
O Brasil é o país do diploma. Se a pessoa não fizer uma faculdade, mestrado e doutorado, em princípio nada do que fala presta.
Muito disso se deve a os cursos superiores sempre terem sido mais frequentados pelas camadas mais ricas. E por um motivo lógico: somente uma família que não dependa da contribuição financeira de seus filhos para tentar ter o mínimo pode reservar determinado tempo para os estudos.
Tanto é assim que um dos argumentos é não perder tempo com estudo quando é preciso ajudar na sobrevivência da família.
Na lógica da escassez, o foco é o presente, sair do sufoco e sobreviver mais um dia. Não sobra espaço para planejamento.
Daí a grande necessidade de fortalecer políticas públicas para que o estado de necessidade das famílias não comprometa o futuro de seus filhos e também do país.
A busca pela dignidade, reconhecimento enquanto ser humano e respeito social faz com que esse lugar exclusivíssimo da elite nas universidades seja o sonho de todo mundo, de ser doutor(a). Como consequência, precisamos de um papel para comprovar uma inexistente relação entre títulos e inteligência.
O que, em tese, até faria sentido, se houvesse igualdade de condições de acesso e de exigência séria para obter tais comprovações que, na verdade, são de um pretenso esforço, diante do questionamento surgido na década de 1980 do que é inteligência ou mesmo de que existe apenas uma legítima ou válida.
Havia, portanto, uma necessidade de democratizar o acesso a mais tempo de estudos e, dessa maneira, de também ingressar no ensino superior. Só que a escassez era tanta que hoje temos muitos mercados em que os diplomas, por si, não bastam para que alguém tenha até comida na mesa: dois em cada quatro doutores está desempregado.
É exatamente por isso que temos que ser estratégicos. Recentemente, o Ipea publicou estudo mostrando que o ensino técnico proporciona salários até 24,9% superiores aos de outros trabalhadores. Enquanto apenas 8% dos jovens brasileiros cursam o ensino médio profissionalizante, a média entre os países da OCDE é de 32% dos concluintes.
Ao mesmo tempo, as vagas estão surgindo aos montes. Levantamento do Observatório Nacional da Indústria mostra que o Brasil precisará capacitar 77 mil técnicos para atuar nas oportunidades de emprego industrial, em que cursos técnicos têm duração média de um ano e meio.
Agora precisamos batalhar para desconstruir as crenças sedimentadas na sociedade de que somente ser doutor vale alguma coisa e de que há demérito em cursar o ensino profissionalizante.
Precisamos subir o primeiro degrau da escada quando estamos nos afogando para respirar, e o ensino profissionalizante pode funcionar para que as necessidades básicas sejam encerradas e para que um planejamento seja feito.
Afinal, não se trata de ensino técnico versus doutorado, mas de garantir que os jovens possam sonhar e escolher que caminhos trilhar para atingir seus objetivos tendo uma vida digna.
Doutor em Direito