Popularidade do papa Francisco diminuiu entre católicos latinos, e apoio a mulheres na Igreja subiu
Papa Francisco. Imagem: Thanassis Stavrakis/AFP
A morte do papa Francisco na última segunda-feira (21) encerrou um papado de mais de 12 anos. Sua liderança foi marcada por declarações sobre temas considerados polêmicos pela Igreja, como a presença de mulheres em cargos administrativos, o celibato de padres e o uso de métodos contraceptivos.
Na América Latina, região de onde veio e onde foi recebido com entusiasmo no início de seu pontificado, o apoio a esses temas variou. Mas a popularidade do papa Francisco mostrava sinais de derretimento em 2024 entre seus fiéis, mesmo sendo aprovado pela maioria dos católicos latinos.
É o que mostram levantamentos realizados pelo Pew Research Center, uma organização independente de pesquisa sediada em Washington (EUA), na Argentina, Colômbia, Brasil, México, Peru e Chile, países cujas populações católicas estão entre as 25 maiores do mundo. As pesquisas foram realizadas em 2013–2014 e em 2024.
Na Argentina, seu país natal, a queda de popularidade foi a maior entre os países pesquisados. Há dez anos, quase todos os católicos entrevistados no país (98%) tinham uma opinião favorável sobre Francisco, contra 74% no último levantamento.
No Brasil, esse número foi de 92% em 2014 para 84% em 2024.
Diante da maior religião do mundo, Francisco enfrentava dois grandes desafios para o catolicismo: a perda de influência da Igreja sobre diversas esferas da sociedade e, no caso do Brasil, o avanço das igrejas evangélicas.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2000, os católicos representavam 74% da população brasileira. Dez anos depois, esse número caiu para 65%.
Já os cristãos de vertentes evangélicas avançaram de 15% para 22% entre 2000 e 2010. Um retrato mais atual sobre o número de fiéis no país deve ser divulgado em breve, com a divulgação dos resultados do Censo 2022.
Cenário global radicalizado
Para o teólogo e diretor de programas do Instituto de Estudos da Religião (ISER), Ronilso Pacheco, a queda na popularidade do Papa Francisco pode estar relacionada ao cenário global mais radical, polarizado e conservador.
“Francisco enfrentou um período, sem dúvida, muito mais radicalizado do que o Ratzinger [papa Bento XVI] enfrentou e do que o João Paulo II enfrentou”, afirma.
Segundo Pacheco, o avanço de lideranças conservadoras em diversos países e a influência crescente das redes sociais, que intensificariam a circulação de discursos polarizados, podem ter contribuído para o desgaste da imagem de um papa conhecido pelo carisma e pela abertura ao diálogo.
“Vai havendo um certo desgaste, uma coisa meio ambígua de alguém que é muito carismático e generoso. Mas tem uma cobrança de uma Igreja que precisa ser mais forte, que precisa avançar, que precisa conquistar e consolidar os seus fiéis e os seus valores”, avalia.
No Brasil, a perda de influência política da Igreja Católica também ajuda a explicar a queda de popularidade de Francisco, segundo Pacheco.
“A Igreja perde muito espaço no Brasil. Tem a hegemonia cultural, sem dúvida, mas politicamente perde espaço. A cultura continua na mão da Igreja Católica, mas a influência política, a incidência política dos evangélicos é significativamente maior”, diz.
Mulheres padres
Entre os temas abordados por Francisco durante seu pontificado, um recebeu crescente apoio entre os fiéis nos últimos anos: o aumento do papel das mulheres na Igreja e a discussão sobre a ordenação de mulheres como sacerdotisas.
Os números indicam que o apoio a essa questão cresceu entre os católicos latinos na última década, especialmente na Argentina e no México. Na Argentina, o apoio passou de 51% em 2013-14 para 71% em 2024, enquanto no México aumentou de 31% para 47% no mesmo período.
No Brasil, o apoio a mulheres sacerdotisas era 78% em 2014 e foi para 83% em 2024.