General homofóbico de ultradireita desafia Meloni e abre disputa na Itália

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O ex-general Roberto Vannacci, novo personagem da ultradireita na Itália - Remo Casilli - 30.abr.24/Reuters

Um novo personagem da ultradireita italiana vem conquistando espaço entre eleitores e passou a representar um problema para a primeira-ministra Giorgia Meloni.

Em fevereiro, Roberto Vannacci, ex-general do Exército, deixou a coalizão que sustenta o governo Meloni para lançar seu próprio movimento político, de olho na eleição prevista para 2027. Ele saiu da Liga, partido do vice-premiê Matteo Salvini, para fundar o Futuro Nacional, uma direita “de verdade”, “convicta” e “pura”.

Entre as diretrizes da nova legenda, estão a exaltação da identidade italiana, da família com filhos de “um homem e uma mulher” e da chamada “remigração”, eufemismo para a deportação forçada de estrangeiros.

Nas últimas semanas, Vannacci esteve em manchetes nacionais por declarações homofóbicas, machistas e xenófobas. Disse ser contrário à tipificação do crime de feminicídio, que entrou no ano passado no Código Penal italiano. Sobre direitos LGBTQIA+, afirmou: “Não entendo por que o fruto de uma orientação sexual –e, portanto, de um gosto pessoal– deveria gerar direitos”.

Desde fevereiro, o Futuro Nacional sobe nas pesquisas de intenção de voto. Registrou 5,3%, segundo pesquisa divulgada na última segunda-feira (15). Com isso, está em empate com a Liga, a antiga sigla do ex-general. Também já atraiu oito parlamentares de partidos governistas.

Sua saída da coalizão significou a primeira rachadura no bloco de sustentação do governo Meloni. Com quatro partidos, a coalizão soma hoje 41,5% nas pesquisas. A oposição formada pela centro-esquerda e o Movimento Cinco Estrelas tem 41,9%.

O percentual de Vannacci pode desfalcar o desempenho da coalizão na votação, ainda sem data para ocorrer no ano que vem. É evidente a intenção dele de atrair votos dos eleitores mais radicais da direita, em parte desiludidos com o tom moderado adotado por Meloni no poder.

“Vannacci é um problema para a coalizão de direita, se conseguir levar adiante seu movimento. Porque haverá um mais à direita que rouba votos e a enfraquece”, diz à Folha o cientista político Piero Ignazi, professor aposentado da Universidade de Bologna, para quem o ex-general deveria ser considerado um membro da extrema direita.

Até aqui, Meloni tem, segundo bastidores publicados na imprensa italiana, rejeitado a ideia de aceitar o partido de Vannacci na composição de um eventual futuro governo. Ela, que começou na política em uma sigla com raízes no pós-fascismo, posicionou-se como conservadora desde que foi eleita, em 2022.

A carreira de Vannacci, 57, na política começou depois de um livro que ele próprio financiou em 2023. Lançado e comercializado por meio do site Amazon, “Il Mondo al Contrario” (o mundo de cabeça para baixo, em italiano) é uma coleção de insultos racistas e homofóbicos em quase 400 páginas.

“Caros homossexuais, vocês não são normais, aceitem isso! Não apenas a natureza demonstra isso, ao permitir que os seres saudáveis ‘normais’ se reproduzam, mas a sociedade também: vocês representam uma minúscula minoria”, escreveu.

Em referência a uma das melhores jogadoras de vôlei da história do país, comentou: “Paola Egonu tem a cidadania italiana, mas é evidente que seus traços somáticos não representam a italianidade”. Egonu é negra, nascida na Itália de genitores nigerianos.

Em poucas semanas, o livro se tornou um dos mais vendidos na plataforma, na categoria ensaio, e catapultou o nome de Vannacci.

“Ele disse coisas que muitas pessoas pensam, mas que, como estão no limite da decência, não dizem”, afirma o professor Ignazi. “A sua visão é muito nacionalista de conotação racista, não só anti-imigração. É uma hostilidade contra tudo o que não é puramente italiano.”

Vannacci acabou suspenso do Exército em decorrência da publicação do livro. Segundo seu advogado, as acusações foram de falta de senso de responsabilidade, violação do princípio de neutralidade e imparcialidade das Forças Armadas e comprometimento do “prestígio e reputação” do Exército.

O ex-general foi então convidado por Salvini para entrar na Liga, tradicional partido do norte da Itália contra estrangeiros. Diferentemente de Meloni, Salvini manteve nos últimos anos discurso radical e anti-União Europeia.

Na eleição para o Parlamento Europeu, em 2024, Vannacci obteve 550 mil votos, em segundo lugar na Itália. Em seguida, Salvini entregou a ele a vice-presidência da Liga. Seu relacionamento com os outros líderes do partido, no entanto, nunca foi tranquilo, devido às suas posições extremistas.

“Vannacci se deu conta de que não tinha muito espaço dentro da Liga para fazer uma política mais pessoal. E aí decidiu sair e fundar seu movimento”, afirma o cientista político.

O ex-militar, que é pró-Rússia, também deixou o grupo Patriotas no Parlamento Europeu, que, além da Liga, reúne a sigla da ultradireitista francesa Marine Le Pen. Desde fevereiro, faz parte do Europa das Nações Soberanas, ao lado do Alternativa para a Alemanha (AfD), sigla de extrema direita que também defende a remigração. “É uma honra, me reconheço totalmente nos princípios e ideais desse grupo”, disse Vannacci.

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