Novo Desenrola pode renegociar até R$ 77,7 bilhões em dívidas, estimam analistas
O ministro da Fazenda, Dario Durigan durante assinatura da medida provisória referente ao Novo Desenrola Brasil - Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
por Folha de S.Paulo
A nova versão do Desenrola Brasil tem potencial para renegociar entre R$ 62,7 bilhões e R$ 77,7 bilhões em dívidas de brasileiros, segundo relatórios do BTG Pactual e da XP Investimentos. Para as instituições financeiras, o programa pode aliviar a situação de consumidores endividados e inadimplentes, embora existam dúvidas sobre sua eficácia estrutural.
O programa já está sendo oferecido pelos bancos e é voltado para dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC), com atraso entre 90 dias e dois anos. Os participantes terão até 35 dias para pagar a primeira parcela.
A nova edição do programa conta com quatro frentes: famílias (para pessoas com renda de até cinco salários mínimos), Fies (estudantes inadimplentes), empresas (micro e pequenos negócios) e rural (agricultores familiares).
O Desenrola Família é considerado a principal frente do governo. Na modalidade, podem participar brasileiros com renda de até R$ 8.105 mensais.
Segundo o BTG, o potencial de renegociação do programa atual é de R$ 62,7 bilhões. A instituição também faz a comparação com a primeira versão, lançada em 2023, em relatório assinado pelos economistas Tiago Berriel e Bruno Martins.
Na época, o governo estimava que o programa poderia destravar até R$ 100 bilhões em renegociações. A primeira edição beneficiou cerca de 15 milhões de pessoas, com a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas.
Agora, a expectativa do governo é alcançar R$ 20 bilhões em renegociações e beneficiar 20 milhões de pessoas.
“Dado o montante total de R$ 62,7 bilhões elegível, o Desenrola 2.0 não parece ter potencial para superar o alcance do primeiro programa”, afirma o BTG.
Segundo o banco, isso ocorre porque a nova edição está concentrada em dívidas bancárias, ao contrário da primeira versão, que também incluía débitos não bancários (contas de luz ou com varejistas).
Os autores do relatório também argumentam que os resultados da primeira edição não foram suficientes para impulsionar o consumo dos beneficiários diretos do programa —aqueles com dívidas de até R$ 5.000 e renda mensal de até dois salários mínimos ou inscritos no CadÚnico (Cadastro Único).
A nova versão amplia o alcance para pessoas com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil após descontos.
Segundo o estudo, o programa reduziu a inadimplência e permitiu renegociações, mas também transformou dívidas antigas em novos compromissos mensais.
“Isso ajuda a explicar por que o programa pode não ter gerado melhora perceptível de bem-estar no curto prazo: limpar o nome não significa, automaticamente, aumentar renda disponível ou acesso efetivo a crédito.”
Para o BTG, o mesmo problema pode ocorrer nesta nova fase do programa. “Se o crédito adicional foi mais direcionado ao grupo de controle do que aos beneficiários, o impacto subjetivo sobre consumo e bem-estar das famílias mais pobres tende a ser limitado.”
Já a XP estima potencial de renegociação de até R$ 77,7 bilhões. O cálculo foi feito com base em dados do Banco Central sobre o estoque de dívidas elegíveis, incluindo crédito rotativo, crédito pessoal não consignado, cartão de crédito e cheque especial, considerando adesão integral dos devedores.
Ao contrário do BTG, a casa de investimentos afirma que a renegociação pode estimular o consumo das famílias, que teria crescimento adicional de 0,25 ponto percentual em 2026. A XP também projeta impacto positivo sobre o PIB (Produto Interno Bruto), com alta de 0,16% impulsionada pelo programa.
A XP estima efeitos sobre o endividamento e a inadimplência das famílias. Segundo a instituição, o grau de endividamento pode recuar 2,3 pontos percentuais, enquanto a inadimplência pode cair 0,8 ponto percentual até o fim de 2026.
“A iniciativa é bem-vinda, ainda que —ao menos em seu formato e duração atuais— não represente uma mudança estrutural”, afirma relatório assinado pelos economistas Rodolfo Margato, Tiago Sbardelotto e Luíza Pinese.
Os autores afirmam que uma melhora consistente nas condições financeiras das famílias só viria “com a manutenção de um mercado trabalho robusto e uma redução sustentada da taxa de juros” (hoje a 14,5%).
O novo Desenrola já renegociou quase R$ 1 bilhão em dívidas, em cerca de 200 mil pedidos, segundo o governo. O programa foi lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última semana para reduzir a inadimplência e melhorar a popularidade em ano eleitoral.