‘Não sou bolsonarista’, diz desembargador que liberou prisão domiciliar a assassino de petista

0
image (14)

Jorge Guaranho ao chegar para julgamento nesta quarta-feira (12), em Curitiba - Catarina Scortecci/Folhapress

O desembargador Gamaliel Seme Scaff determinou na terça-feira (18) uma reavaliação médica do ex-policial penal Jorge Guaranho, condenado pela morte do petista Marcelo Arruda em 2022. O magistrado ainda prestou solidariedade à família da vítima e acrescentou que não é bolsonarista.

Scaff autorizou a prisão domiciliar para Guaranho um dia após ele ter sido condenado, em júri marcado por choro e reviravolta, a uma pena de 20 anos de prisão em regime inicial fechado pelo crime.

Na terça (18), o desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná explicou por que tomou a decisão liminar, pedida pela defesa sob alegação de questões de saúde, e se defendeu do que chamou de “tempestuoso clamor público de parcela da militância das esquerdas”.

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow

“No sábado pela manhã, um tempestuoso clamor público de parcela da militância das esquerdas, ao pressuposto de que o réu condenado no dia anterior teria sido posto ‘em liberdade’ porque o juiz seria bolsonarista e estaria ‘protegendo’ o assassino da vítima Marcelo, em absoluto desrespeito à viúva, familiares e companheiros. Isto nunca foi verdade. Não sou bolsonarista! Não importa o que digam ou achem. Mas isso não importa agora”, escreveu ele.

Ao pedir a liminar, a defesa de Guaranho justificou que o ex-policial penal ainda sofre com as sequelas do dia do crime, quando foi alvo de disparos de Marcelo depois de atirar no petista.

Segundo seus advogados, o policial penal realiza “tratamento médico especializado em decorrência de ter sido alvo de nove disparos de arma de fogo e severos espancamentos por mais de cinco minutos, resultando em fratura completa da mandíbula, perda completa de dentes e massa óssea”.

Acrescentaram que “os diversos projéteis estão alojados no corpo do paciente, inclusive na caixa craniana e na porção esquerda da massa encefálica”.

Na decisão de terça (18), Scaff determina que Guaranho seja submetido a uma reavaliação médica no IML (Instituto Médico Legal).

“Considerando que o quadro de saúde do réu vem recebendo tratamento, necessário atualizar os autos quanto ao seu estado atual”, escreveu o magistrado. O objetivo é saber se de fato não há condições de iniciar o cumprimento da pena no Complexo Médico Penal ou até em um presídio estadual.

Em outro trecho da sua decisão desta terça, Scaff diz que “apresenta o mais profundo sentimento de pesar, respeito e solidariedade humana” aos familiares de Marcelo, “cuja vida foi estupidamente ceifada no dia de seu 50º aniversário”.

“Faço questão de dizer que tal acontecimento também a mim causou e ainda causa enorme repugnância, seja pela estupidez de um crime absolutamente sem sentido, seja pelos resultados tão trágicos e de consequências tão avassaladoras para toda a família e amigos”, continuou o magistrado.

O Ministério Público defendeu na segunda-feira (17) ao Tribunal de Justiça que Guaranho cumpra prisão em regime fechado.

Em manifestação ao desembargador, o órgão afirma que “não se constata que o paciente [Guaranho] esteja extremamente debilitado (como se observa dos vídeos veiculados na mídia que captaram sua entrada e/ou saída do fórum, bem como do vídeo de seu interrogatório em plenário) ou impossibilitado de receber atendimento no estabelecimento prisional”.

O ex-policial penal foi acusado pelo Ministério Público de homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil (divergência política) e perigo comum (disparo de tiros em um ambiente com outras pessoas). As qualificadoras foram acolhidas pelo júri na quinta.

Defesa de Guaranho

Procurado na terça (18), o escritório Samir Mattar Assad Advocacia, responsável pela defesa de Guaranho, disse em nota que “saúda a decisão do desembargador” e que a reavaliação médica no IML é “uma medida essencial para garantir que a execução da pena observe os princípios da dignidade da pessoa humana e do devido processo legal”.

Segundo a defesa, laudos médicos que constam no processo “já apontam múltiplas sequelas físicas e neuropsiquiátricas”, o que exigiria um “tratamento médico intensivo”.

“Com a nova perícia, ficará nítida a necessidade desse tratamento, diferentemente do que vem sendo propagado. Não se trata de privilégio, mas de um direito salvaguardado pela legislação e pelos princípios mais básicos dos direitos humanos”, continua a nota.

A defesa de Guaranho também afirma que “o interesse em fazer justiça para Marcelo Arruda não pode se confundir com a busca por vingança contra Jorge Guaranho”.

“O escritório lamenta que muitos entes políticos, que se dizem progressistas, venham ignorando seus próprios discursos contra o punitivismo penal e em defesa dos direitos humanos para justificar maus-tratos e vingança por parte do Estado. Quando direitos fundamentais começam a ser confundidos com privilégios, é sinal de que a sociedade como um todo precisa de uma profunda reflexão”, diz a nota.

O crime

Em 9 de julho de 2022, Guaranho invadiu a festa de Marcelo, que comemorava 50 anos de idade no salão de um clube em Foz do Iguaçu, junto com familiares e amigos.

O petista usava uma camiseta com a imagem do então candidato Lula, e a decoração fazia referências ao PT, como balões vermelhos. Guaranho e Marcelo não se conheciam, mas, ao saber do tema da festa, o então policial penal resolveu ir até o local gritando o nome de Jair Bolsonaro (PL) em provocação aos convidados.

No equipamento de som de seu carro, ligou uma playlist com músicas da campanha do então presidente.

Marcelo respondeu à provocação, gritando “[Bolsonaro] na cadeia”, e, após uma rápida discussão com Guaranho, pegou terra e jogou no carro do policial penal. Guaranho foi embora, mas voltou pouco tempo depois.

Nessa segunda vez em que apareceu na festa, o policial penal desceu do carro, e a policial civil Pamela Silva, companheira de Marcelo, mostrou seu distintivo, pedindo que ele fosse embora. Mas Guaranho viu Marcelo ao fundo, atrás de Pamela, e começou a atirar nele.

Mesmo caído após ser alvejado por Guaranho, Marcelo conseguiu disparar contra o policial penal, que foi ao chão e também levou chutes de três homens que presenciaram toda a ação.

O petista deixou quatro filhos. Os dois mais velhos, Heitor, 18, e Leonardo, 29, acompanharam o júri. Os mais novos, de 9 e 2 anos, não chegaram a entrar no prédio. Despediram-se da mãe, Pamela, pouco antes do começo do julgamento e ficaram com a avó.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow