Governo Lula propõe ao agro limitar renegociação de dívidas a produtores com perdas climáticas

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O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs na terça-feira (7) à bancada do agronegócio no Congresso Nacional que o pacote de renegociação de dívidas rurais inclua somente os produtores com perdas relacionadas a questões climáticas.

A equipe econômica calculou um gasto de R$ 1,5 bilhão ao ano com o programa e juros de 6%, 8% e 12% ano, que variam de acordo com o tamanho do produtor rural, se pequeno, médio, grande ou da agricultura familiar. O prazo de pagamento proposto foi de oito anos, com dois de carência.

A proposta deve ser encaminhada por medida provisória e é uma tentativa do governo de conter um projeto de lei que passou por Câmara dos Deputados e Senado. O texto inclui o acesso a recursos do Fundo Social do pré-sal para renegociar os débitos do setor.

Quatro pessoas em pé atrás de um púlpito com microfones, em ambiente interno do Senado Federal. Um homem ao centro fala, enquanto os outros observam. O púlpito tem o brasão da Presidência do Senado Federal.
Ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao centro, com o senador Renan Calheiros, à direita, a senadora Tereza Cristina e o deputado Afonso Hamm, à esquerda, quando as negociações foram iniciadas – Waldemir Barreto-08.abr.26/Agência Senado
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Para bancada do agronegócio, o governo avançou em alguns pontos, como a previsão de reaproveitar as garantias dadas em outras operações, o uso de um fundo garantidor com recursos públicos e privados e o período de dívidas que poderão ser enquadradas, fechado entre 2019 e 2025.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu na terça com lideranças da FPA (Frente Parlamentar do Agronegócio), como os deputados Alceu Moreira (MDB-RS), Pedro Lupion (Republicanos-PR). Também estavam presentes a senadora Tereza Cristina (PP-MS), o líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), e outros nove congressistas da bancada.

Os deputados e senadores do agronegócio insistem na adoção do projeto de lei aprovado na Câmara e no Senado, que acessa recursos do Fundo Social do pré-sal e fixa taxas de juros para o refinanciamento de dívidas de produtores rurais.

Nenhuma decisão foi tomada. Fontes da equipe econômica afirmam que, caso o texto aprovado pelo Senado seja avalizado pela Câmara, Lula deve vetar. Se veto for derrubado, a saída seria recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal). A proposta é considerada uma pauta-bomba pelo Ministério da Fazenda, com um custo estimado em R$ 140 bilhões em 13 anos.

O deputado federal Afonso Hamm (PP-RS), relator da proposta na Câmara, disse que as taxas precisam ser ao menos inferiores a 10%. O texto aprovado no Senado prevê juros de 3,5% para beneficiários do Pronaf (agricultura familiar), de 5,5% para os mini, pequenos e médios enquadrados no Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural) e de 7,5% para os demais.

Lupion, presidente da FPA, disse considerar a solução como política. Para ele, o governo considera não haver condições de a proposta seguir em frente. Para a bancada, por outro lado, é inaceitável que o texto seja descartado. “Vamos tentar chegar a um meio termo disso, se for com medida provisória, se for com projeto de lei, ou se a gente conseguir chegar a algum outro tipo de acordo.”

O projeto de lei aprovado no Congresso Nacional –em 2025, na Câmara, e em junho, no Senado– foi celebrado pela bancada do agronegócio como uma vitória. O aval esticou ainda mais as tensões entre o setor e o governo Lula.

Um ponto-chave de insatisfação é o limite de juros exigido pelo projeto de lei, muito abaixo das taxas praticadas pelo mercado e do que vinha propondo o governo. Os limites afetariam especialmente o Banco do Brasil, o principal financiador do agronegócio nacional. A instituição financeira vem lidando com a alta da inadimplência do setor em seus balanços.

Governo e Legislativo discordam também nos cálculos de impacto da medida. A FPA diz que a proposta tem um custo máximo de R$ 5 bilhões por ano, ou R$ 65 bilhões em 13 anos.

A conta do governo considera que o total de dívidas que poderão ser enquadradas na nova linha de crédito chegue a R$ 200 bilhões. Com a Selic, mais taxas de juros estabelecidas no texto e uma taxa de risco de 4% ao ano, a equipe econômica estima que só em 2027 o impacto seja de R$ 22,4 bilhões.

“O custo total para a União, com impacto no superávit primário pela equalização de juros e pelos encargos, pode chegar a R$ 139,8 bilhões nos 13 anos”, afirmam os ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Desde que o texto voltou para a Câmara, a bancada do agro iniciou nova ofensiva para derrubar a pecha de que a renegociação de dívidas de produtores seja mais uma pauta-bomba pelo impacto das medidas sobre as contas públicas, quando muitos da própria bancada cobram disciplina fiscal da gestão Lula.

Entenda renegociação de dívidas rurais

  • Projeto permite renegociar dívidas do agro com recursos do Fundo Social do Pré-Sal
  • Senado estima alcance entre R$ 170 bilhões e R$ 180 bilhões em débitos
  • Fazenda estima impacto fiscal de R$ 140 bilhões ao longo dos próximos 10 anos

Juros previstos

  • Pronaf: 3,5% ao ano
  • Pronamp: 5,5% ao ano
  • Demais produtores: 7,5% ao ano

Condições

  • Financiamento de até R$ 10 milhões por produtor
  • Até R$ 50 milhões por cooperativa ou associação
  • Prazo de pagamento: 10 anos
  • Carência: 3 anos

Tramitação

  • Texto está na Câmara, pronto para ser votado
  • Governo sinaliza veto
  • STF é considerado caso o veto seja derrubado

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