Mais do que uma beldade: relembre como Brigitte Bardot virou o rosto de uma nação
Brigitte Bardot em Saint-Tropez, em foto de 1977 - -/AFP
Os franceses não têm dificuldade em conciliar o charme sexual com sentimentos nobres e patrióticos. É por isso que, em 1969, escolheram Brigitte Bardot como o primeiro rosto famoso para Marianne, a personificação da república francesa.
Historicamente, em pinturas e esculturas, Marianne foi retratada como uma deusa de estilo clássico, esbelta, jovem, bela e geralmente (parcialmente) com os seios à mostra. Ela representa a visão idealizada que a França tem de si mesma, as maiores virtudes da Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade e a promessa da exuberante prosperidade do país. À sua maneira, no auge de sua carreira, o mesmo aconteceu com Bardot.
Ela foi uma bombshell original dos anos 1950, ao lado de Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Jayne Mansfield e Marilyn Monroe, com quem parecia ter mais em comum. Assim como Monroe, Bardot combinava uma certa inocência com uma figura estonteante e um toque erótico. E, como sua contraparte americana, era loira platinada, o que sugeria uma mistura de juventude bronzeada pelo sol e manipulação adulta astuta. Ambas as mulheres realçavam seus olhares de corça com cílios postiços longos e expressivos.
Mas são as diferenças entre elas que são mais interessantes. Bardot, que faleceu no domingo passado aos 91 anos, foi apresentada como voluptuosa e desejável em inúmeros filmes. Lembremos, por exemplo, da cena em que ela emerge do Mediterrâneo, como a Vênus de Botticelli, vestindo um vestido branco encharcado, em “E Deus Criou a Mulher”. A câmera contempla seu corpo com deleite, empregando a perspectiva do “olhar masculino”, como é chamada nos estudos feministas de cinema. Marilyn Monroe geralmente recebia o mesmo tratamento cinematográfico —mas, ao contrário de Monroe, Bardot era desejada em troca.
As personagens da Sra. Bardot, isto é, desejavam os homens tanto quanto a desejavam. Ela nunca se fez de tímida, nunca pareceu carente, boba ou distraída. Ela era carnal, direta, vivendo plenamente sua persona e sexualidade. Chamavam-na de gatinha sexy, mas ela era mais como uma pantera.
Por outro lado, Marilyn Monroe ostentava sua voluptuosidade loira como uma fantasia, piscando para a plateia por trás de uma máscara. Sua rotina de voz sussurrada e infantil era uma piada da qual ela fazia parte, e que usava para fins transacionais, não eróticos. “Um beijo pode ser ótimo, mas não paga o aluguel”, cantava ela em “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” —um hino irônico à troca de sexo por joias, sobre monetizar a beleza antes que ela se desvanecesse.
Não havia nada de transacional em Bardot, nenhuma sensação de que essa criatura lânguida buscasse lucrar com sua beleza. Essa languidez também distinguia Bardot de Monroe.
Observe o cabelo: enquanto o de Marilyn Monroe era uma construção, esculpido naquelas ondas características com a mecha caindo sobre um dos olhos, Bardot usava um coque desarrumado no alto da cabeça, geralmente com franja reta ou cachos apontando para os olhos. Ela parecia estar sempre a caminho da cama ou voltando dela —mas sempre com o olhar desimpedido.
Elas se moviam de maneira diferente também. Marilyn Monroe saltitava, rebolava e desfilava, enfatizando partes fragmentadas do seu corpo. Bardot, uma bailarina formada, avançava em uma linha fluida. Sua postura e porte eram precisos, eretos e elegantes (como os de sua contemporânea, Audrey Hepburn, que não tinha nada de sedutora). O corpo de Bardot era organicamente seu, exposto, sim, mas para atrair prazer, não posse ou dominação. Mesmo quando dançava sensualmente em filmes, ela equilibrava abandono com controle.
Aos 39 anos, Bardot aposentou-se do cinema para se dedicar ao ativismo pelos direitos dos animais. Ela também se tornou uma figura controversa, defensora de ideologias nacionalistas e, muitas vezes, racistas. Nos raros vislumbres que teve dela nos anos seguintes, parecia permitir que seu rosto e corpo envelhecessem naturalmente, sem intervenções estéticas.
Aos 70, 80 anos e além, ela tinha a aparência de qualquer pessoa que tivesse passado décadas sob o sol de Saint-Tropez. Mas, talvez num gesto nostálgico em relação ao seu auge, manteve o penteado característico, com seu ar despojado e solto, agora um paralelo com a aparência mais relaxada de seu rosto e corpo.
A América nunca teve falta de estrelas de cinema deslumbrantes, mas nenhuma delas se tornou um símbolo patriótico oficial. Vemos essas mulheres como figuras divertidas e distintas do patriotismo. Nossos símbolos nacionais são assexuados e imutáveis. Não inserimos rostos de estrelas de cinema em representações do Tio Sam ou da Estátua da Liberdade (embora ela seja originalmente francesa). Fingimos que nossa cultura popular é separada da burocracia governamental, mesmo que elas pareçam estar se fundindo cada vez mais.
Por um tempo, Brigitte Bardot personificou o auge da francesidade, a própria essência de seu povo e identidade (embora, mais tarde, ela tenha passado a defender uma versão bastante restrita desses conceitos). Mas a própria ideia de que um país possa incorporar a sexualidade feminina de forma tão intrínseca aos seus símbolos levanta a questão: como seria se os Estados Unidos fizessem o mesmo?