Justiça Eleitoral analisa irregularidades em 291 pesquisas de votos
Redação 25 de setembro de 2022 0
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A maior parte dos processos (52%) solicita acesso ao sistema interno do controle de dados dos levantamentos. Outras 51 ações indicam a divulgação de estudos fraudulentos. Falta de registro no TSE, proibição do acesso dos partidos aos dados e uso para propaganda política na internet e nas redes sociais também são assuntos abordados.
Da lista de ações reconhecidas pela Justiça Eleitoral, 284 constam como julgadas. Entre as sanções impostas pelos ministros aos institutos, estão: retirar do ar materiais em discordância com a legislação ou refazer as consultas nos moldes regulamentados pela Justiça Eleitoral.
Os dados foram levantados pelo portal no sistema DivulgaCand, na sexta-feira (23/9). A plataforma torna público o quantitativo de processos referentes ao pleito deste ano. As informações podem variar, a depender das movimentações judiciais.
Suspeitas de fraude
Entre os questionamentos protocolados e em análise nos tribunais regionais e no TSE, 51 tratam de suspeitas de fraudes em pesquisas. A maior parte das ações foi registrada em dois estados: Maranhão e Sergipe.
Partidos, candidatos e advogados entraram com denúncias de favorecimento de nomes a partir de modificações em questionários, inconsistências nas perguntas, problemas no resultado, entre outros.
Os pedidos vão desde exigência de explicações dos institutos até a impugnação dos estudos e aplicação de multa.
No Maranhão, por exemplo, o PDT entrou com pedido de medida liminar para suspender a divulgação dos resultados de pesquisa eleitoral realizada pela empresa LM Bogea/Grupo JP. O partido alegou incompatibilidade das informações em relação à quantidade de entrevistados e à coleta de dados.
A juíza relatora do caso, Camilla Rose Ramos, decidiu pela procedência do pedido e determinou que o instituto parasse de divulgar o resultado do levantamento até que adequasse informações conflitantes: “Especificamente quanto ao número de entrevistas, eleitorado da amostra e margem de erro”. A multa determinada por divulgação após proibição é de R$ 53,2 mil.
No Amapá, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) questionou pesquisa da Real Time Mídia/Real Rime Big Data para o governo do estado. A alegação foi que o estudo teria beneficiado o então pré-candidato Jaime Nunes, por falta de cuidado com o questionário e falta de esclarecimentos com relação à metodologia de aplicação.
O relator do caso no TRE-AP, Anselmo Gonçalves da Silva, considerou o pedido improcedente, porque, segundo ele, não cabe ao Poder Judiciário impor a forma de desenvolvimento das perguntas a serem realizadas ou a maneira que as respostas são colocadas.
Em Alagoas, o candidato ao governo Fernando Collor de Mello (PTB) questionou levantamento do Instituto de Pesquisa de opinião pública Inteligência em Pesquisa e Consultoria. Collor apontou erro na ponderação estatística de quantidade de entrevistados por município. Assim, sugeriu manipulação do resultado.
O pedido foi para que o levantamento fosse retirado de todos os meios de comunicação. No entanto, a desembargadora Jamile Duarte Coelho Vieira atendeu parcialmente à representação e pediu ao instituto os dados amostrais da sondagem.
Descredibilização
A maior parte dos processos protocolados na Justiça Eleitoral sobre o tema solicita acesso aos dados internos das consultas de intenção de voto. Pelo menos 154 ações judiciais foram movidas com esse intuito, o que representa 52% do número total de ações com o recorte pesquisas eleitorais acolhidas pelo tribunal.
Os números refletem movimento crescente que visa descredibilizar os estudos – estratégia alimentada, em especial, por redes apoiadoras do presidente Jair Bolsonaro (PL). De acordo com as pesquisas mais recentes dos institutos Datafolha, Ipec e Ipespe, por exemplo, o atual titular do Planalto está em segundo lugar nas intenções de voto, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em grupos de aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram, bem como em outras redes sociais, a militância bolsonarista segue o roteiro de mostrar confiança na reeleição. Entretanto, há um nítido aumento no esforço para divulgar pesquisas eleitorais de institutos sem tradição e desacreditar levantamentos de institutos mais famosos.
O que explica as discrepâncias usadas para alimentar tais questionamentos são as divergências nas metodologias e coletas de dados de diferentes institutos, segundo a cientista política e professora da Universidade de Brasília (UnB) Marcela Machado.
“As amostras selecionadas para serem entrevistadas pela pesquisa também variam. Com isso, os resultados nunca serão 100% iguais entre uma pesquisa e outra. Também tem a questão do contexto político: uma pesquisa pode ter sido aplicada em um momento em que algum acontecimento pode ter impactado o desempenho de um candidato. São diversos fatores que podem explicar essa discrepância”, elucida.
Na visão do educador Amâncio Jorge de Oliveira, especialista em ciências políticas e professor da Universidade de São Paulo (USP), essas variações de resultados, quando instrumentalizadas sem contextualização, podem facilitar as tentativas de confundir o eleitorado.
“Mesmo que se tente explicar as diferenças metodológicas, é difícil explicar as diferenças de resultados. Isso piora se houver intenção de confundir”, frisa.