confira 4 desafios na saúde de um planeta com 8 bilhões de habitantes

Planeta Terra. Crédito: Getty Images

Por Juliana Contaifer

O planeta Terra chegou à marca recorde de 8 bilhões de habitantes, na última semana, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Há um século, a população era de apenas 2 bilhões e a estimativa do órgão internacional é que em 2100 teremos cerca de 10,4 bilhões de pessoas no mundo.

O crescimento rápido da população nos últimos 100 anos se deu, em grande parte, pelos avanços na saúde e medicina. Mais bebês sobreviveram à primeira infância e chegaram saudáveis à vida adulta, enquanto novos tratamentos e medicamentos garantiram mais anos de vida aos idosos.

A expectativa é que, nos próximos anos, o crescimento populacional ocorra, principalmente, em países de baixa renda, o que deve sobrecarregar serviços de saúde e educação não preparados para lidar com a quantidade de pessoas.

A explosão populacional também deve impactar o meio ambiente, aumentando os danos à natureza. Com a população demandando por mais espaço, também cresce a necessidade de recursos naturais e alimentos para manter a saúde e qualidade de vida.

“Vamos ter comida suficiente para uma população global em crescimento? Como vamos cuidar de mais pessoas na próximas pandemias? O que o calor vai fazer com os milhões de pacientes com hipertensão? Os países vão entrar em guerra pela água com o agravamento das secas?”, questiona a cientista de saúde e meio ambiente da Universidade de Pittsburgh (EUA), Maureen Lichtveld, em artigo publicado na plataforma de divulgação científica The Conversation.

Confira quatro desafios que o mundo terá que enfrentar por causa do crescimento da população:

Evitar novas pandemias

Segundo o epidemiologista Jonas Brandt, professor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), a tendência é que, nos próximos anos, o mundo tenha um aumento na frequência de eventos de importância em saúde pública — chamados popularmente de pandemias.

“A gente aumenta a densidade de pessoas, então a interação aumenta e isso faz com que uma doença saia de uma região para a outra muito mais rapidamente, como vimos no contexto da pandemia de Covid-19. Esse cenário é bem descrito na história recente da humanidade: o mundo vigia esses eventos e percebemos um aumento na frequência de surtos e epidemias”, explica o professor.

Ele conta ainda que a velocidade de transmissão de vírus e bactérias tem se mostrado cada vez maior. Um vírus que antes era endêmico e ficava restrito a alguns países da África, por exemplo, agora já sai do continente e é transmitido para um grupo importante de pessoas de maneira muito rápida.

Evitar as consequências do aquecimento global para a saúde

Brandt lembra que as mudanças climáticas causadas pelo desmatamento, emissão de combustíveis fósseis e descaso com o meio ambiente devem aumentar a quantidade de eventos climáticos extremos nos próximos anos. “O mundo vai passar por mais tempestades e furacões, e os períodos de seca e de chuvas serão mais intensos”, conta.

No artigo publicado na The Conversation, Maureen explica que as mudanças climáticas também provocarão um salto nas doenças infecciosas. Enchentes causam acúmulo de água, ambiente perfeito não só para a proliferação de mosquitos vetores de condições já conhecidas, como também de bactérias perigosas.

“As enchentes podem transmitir organismos que vivem na água e causam hepatite e doenças que causam diarreia, como cólera. Esse cenário é particularmente preocupante quando uma grande quantidade de pessoas precisa ser realocada depois de um desastre e permanecer em locais com baixa qualidade de água”, escreve a cientista.

O epidemiologista da UnB explica que os agentes infecciosos estão sempre tentando se manter transmissíveis. Quando o ambiente se altera, abre uma possibilidade de novas interações para esse agente. “Se uma pessoa entra na mata para desmatar porque precisa de lenha, ela está interagindo com um ecossistema novo”, explica.

Essa invasão nas áreas onde vivem muitos animais selvagens acaba forçando-os a se mover. Brandt conta que um exemplo comum é quando se desmata uma região com morcegos hematófagos, que se alimentam de sangue. Sem suas presas comuns, eles normalmente passam a buscar o ser humano para se alimentar, transmitindo várias doenças infecciosas.

O aquecimento global, que é uma consequência da emissão de combustíveis fósseis, pode causar ondas de calor — problema que pode piorar problemas de saúde já existentes, como as doenças cardiovasculares e as respiratórias. As ondas extremas de altas temperaturas tendem a aumentar danos ao coração, cérebro e rins. A baixa qualidade do ar, por sua vez, também intensifica quadros de alergia e asma.

“Tudo isso leva a um desafio da sociedade que é construir maior resiliência, ou seja, capacidade de lidar com eventos extremos sem que isso nos afete muito. Como é que a gente faz isso? Construindo, organizando a nossa sociedade para dar conta. Precisamos repensar como é que as nossas casas estão construídas, como é que os nossos bairros, as nossas cidades, a nossa organização, está colocada”, completa Brandt.

Garantir água potável para todos

As futuras secas e chuvas concentradas devem dificultar o acesso da população à água potável — com o derretimento das calotas polares e da neve no topo das montanhas pode ficar mais difícil achar água.

A ONU estima que até 2030 cerca de 700 milhões de pessoas podem ter que se mudar para outra região na procura por água potável abundante. “Combinado com o crescimento da população e o aumento das necessidades energéticas, esse movimento pode dar combustível para conflitos geopolíticos enquanto os países competem por água”, alerta Maureen.

Garantir atendimento de saúde para todos

Para Brandt, o maior desafio de um planeta com 8 milhões de habitantes será organizar como será feita a atenção à saúde desta população. Segundo ele, é importante que o assunto seja visto como um direito para que sejam pensadas ações de prevenção de doença e tratamento.

O epidemiologista acredita que o futuro está na atenção primária: o centro de saúde pequeno, perto da casa das pessoas, que pode agilizar o atendimento e garantir a qualidade de vida da população.

“No final, tudo é saúde. É a coisa mais importante que a gente tem. Esse vai ser o nosso desafio, garantir com que, mesmo com esse crescimento populacional, se tenham ações de prevenção e tratamento principalmente na ótica da atenção primária. Com isso, podemos evitar o sofrimento de muitas pessoas neste futuro desafiador, com tantas mudanças climáticas, que devemos ver nos próximos anos”, diz o professor da UnB.

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