Presidente de associação de psiquiatria rebate fala de Lula: ‘Precisamos acabar com a psicofobia’
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: 20/03/2023REUTERS/Adriano Machado
por Caio Possati
Em carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o médico psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação dos Psiquiatras do Brasil (APB), rebateu falas do petista interpretadas como preconceituosas.
Na última terça, 18, Lula associou os autores de ataques em escolas com pessoas “com desequilíbrio de parafuso”, ao se referir a pessoas com deficiência.
“Hoje eu afirmo ao senhor que 95% dos atos de violência no Brasil não são cometidos por pessoas com deficiência e doentes mentais”, disse o psiquiatra na carta, divulgada nesta quinta-feira. “Eles são vítimas de preconceito estrutural, violência do Estado e da sociedade”.
Nesta semana, em uma reunião com chefes dos Três Poderes, governadores e prefeitos, organizada para tratar de medidas de prevenção de novos ataques em escolas, Lula disse que a Organização Mundial da Saúde (OMS) “sempre afirmou que a humanidade deve ter mais ou menos 15% de pessoas com problema de deficiência mental”, e que “se esse número” fosse verdadeiro, existiriam “quase 30 milhões de pessoas com problema de desequilíbrio de parafuso” no País. “Pode uma hora acontecer uma desgraça”, disse o presidente.
Entidades ligadas ao movimento de proteção às pessoas com deficiência criticaram as falas de Lula, e entenderam que as declarações tiveram um conteúdo preconceituoso e capacitista.
No documento direcionado a Lula, o psiquiatra convida o presidente a combater o preconceito e a desassistência aos doentes mentais.
“Trabalho contra o preconceito desde sempre, mas em 2011 criei o neologismo ‘psicofobia’ para descrever o estigma que padecentes de deficiências e transtornos mentais vivem, fiz com a intenção de ajudar mais de 70 milhões de pessoas em nosso país”, afirmou o presidente da APB.
“Agora, 12 anos depois, no mês (abril) dedicado a falarmos sobre a psicofobia. nos sentimos mais uma vez atacados e agredidos”, completou. “Por isso convido o senhor para fazer parte da nossa campanha contra a psicofobia e nos ajudar a acabar com todas essas violências.”
O psiquiatra diz ainda que o tratamento das doenças mentais precisa ser multidisciplinar e mais acessível a todos que dependem deste tipo de cuidado. “Despeço-me na certeza de que o senhor aceitará o nosso convite e estará ao nosso lado nessa campanha”, escreveu Antônio Geraldo da Silva.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania foi procurado pela reportagem, mas não retornou até a publicação deste texto.