Fundação apoiada por Israel e EUA para distribuir ajuda em Gaza encerra operações

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Palestinos caminham com pacotes de ajuda humanitária no corredor Netzarim, em Nuseirat, na região central da Faixa de Gaza - Eyad Baba - 30.set.2025/AFP

A Fundação Humanitária de Gaza, organização apoiada pelos Estados Unidos e por Israel para levar ajuda ao território palestino, anunciou na segunda-feira (24) o encerramento de suas operações após seis meses de atividade durante os quais centenas de palestinos foram mortos enquanto tentavam chegar aos centros de distribuição.

Em comunicado, a entidade falou em “sucesso de sua missão de emergência em Gaza após distribuir mais de 187 milhões de refeições gratuitas diretamente aos civis, como parte de uma operação humanitária recorde que garantiu que a ajuda alimentar chegasse às famílias palestinas de forma segura e sem desvio pelo Hamas ou outras entidades”.

A operação, no entanto, foi marcada por violência. De acordo com a ONU, do final de maio, quando o grupo começou a operar, até julho, pelo menos 1.373 palestinos foram mortos enquanto tentavam pegar comida —859 deles nas proximidades dos locais de distribuição da fundação, e 514 ao longo das rotas dos comboios de alimentos.

A organização começou a fornecer ajuda quase três meses após Israel impor um bloqueio a todos os produtos que entravam no território, àquela altura já em crise humanitária. Posteriormente, a ONU declarou um cenário de fome na Faixa de Gaza.

Quando começou a operar, o sistema tinha apenas quatro pontos de entrega para atender mais de 2 milhões de pessoas, enquanto a infraestrutura anterior, coordenada pela ONU, contava com 400 centros. Os pontos ficavam no sul de Gaza, longe da maior parte da população.

Isso obrigou os palestinos a percorrerem longas distâncias a pé para receber ajuda que nem sempre conseguiam obter. Nas ocasiões em que pessoas foram mortas, o Exército israelense disse ter aberto fogo contra quem se aproximava dos soldados —versão contestada por testemunhas em Gaza.

Desde o primeiro momento, organizações que atuam no território se recusaram a colaborar com o órgão devido ao seu modo de funcionamento, considerado pouco transparente. O governo de Donald Trump forneceu dezenas de milhões de dólares para financiar as operações da fundação, que se recusou a dizer quem mais a financiou.

As entidades internacionais diziam ainda que, por ser apoiado por EUA e Israel, o órgão não era neutro. Segundo autoridades israelenses, a fundação verificava se as famílias atendidas tinham envolvimento com o grupo terrorista Hamas antes de distribuir a comida.

Resoluções da Assembleia-Geral da ONU, no entanto, determinam que a ajuda deve se guiar apenas pela necessidade das pessoas afetadas, sem qualquer distinção religiosa, política ou ideológica, e deve ser supervisionada por uma parte neutra.

Às vésperas do início da operação, o próprio chefe da fundação naquele momento, Jake Wood, abandonou o cargo sob a justificativa de que a organização não conseguiria aderir aos “princípios de humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência”.

Israel justificou a mudança sob a acusação de que o Hamas rouba suprimentos, embora um relatório produzido em junho pela Usaid, a agência de ajuda externa americana, tenha constatado que não havia provas de roubo sistemático de comida pelo grupo terrorista.

Em junho, a ministra das Relações Exteriores da Áustria, Beate Meinl-Reisinger, falou em Jerusalém, ao lado de seu homólogo israelense, que a fundação não era uma parceira confiável.

O futuro da organização estava incerto desde que Trump anunciou sua proposta de 20 pontos para encerrar a guerra de dois anos. Uma cláusula desse plano afirma que “instituições associadas de qualquer forma ao Hamas ou a Israel” não participariam da distribuição de ajuda.

A despeito das mortes, o diretor da fundação, John Acree, afirmou em comunicado que um centro de coordenação multinacional liderado pelos EUA em Israel, que supervisiona o plano de Trump para encerrar a guerra em Gaza, “adotará e expandirá o modelo” que a organização havia implementado inicialmente.

“Como resultado, estamos encerrando nossas operações, pois cumprimos nossa missão de demonstrar que existe uma maneira melhor de fornecer ajuda aos habitantes de Gaza”, disse ele.

Com AFP e Reuters

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