No Brasil, biscoito maisena, bolinho recheado e até alimentos ‘plant based’ têm traços de agrotóxicos, diz estudo

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Parte dos produtos que apresentaram dois ou mais resquícios de agrotóxicos segundo estudo do Idec - Eduardo Knapp/Folhapress

Biscoitos maisena e bolinhos industrializados podem não fazer parte da dieta de brasileiros preocupados com a saúde. Mas mesmo alimentos congelados à base de plantas e grãos, chamados de plant based, supostamente mais saudáveis, possuem traços de agrotóxicos.

É o que aponta o levantamento do 3º relatório “Tem veneno nesse pacote”, divulgado anualmente pelo Idec (Instituto de Defesa de Consumidores) e que analisa a presença dos compostos em ultraprocessados.

Os testes avaliaram resíduos de até 563 agrotóxicos diferentes.

Outros alimentos populares com traços das substâncias são os macarrões instantâneos da marca Nissin (o famoso miojo), o bolinho Ana Maria sabor chocolate e bebidas lácteas.

Foram avaliados mais de 24 produtos de oito categorias diferentes. De acordo com o estudo, metade dos alimentos avaliados apresentou resíduos de agrotóxicos. Os industrializados selecionados foram aqueles mais consumidos entre os brasileiros.

O principal agrotóxico encontrado nos produtos pesquisados foi o herbicida glifosato, o mais utilizado no mundo. De acordo com a Iarc (Agência Internacional para a Pesquisa Sobre Câncer), da Organização Mundial da Saúde, o herbicida já foi, inclusive, proibido em diversos países.

Nutricionista e professora da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Daniella Canela explica que a farinha de trigo utilizada nos ultraprocessados contém agrotóxicos. “É um ingrediente comum de se utilizar agrotóxico na produção, assim como no açúcar que vem da cana ou no milho”, diz.

A farinha de trigo, também presente na massa dos empanados e no macarrão instantâneo, o amido de milho e o açúcar são alguns dos principais ingredientes do biscoito maisena. Segundo o relatório, foram detectados quatro tipos diferentes de agrotóxicos nos biscoitos maisena das marcas Marilan e Triunfo.

A imagem de “mocinho” do biscoito preferido dos brasileiros pode estar atrelada à tradição, diz Canela. “Por muito tempo, o biscoito maisena foi utilizado até mesmo em dietas para perda de peso, mas isso mudou após a discussão de ultraprocessados”, diz Daniella Canela.

Canela se refere à mudança, em 2014, da cadeia alimentar nacional com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que divide os alimentos em ultraprocessados (como bolachas e salgadinhos, bolos, refrigerantes, macarrões instantâneos, bebidas açucaradas e congelados), processados (como óleos, azeites e gorduras usadas para cozinhar), minimamente processados (como carnes e legumes curados ou em processos de fermentação) e in natura ou naturais (como frutas, verduras, legumes, grãos e proteínas), e preconiza que o consumo de ultraprocessados deve ser evitado.

No caso dos produtos à base de plantas, como hambúrgueres sabor carne e empanado sabor frango, o congelado da Sadia apresentou dois resquícios de agrotóxicos a mais do que a mesma versão de origem animal. O mesmo ocorreu com o empanado vegetal, em terceiro lugar na lista dos produtos com mais substâncias. “Essas empresas monitoram o perfil do consumidor, que vem mudando em relação ao consumo de carne”, diz a pesquisadora.

Leonardo Pillon, advogado do programa de alimentação saudável e sustentável do Idec, diz que as políticas sobre agrotóxicos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não são claras. “Nesse último estudo passamos a exigir uma rastreabilidade da cadeia produtiva de ultraprocessados para a agência para que se identifique de qual etapa vem aquele agrotóxico”, afirma.

Pillon avalia que agência deveria ser tão rígida com o alimento industrializado como o é com os alimentos naturais. “Para esses alimentos, existe um programa de análise de resíduo e a Anvisa precisa incluir nesse programa os alimentos e produtos ultraprocessados”, afirma.

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