Transcritora de Braille fala sobre a profissão e a importância do sistema: ‘Uma invenção genial, ainda subestimada’

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Sistema Braille é comemorado no dia 8 de abril — Foto: Divulgação/Governo de Roraima

Ler apenas com o manuseio coordenado das mãos e sem o auxílio da visão é um desafio. Porém, para pessoas cegas ou com baixa visão, essa atividade é essencial, e uma ferramenta é indispensável na conquista da independência e formação educacional: o sistema Braille. Neste 8 de abril, é comemorado o Dia Nacional do Sistema Braille.

O Braille é um sistema de códigos em alto relevo composto por seis pontos divididos em duas colunas de três, formando 63 combinações diferentes, com cada uma formando alguma letra, número ou pontuação da língua. Mas aprender a ler e escrever através do Braille não é um processo fácil, e da mesma forma como os enxergantes levam tempo para aprender, a alfabetização através desse sistema demanda conhecimento, tempo e interesse.

Para que as pessoas cegas ou com baixa visão tenham acesso a livros e conteúdos com a linguagem do sistema Braille, existe uma profissão que faz o trabalho da transcrição dos livros em tinta para o Braille: são os transcritores Braille.

O transcritor é uma pessoa que enxerga, que adapta o texto, faz uma primeira revisão e imprime. Conciliado ao transcritor, existe um revisor, que faz uma revisão definitiva do material antes de ser entregue para o usuário e é obrigatoriamente uma pessoa cega.

Uma dessas pessoas que trabalham com transcrição é Dina Melo, de 39 anos. Ela é formada em jornalismo e passou a se interessar pela temática após ter trabalhado na Estação Cabo Branco, em João Pessoa, onde havia um projeto de cinema audiodescritivo, aberto ao público cego, o que despertou em Dina o interesse em entender como aquele público compreendia obras áudio-descritivas.

“Para mim era inconcebível o público cego apreciar uma produção audiovisual quanto cinema, mas eu desconstruí essa noção estando lá, acompanhando as sessões. Daí achei aquilo maravilhoso. Comecei a fazer cursos de capacitação, de Braille, orientação e mobilidade e de soroban [que é o tipo de matemática para as pessoas cegasl]. São esses cursos de formação continuada que fazem com que a carreira realmente se mantenha”, comentou.

Dina hoje atua mais à frente das transcrições Braille na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. Ela ainda conta que após entrar na UFPB e passar a transcrever conteúdos mais acadêmicos, passou a atuar, também, em um mercado comercial em que traduz diversos segmentos gramaticais para o sistema Braille.

“Eu trabalhava numa imprensa Braille, e a demanda era de material jornalístico, mas também de material publicitário. Eram cardápios, conteúdo político, o mercado editorial, mídia social”, disse Dina, que também explicou que o mercado de transcritores do sistema é mais presente nas universidades e instituições públicas, que possuem ferramentas e meios mais adequados do que em outros ambientes. “Aqui na Paraíba, o mercado existe sobretudo dentro de universidades e instituições públicas. Mas existe uma ausência na iniciativa privada no sistema educacional”, explicou.

Dina Melo, transcritora Braille  — Foto: Janielly Fernandes/Arquivo Pessoal
Dina Melo, transcritora Braille — Foto: Janielly Fernandes/Arquivo Pessoal

Nas prateleiras de bibliotecas comuns ou espaços de leitura, é raro encontrar produções que sejam voltadas especificamente para o público que utilize livros em Braille ou livros ampliados para pessoas com baixa visão. Não só a oferta nos espaços é pouca como a produção de livros em Braille é uma demanda pouco produzida, e Dina explica que a sensibilidade do material, tamanho e rentabilidade, passam a ser um combo que pesa contra as produções físicas de livros em Braille.

“É uma produção arriscada, o manuseio dele é muito sensível, é um conteúdo muito grande e volumoso. Ele é tão espaçoso que mais ou menos uma folha escrita em tinta vai gerar três folhas impressas em Braille. É muito extenso, ocupa espaço, é grande, ocupa espaço na prateleira, então não é viável, logicamente, administrativamente, para uma livraria manter livros em Braille”, esclarece.

Com o auxílio da tecnologia, produções como os livros falados e os audiobooks têm sido uma opção de aproximar ainda mais alguns conteúdos para esse público na tentativa de proporcionar o contato com a leitura e ser uma ferramenta a mais na alfabetização. Dina comemora a opção da tecnologia proporcionar ainda mais conteúdos literários para as Pessoas com Deficiências (PCD) relacionadas à visão e explica as diferenças entre os livros falados e os audiobooks.

“Parecem coisas iguais, mas têm nuances. O livro falado é aquele tipo de livro que carrega uma narração mais branda, sem dramaticidade, como livros literários. No caso do audiobook, ele carrega uma dramaticamente, já leva atores, existe uma sonoplastia, musicalização”, explica Melo.

Braille é ferramenta para o conhecimento

O sistema de escrita e leitura Braille já tem 200 anos e foi criado na França por Louis Braille. Veio para o Brasil através de José Álvares de Azevedo, que foi o primeiro professor cego do país e que disseminou o sistema Braille na educação brasileira.

Por conta dessa disseminação, diversas pessoas cegas passaram a ter acesso à educação com maior qualidade, além de aprender a ler e escrever, sendo proporcionado um conhecimento mais adequado. E através do Braille, muitas histórias se cruzam e se assemelham, como é o caso do bibliotecário Josenildo Costa e da professora Joana Belarmino. Ambos nasceram cegos totais e, através do Instituto dos Cegos e do conhecimento com o Braille, cresceram intelectualmente.

Josenildo Costa, 50 anos, é bibliotecário na Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e é natural de Parelhas, cidade situada no Seridó do Rio Grande do Norte, a 273 km de João Pessoa. Josenildo conta que a vontade por aprender e estudar o auxiliou a entender e se alfabetizar através do sistema Braille, e nunca mais tirá-lo do seu dia a dia.

“A minha alfabetização foi tranquila no Braille. Como eu vim do interior do Rio Grande do Norte, de Parelhas, eu comecei a estudar com quase nove anos. Como eu tinha muita vontade de estudar, facilitou bastante. Quando eu estudei no Instituto dos Cegos, na época, a gente estudava até a quarta série, e a partir da quinta série já era incluído na escola normal. Aqui e ali tinha insultos, mas comigo não houve problema e o ensino foi de boa”, comentou o bibliotecário.

“Considero o Braille como nossa escrita mãe”, diz Josenildo.

Na mesma instituição onde trabalha Josenildo, também se encontra a professora Joana Belarmino. Docente da UFPB desde 1994, do curso de jornalismo, Joana é cega total desde que nasceu, e tem uma história de cegueira congênita na família, a qual acometeu 54% dos filhos de seus pais.

“Eu nasci cega. Os meus pais, camponeses, tiveram treze filhos, dos quais sete nasceram cegos. O problema era genético, mas foi resolvido nas outras gerações”, explicou a professora.

Joana passou a frequentar o Instituto dos Cegos desde pequena, e foi onde passou a ter contato com o sistema Braille e se apaixonou. A professora conta que foi difícil se alfabetizar, mas que se adaptou ao processo, e que até criava livros infantis em Braille para ajudar a se adaptar ao sistema.

“Eu fui estudar no Instituto dos Cegos da Paraíba ainda criança, aos seis anos de idade. Meu contato com o Braille é permanente, eu diria. Aos sete anos, comecei a ler e escrever em Braille. E de lá para cá, não parei mais. A alfabetização, no começo, foi difícil, mas, se uma criança vai para a escola na idade adequada, o processo se desenvolve. Aos oito anos eu já brincava de escrever meus próprios livros infantis inventados. Fazia tudo em Braille, em velhas revistas médicas que eram doadas ao Instituto. Como o Braille é formado por pontinhos em relevo, a gente podia usar qualquer papel, mesmo se fosse papel já impresso”, conta.

Joana Berlarmino, professora doutora da UFPB, chegou no Instituto de Cegos da PB aos 7 anos, onde foi alfabetizada — Foto: Arquivo Pessoal/Joana Belarmino
Joana Berlarmino, professora doutora da UFPB, chegou no Instituto de Cegos da PB aos 7 anos, onde foi alfabetizada — Foto: Arquivo Pessoal/Joana Belarmino

O Braille é um sistema essencial e que une histórias distintas. Na busca pela alfabetização, pelo saber ler e escrever, as limitações físicas e o capacitismo são postos de lado. Mesmo com 200 anos, o Braille segue sendo uma ferramenta tecnológica essencial para as pessoas com deficiência visual. E mesmo sendo bicentenário, o sistema Braille não deixa de ser uma tecnologia, continua sendo um dos pilares da alfabetização de pessoas com deficiência visual e uma ferramenta fundamental para o crescimento intelectual dessas pessoas.

Alfabetização da pessoa cega é um processo gradativo

A alfabetização de pessoas com cegueira total ou baixa visão busca, quase que na sua totalidade, utilizar o sistema Braille, na intenção de aguçar a leitura e sua independência. O sistema vai aguçar determinadas áreas psicomotoras da pessoa com deficiência visual.

“O Braille é uma leitura tátil, gera ativação no cérebro das regiões que entendem melhor, complexifica melhor a leitura. Existe muita parte da coordenação motora que precisa ser trabalhada, porque, afinal, não é uma leitura visual, é uma leitura que tem que ser estimulada tatilmente. Esse vai ser um mecanismo de reconhecimento chamado proprioceptivo, que tem que ser trabalhado na criança”, explica a transcritora Dina Melo

“Para mim é fundamental. Se não fosse o Braille, eu não teria chegado onde cheguei”, diz o bibliotecário Josenildo Costa.

Bibliotecário Jonesildo Costa, em uma palestra em Santa Catarina — Foto: Arquivo/Biblioteca Central UFPB
Bibliotecário Jonesildo Costa, em uma palestra em Santa Catarina — Foto: Arquivo/Biblioteca Central UFPB

Mas com o acesso ampliado à tecnologia, o Braille tem ficado mais de lado, conforme explicou Dina Melo. Não perdeu sua funcionalidade e importância, mas as inovações proporcionaram acessibilidade, tanto na leitura quanto ao acesso a diversos conteúdos, como cinema, músicas e livros.

Com a pandemia, Dina relata que naturalmente as pessoas com deficiência visual tiveram que passar a treinar o sistema Braille em suas residências e, na maioria das vezes, sem o auxílio de um profissional, em determinados casos, para quem estivesse começando a se alfabetizar. E as pessoas viram na tecnologia o refúgio. Passaram a consumir mais conteúdos audiodescritivos e o Braille ficou de lado. E, para ela, isso é preocupante, pois o Braille instiga as pessoas com deficiência visual a buscarem a ler, escrever e produzir conteúdos com maior qualidade e entendimento da língua.

“O que acontece com a tecnologia, por exemplo, quando, em vez de imprimir um texto para Braille, eu enviar esse texto para que ele seja escutado por uma pessoa cega, ele vai deixar de ter o contato físico com aquele texto, ele vai deixar de saber como aquela palavra é escrita, como é feita a concordância, como são feitas as regras de regência, ou seja, as regras da língua. E só escutar a língua faz com que percamos certas referências de norma padrão, isso faz com que o texto sofra. A escrita fica um pouco mais prejudicada. As pessoas que leem menos, escrevem menos, e nós que lidamos com textos e produções textuais dos alunos cegos, nós que lemos o Braille para transcrever para tinta, sentimos dificuldades na estruturação do português, que são muito cabíveis de alunos que pouco leem”, ressaltou a transcritora sobre a atuação da tecnologia quanto ao Braille.

Dina Melo também comenta sobre o processo de inclusão da alfabetização das pessoas com deficiências visuais na Paraíba. De acordo com a transcritora, por anos o sistema educacional de pessoas com deficiência visual foi realizado através de internato, no Instituto dos Cegos, onde foram promovidas possibilidades de crescimento integrado, mas para ela esse não é o modelo ideal, e explica a diferença entre integração e inclusão no processo de alfabetização das pessoas com deficiência visual.

“Na Paraíba, vigorou por muitos tempo o sistema de internatos. A inclusão funcionava por esse sistema, porque as famílias viam que não tinham condições de ter uma educação inclusiva na sua própria cidade e viam no Instituto dos Cegos uma possibilidade da criança crescer entre pares, entre outras crianças também cegas, e já crescer com noções de atividades de vida diária, orientação e mobilidade, ou seja, com todo suporte para ir crescendo, evoluindo, com independência, aprender técnicas de como ser independente com a educação. Esse modelo não é o ideal, isso não é inclusão, isso realmente é visto como uma integração, mas vigorou por muitos anos, não só aqui, mas no Brasil inteiro”, explica.

“Até hoje você vê que ainda não há um rompimento total com esse passado, que é muito recente. O Instituto dos Cegos deixou de ser um internato há pouquíssimo tempo. A inclusão é que todo aluno com deficiência tem que ser acolhido e respeitado com as suas necessidades pedagógicas. Tem uma estrutura organizacional pedagógica que faz com que essas pessoas com cegueira ou baixa visão sejam direcionadas para certas escolas, porque essas escolas públicas têm mais experiência no atendimento ao público deficiente visual. Isso é inclusão? Não! O que ainda existe é uma inserção e não uma inclusão”, complementa.

Na Paraíba, o Instituto dos Cegos está localizado tanto em João Pessoa, quanto em Campina Grande, no Agreste do Estado. Na capital paraibana, o Instituto fica localizado na Avenida Santa Catarina, no bairro dos Estados. Em Campina Grande, o Instituto fica localizado na Rua Pedro Leal, no bairro da Estação Velha.

Instituto dos Cegos de Campina Grande existe desde 1953 — Foto: Gustavo Xavier / G1
Instituto dos Cegos de Campina Grande existe desde 1953 — Foto: Gustavo Xavier / G1

Importância de se comemorar o Dia Nacional do Sistema Braille

Para a professora Joana Belarmino, antes da comemoração no Dia Nacional do Sistema Braile, é necessário a reflexão. Ela ressalta que a falta de acessibilidade em locais públicos e também a falta de inclusão propriamente dita são alguns dos obstáculos enfrentados pelas pessoas com deficiência visual. Joana comenta que o maior desafio para as pessoas com deficiência é lidar com o capacitismo vindo de terceiros e a inclusão tratada como um experimento, e não como algo que já acontece.

Tabela periódica em braille — Foto: Reprodução
Tabela periódica em braille — Foto: Reprodução

“O maior desafio, eu penso, é o de ainda se falar da inclusão como um experimento, como algo que está ainda por se realizar. A gente vê esse modo de perceber a inclusão em toda parte. Quando uma pessoa com deficiência é incluída, quando ela pode desempenhar suas competências, não tem preço que pague isso. Já a falta de inclusão e de acessibilidade barram a possibilidade da pessoa crescer”, diz a professora.

Para o bibliotecário Josenildo Costa, boa parte das pessoas não entendem que as pessoas cegas também podem realizar as mesmas funções de uma pessoa com a visão plena.

“Ter que conscientizar as pessoas da capacidade, porque muitas vezes acha que só porque você não enxerga ou tem outra deficiência era para estar em casa, era para andar com uma pessoa… hoje ainda existe essa visão. As pessoas não entendem que você é capaz, só é questão de você dar as ferramentas, dá o que é necessário para que ela seja incluída, para que ela possa desenvolver também, aprender e trabalhar”, comenta Costa.

“Quando estava procurando emprego e ia deixar currículos, as pessoas recebiam, mas eu sabia que não ia ser chamado. Isso aconteceu várias vezes comigo”, relata Josenildo.

“[Deve ser] muitíssimo comemorado, pelo fato de ter sido uma invenção genial, ainda subestimada pela generalidade, da sua dimensão, por ter tocado tantas milhões de vidas, de pessoas que tiveram suas vidas transformadas. O Braille ainda tem essa capacidade de, pelo alto relevo, fazer com que as pessoas cegas alcancem o conhecimento, uma formação, uma forma de alcançar empregos”, finaliza a transcritora Dina Melo sobre o 8 de abril.

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