Lobbies se organizaram em várias frentes na COP30, e setor de petróleo diz que todo mundo é lobista

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Ativistas do grupo Make Polluters Pay fazem protesto na COP30, em Belém, exigindo que emissores de gases-estufa paguem pela transição energética - Anderson Coelho -19.nov.25/Reuters

Como diplomata, ao lado do time de negociadores do Brasil, Roberto Ardenghy foi a 12 COPs, as conferências do clima da ONU. Na COP30, em Belém, ele circulou por corredores, estandes e pavilhões como presidente do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás). São três anos representando a indústria do combustível fóssil.

Na avaliação de organizações ambientalistas, uma conferência global criada para cientistas e diplomatas negociarem o combate às mudanças climáticas não é lugar para lobbies do setor privado, muito menos dos poluidores. Ardenghy rebate.

“Numa COP, todo mundo é lobista. Até os governos estão aqui defendendo seus interesses.”

A COP30 teve uma intensa participação de empresas, muitas representando setores com alto nível de emissões de gases de efeito estufa. O debate sobre a presença delas esquentou porque existe acesso a reuniões estratégicas, com crachás de convidados do governo.

Há quatro categorias de crachás: “party”, para negociadores; “party overflow”, que dá acesso às salas de negociações, mas sem direito a voz; “observador”, indicado por entidades e organizações não governamentais; e “convidado do país-sede”. Os dois últimos têm acesso a algumas salas e não podem se manifestar.

Estavam na lista de indicados pelo governo brasileiro para circulação em áreas de acesso restrito representantes de IBP, Petrobras, da petroleira americana ExxonMobil, da refinaria Acelen, da petroquímica Braskem e da empresa de gás natural Eneva, além de representantes de indústrias químicas e do agronegócio, como a gigante JBS.

Também há nomes de outros segmentos econômicos, como mineração, energia e financeiro.

Pelo menos 21 empresas que têm a avenida Faria Lima em São Paulo como endereço e que atuam com gestão de recursos, investimento e no mercado de carbono tiveram representantes habilitados para a COP30. Essas empresas contribuem para o financiamento climático, um dos pontos em discussão na conferência, que atraiu ainda representantes do mercado de seguros e saúde.

“Essa dinâmica cria um ambiente desigual, no qual interesses privados organizados podem interferir nas decisões que deveriam priorizar o clima e as pessoas”, diz Renato Morgado, da Transparência Internacional – Brasil, ele também credenciado, como “party overflow”.

As críticas escalaram na reta definitiva da costura dos acordos, quando a presidência brasileira da COP30 excluiu do texto final qualquer menção à existência de um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis.

O pesquisador e professor do Insper Sérgio Lazzarini, um estudioso das relações entre público e privado, está no meio de um levantamento que analisa justamente como e por quais razões o setor empresarial se movimenta na agenda ambiental e climática e como isso pode influenciar a política pública.

Lazzarini diz que já identificou algumas tendências. Setores exportadores, como o agronegócio, estão preocupados em entender como podem ser boicotados e quanto isso vai custar.

A mineração já tem fala consistente em defesa do meio ambiente e da transição climática, mas as práticas ainda não confirmam o discurso, explica ele, como mostram os desastres de Mariana e Brumadinho.

O setor de óleo e gás exige mais cautela, explica o pesquisador. A agenda, segundo ele, é atrasar a transição, e essas empresas têm grande poder de lobby. “Não dá para dizer empresa ‘sim’ ou empresa ‘não’ quando se trata de participação em um evento como a COP. A análise é mais complexa do que se imagina, porque precisa olhar setor por setor. Cada um se movimenta por um interesse diferente.”

“Se o governo quer chamar as empresas para a discussão, com o argumento de compor um ambiente equilibrado, tem de convidar todo mundo —não pode ser esta ou aquela. Tem de convidar até quem é contra, para ter todos na mesa e buscar o entendimento”, completa Lazzarini.

A ONU só vai divulgar a relação completa dos participantes após a conferência, mas a lista preliminar —publicada no primeiro dia da COP30— indica que o país teve 4.880 pessoas credenciadas a pedido do governo brasileiro: 898 como “party”, 2.905 como “party overflow” e 1.077 convidados do país-sede. Os observadores são credenciados a partir de organizações.

Ardenghy e mais três integrantes do IBP, por exemplo, foram credenciados como “party overflow”. Para o espaço central da conferência, a chamada “blue zone”, o IBP obteve ao todo cinco crachás, sendo um por convite do país anfitrião.

Entidades indicam representantes de empresas, como observadores. A Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), por exemplo, credenciou executivos da Bunge, Cargill, Amaggi e Louis Dreyfus, gigantes do agronegócio.

Por meio do Cebds (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), foram credenciados representantes de 40 empresas, como Bayer, Syngenta e Philip Morris.

Há países, como a Alemanha, que levam à COP apenas representantes de órgãos governamentais. Da França, veio o único CEO de petroleira presente na COP30, Patrick Pouyaneé, que preside a TotalEnergies.

Pelo menos um integrante do IBP acessou a sala de negociações durante a conferência, na condição de ouvinte.

“Eu não acho que [o setor de petróleo] está muito presente [nos espaços centrais na COP30]”, disse a diretora-executiva de Gás Natural do IBP, Sylvie D’Apote. “Eu acho que está bem discreto, com apresentações pontuais.”

Estiveram presentes representantes de segundo escalão do setor de petróleo, segundo Sylvie, como executivos de Equinor, Chevron e Petronas. “Em nível de relações institucionais, todo mundo está aqui.”

“Se você vai lá cedo, você consegue participar. Eu mesma sou ‘party overflow’. Você acessa como ouvinte. Cheguei a ir um par de vezes”, diz a diretora do IBP sobre os espaços das negociações. “Mas obviamente quem faz as negociações são os países, os representantes dos países.”

Pouyaneé, da TotalEnergies, participou de um painel organizado pelo IBP. A entidade coordenou ainda um painel dentro do pavilhão do Brasil e dois painéis no estande da CNI (Confederação Nacional da Indústria), também na zona azul.

Entre os temas discutidos nos painéis estavam possibilidades de descarbonização na indústria do petróleo, redução de emissões de metano e alinhamento do setor ao Acordo de Paris, que busca limitar a elevação da temperatura do planeta a 1,5°C, sendo esse outro ponto sensível da COP30 —diante de sinais de que a meta foi rompida.

Há quem entenda que, neste momento divisivo, a participação de empresas na conferência do clima é positiva. “Fizemos um evento aqui sobre investimentos privados em adaptação, com a participação do setor privado e do Green Climate Fund para discutir como pode haver maior colaboração. Foi muito bom”, diz Mattias Soderberg, da ONG dinamarquesa DanChurchAid.

A Dinamarca decidiu ampliar este ano a presença de empresas, como a transportadora Maersk e a fabricante de turbinas eólicas Vestas, em uma busca por mercados alternativos aos Estados Unidos, com quem vive atritos diplomáticos desde o início do governo Donald Trump e sua obsessão pela Groenlândia.

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