Discussão sobre criminalização do aborto passou longe das igrejas; entenda

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Foto: Pixabay

Se na Câmara dos Deputados o PL Antiaborto começou a tramitar em regime de urgência, na base das igrejas católicas ou evangélicas a discussão sobre a criminalização do aborto praticamente nunca existiu. Ou seja, passou longe dos corredores eclesiásticos e não reflete uma demanda das pessoas que frequentam missas e cultos, conforme afirmam mulheres cristãs ouvidas pela reportagem.

Agora, com a inclusão de uma pauta que elas não abordavam nas igrejas, tiveram que se manifestar. Algumas contra a criminalização de meninas e mulheres vítimas de violência sexual que fazem aborto e outras a favor de qualificá-las como homicidas.

Na avaliação da pastora Odja Barros, da Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, não houve nenhuma discussão ou consulta organizada que justificasse a urgência do PL Antiaborto. A mobilização contrária se deu depois de 12 de junho, quando a urgência foi aprovada na Câmara.

Segundo ela, a proposta foi um “retrocesso imenso” e, se aprovada, vai atingir principalmente as mulheres periféricas, pretas e pobres que não têm acesso a clínicas particulares para abortar.

Além disso, entende que corpos de meninas e mulheres estão sendo usados como barganha política em um jogo de poder que envolve vários interesses. “Na realidade, não é uma preocupação com a vida [dos futuros bebês], é barganha de poder”, afirma Odja.

Para a pastora, a imposição do PL Antiaborto é um dos aspectos que a extrema direita levantou para instituir uma doutrina religiosa, apesar de vivermos em um Estado laico. Na visão dela, é incoerente que o movimento protestante, que surgiu inclusive defendendo a separação de Estado e igreja, queira que o Brasil seja regido por uma única fé religiosa.

“Para minha concepção de fé, a Bíblia é o meu livro sagrado. Mas ela não pode ser imposta como um livro que vai reger uma sociedade livre, laica. Então, essa é uma grande ameaça”, afirma.

A advogada católica Angela Martins, 63, defensora do PL Antiaborto, em sua residência, em São Paulo – Zanone Fraissat/Folhapress

Membro da Igreja Presbiteriana de Moema, na zona sul de São Paulo, a doula Viviane do Vale Bon Campos, 40, diz que soube do projeto pelo grupo de WhatsApp de profissionais da sua área. Até então, o tema, sensível tanto no seu meio religioso quanto profissional, não tinha sido alvo de discussão. E tomar conhecimento da proposta não a fez mudar de ideia.

“Não sou a favor do aborto. Mas isso não quer dizer que eu concorde que as mulheres sejam presas porque o fizeram. Uma coisa é você ser ou não a favor do aborto; a outra é prender pessoas que fazem esse ato, inclusive médicos”, afirma.

Para a ginecologista e obstetra Maria de Lourdes Costa, 46, a Malu, membro da Igreja Casa da Rocha, na zona sul de São Paulo, o tema é ainda mais delicado. O que fazer se uma paciente procurá-la pedindo que faça um aborto? Por objeção de consciência religiosa ela pode se negar a fazer.

Como cristã, afirma categoricamente que não faria um aborto nela nem em uma paciente. Apesar disso, levanta outra questão: não fazer o aborto resolve o problema?

“Muitas vezes a gente permite que a criança nasça e vamos matá-la no nosso dia a dia pela falta de oportunidades. É muito fácil falar ‘estamos matando um feto, isso é um crime’. Crime é o que a gente comete todos os dias não dando assistência, não acolhendo toda essa população de forma digna. Aí a gente mata [essa criança] um pouquinho por dia”, avalia Malu.

A historiadora da religião Pamela Campos, 28, da comunidade O Reino em Pessoa, acredita que a discussão sobre o aborto deveria começar com um passo atrás, com educação sexual, por exemplo. Segundo ela, a bancada evangélica que apresentou o PL Antiaborto “não é uma representação completa dos espectros dos movimentos cristãos no Brasil”.

“A gente precisa muito sinalizar que o movimento cristão no Brasil está em disputa, e ele é muito amplo, plural e diverso”, diz Pamela. Por isso, segundo ela, a apresentação do projeto não é uma demanda de toda a comunidade cristã brasileira e, por consequência, não é uma urgência debatê-la.

A advogada católica Angela Martins, 63, por sua vez, diz que a criminalização do aborto nunca foi tema de discussões na igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, onde frequenta as missas dominicalmente, mas defende a urgência da tramitação do projeto. Na sua visão, é necessário defender a vida, “ou seja, a vida de um bebê já formado”.

“O que me move [a defender o PL Antiaborto] é a Constituição, que fala que a vida humana é inviolável para nós, e ali [no útero] tem uma vida humana já formada. E, como católica, esse entendimento me garante que eu estou no caminho certo”, afirma Angela, que foi secretária Nacional da Família durante o governo Jair Bolsonaro (PL).

A empreendedora católica Isabela Leite, 20, da paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, é uma exceção entre as cristãs ouvidas pela reportagem. Foi a única que disse que o tema criminalização do aborto foi discutido entre os membros de sua igreja.

“Temos um grupo de jovens e sempre discutimos temas polêmicos e assuntos que ferem a dignidade humana, e aborto foi um deles”, conta Isabela, que se manifesta a favor do PL Antiaborto.

“Defendo que a mulher que deseja continuar com a gravidez fruto de um estupro deve ter total amparo da igreja, e o trauma deve ser tratado. Mas, se ela assassinar o feto dentro do ventre está cometendo um homicídio e deve ser punida”, afirma.

A gerente comercial Marcela Costa, 45, membro da Igreja da Paz, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, também se manifesta como favorável ao PL Antiaborto por estar, segundo ela, de acordo com o que acredita da Bíblia. “Antes de me converter, não era contra o aborto. Hoje, tenho um entendimento melhor, à luz da palavra, que a vida é um presente de Deus”, diz.

Com as manifestações contrárias ao PL Antiaborto, seis dias após a aprovação da urgência, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) recuou e disse que iria criar uma “comissão representativa” para analisar o mérito da proposta. Para aliados, o político reconheceu que sofreu muito desgaste ao acelerar a tramitação.

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