Cursos a distância com nota insuficiente formaram metade dos professores do país em 2025
Espaço de trabalho de aluna de educação a distância em São Paulo - Jardiel Carvalho - 22.fev.24/Folhapress
por Folha de S.Paulo
Mais da metade dos formados em licenciaturas no ano passado estudou em cursos ofertados a distância com desempenho insuficiente, mostram dados do Enade das Licenciaturas divulgados na tarde da quarta-feira (20) pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini.
Foram avaliados 4.948 cursos de formação de professores em todo o país, da rede pública e privada.
Das 1.314 graduações a distância avaliadas, 682 (52%) obtiveram conceito Enade 1 e 2. Esse patamar é considerado inadequado —cursos com esse desempenho podem sofrer ações de regulação do ministério.
Juntos, esses cursos foram responsáveis por 155,5 mil estudantes formados para atuar como professores na educação básica brasileira. Isso representa 53% do total de concluintes nas licenciaturas do país.
Desse total de alunos formados em cursos a distância com nota insatisfatória, 151,7 mil (97,5%) estudaram na rede particular.
O conceito Enade é calculado pela nota das provas feitas pelos alunos. Ele é agrupado em uma escala de 1 a 5 e expressa o desempenho médio dos estudantes na área de avaliação em que ele estudou.
Assim como no caso da medicina, com o Enamed, o Enade de Licenciaturas também inovou ao determinar um nível de proficiência considerado básico, o que não ocorre no exame de outras áreas.
Dessa forma, a escala de 1 a 5 reflete percentuais de estudantes proficientes. Notas até o conceito 2 significam que o curso não conseguiu ter mais de 60% dos estudantes com a proficiência considerada básica.
Na média de todas as áreas em cursos EAD, 47% dos 116.982 concluintes que fizeram a prova conseguiram ficar acima do básico. Já no presencial esse índice ficou em 74%.
O percentual de cursos a distância com desempenho insatisfatório é pior na comparação com as graduações presenciais, já que menos de um terço (28,8%) desses obtiveram conceito 1 e 2. Eles formaram cerca de 23 mil professores no ano passado —7,8% dos mais de 293 mil concluintes de licenciatura do país.
A proporção de cursos a distância com desempenho insatisfatório é alto tanto na rede privada quanto na pública. Nas instituições particulares, 52,9% dos cursos nessa modalidade obtiveram conceito 1 e 2. Nas universidades públicas, 47,2% tiveram nota insuficiente —esses cursos foram responsáveis por formar 3.700 professores (pouco mais de 1% dos formados no país no ano passado).
Na rede pública, mesmo que o número de cursos a distância que obtiveram conceito 4 e 5 (patamar de desempenho acima da média nacional) seja menor (17,9%), eles foram responsáveis por formar mais 4.765 alunos.
Os estados da região Norte têm a maior proporção de cursos com nota insuficiente, que representam 46,3% de todas as licenciaturas ofertadas na região. Em seguida, aparecem os estados do Centro-Oeste, com 39,4%. A menor proporção se encontra no Sudeste, com 30,3% dos cursos com baixo desempenho.
O Enade das Licenciaturas foi anunciado em 2024 pelo governo Lula (PT), dentro de uma série de medidas para tentar melhorar a formação de professores no país. Esses cursos passaram a ser avaliados anualmente, o que antes ocorria apenas a cada três anos.
A prova também passou a ter mais foco na prática docente em vez do domínio dos conteúdos disciplinares de cada área.
Instituições privadas criticam metodologia
Segundo Barchini, os resultados mostram “um retrato fidedigno para melhorar as políticas públicas do Brasil”. Ele afirma que o atual governo já tem atuado para fortalecer o modelo de formação docente, com foco em melhorias na oferta não presencial.
“O Enade produz visão sistemática da qualidade da formação inicial de professores no país. Mas não basta só regular, o MEC tem de induzir melhoria”, disse Barchini, em encontro com jornalistas na manhã de quarta. “O governo já tomou medidas específicas, como, por exemplo, proibindo o EAD nas licenciaturas”, completo.
O diretor-executivo do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho, diz que os resultados mostram um cenário gravíssimo e que deveria ser alçado a prioridade número 1 do país, tanto do atual governo quanto na discussão eleitoral.
“Não é exagero dizer que, com caras exceções, a formação inicial do Brasil passa por um cenário gravíssimo, e a modalidade do EAD é sinônimo da precarização”, diz ele, ressaltando que os maus resultados ocorrem em uma avaliação que não tem uma exigência alta.
Para Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna, o Enade de Licenciaturas é importante para o desenho de políticas baseadas em evidências. “De fato, estamos diante de um quadro que não é de oposição à formação EAD, mas é que vai ficando claro que uma formação só a distância não é adequada”, diz ela, que foi secretária de Educação Básica do MEC. “Espero que esses resultados causem tanta indignação para a formação inicial dos professores quanto houve com relação aos dados sobre a formação médica.”
Em nota, a Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) criticou a metodologia do Enade das Licenciaturas. “O modelo pode gerar situações em que cursos com bom desempenho acadêmico não alcancem conceitos satisfatórios devido à forma como a escala de resultados é estruturada”, diz nota da associação, uma das que representam as instituições privadas de ensino superior.
“Isso pode comprometer a leitura adequada da qualidade dos cursos e induzir interpretações equivocadas sobre o desempenho das instituições”, completa a entidade.
Já o Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior) disse que os resultados mostram o tamanho do desafio enfrentado pelo país para formar melhor os professores.
“É importante destacar que os resultados não podem ser analisados de forma simplista ou reduzidos exclusivamente a uma discussão sobre modalidade de ensino. A educação a distância é amplamente utilizada em diversos países com elevados indicadores educacionais e representa hoje uma importante estratégia de ampliação do acesso ao ensino superior e à formação de professores”, diz a nota.
Também criticou a metodologia usada pelo MEC para divulgar os resultados, sem levar em consideração o perfil socioeconômico dos estudantes. “Avaliar apenas o desempenho final dos estudantes, sem considerar as condições de ingresso e o quanto o aluno evoluiu ao longo do curso, pode produzir análises distorcidas e injustas sobre a efetiva contribuição das instituições para a formação docente.”
Estudantes que tenham ingressado neste ano em licenciatura a distância poderão ter cursos adaptados às novas normas ao longo da graduação, explicou a secretária de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, Marta Wendel Abramo.
Ela afirma que não há previsão de sanções para cursos com notas baixas porque as novas normas já colocaram em extinção os cursos 100% EAD nas licenciaturas, e haverá a transição para o novo modelo presencial ou semipresencial.
O setor privado de ensino superior tem feito pressão por menores exigências de atividades totalmente presenciais dentro da discussão do CNE (Conselho Nacional de Educação). Eles defendem que o problema na qualidade do ensino não está na quantidade de horas a distância, mas no baixo engajamento estudantil nas atividades.
Para Haroldo Rocha, coordenador do Movimento Profissão Docente, os dados mostram que o MEC acertou nas ações que exigiram mudanças nos cursos EAD. “Os dados mostram que o caminho está certo e não se deve voltar atrás.”
