Três facções da Venezuela atuam no Norte do Brasil, e fronteira com Peru e Bolívia é porta de entrada de drogas na Amazônia
Rodovia do Pacífico na fronteira entre Brasil e Peru; as cidades fronteiriças são Assis Brasil (AC) e Iñapari - Fabiano Maisonnave - 26.mar.20/Folhapress
por Folha de S.Paulo
A Polícia Federal apontou os municípios de Assis Brasil e Epitaciolândia como os pontos no Acre de maior risco para a entrada e saída de drogas na região da Amazônia, devido ao intenso fluxo na BR-317 e em estradas vicinais.
Assis Brasil fica na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, colada ao município peruano de Iñapari. Já Epitaciolândia fica na fronteira com Cobija, na Bolívia, a 115 km de Assis Brasil e a 220 km da capital Rio Branco.
A PF também alertou para o risco elevado de tráfico em áreas rurais da Reserva Extrativista Chico Mendes, frequentemente utilizadas para desvio da fiscalização.
As informações constam em um ofício assinado pelo diretor-executivo da Polícia Federal, William Marcel Murad, enviado à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, do Senado, e obtido pela Folha. A comissão foi encerrada na terça-feira (14), sem relatório final.
A PF apontou três eixos principais para o escoamento de drogas, especialmente de cocaína. Além da via terrestre, há as rotas fluviais pelos rios Negro e Solimões, com origem na Colômbia e no Peru, e pelos rios Acre e Iaco.
O tráfico também tem se modernizado com a utilização de rotas aéreas operadas por helicópteros e aviões clandestinos provenientes da Colômbia e do Peru.
No ofício, a Polícia Federal afirma que as duas principais facções criminosas do país, o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital), estão fortemente estabelecidas na Amazônia Legal. No Acre, o grupo conhecido como B13 também possui alcance estadual relevante.
Pequenos grupos locais, segundo Murad, também atuam na aquisição de entorpecentes de fornecedores estrangeiros e na redistribuição para outros estados.
Para combater essa expansão, a corporação apontou que há integração operacional com forças estaduais e cooperação internacional pontual com autoridades do Peru e da Bolívia, especialmente em operações conjuntas e trocas de informações para desarticulação de rotas.
Além disso, o governo federal implementou o Plano AMAS (Amazônia: Segurança e Soberania), o Centro de Cooperação Policial Internacional, como foco no fluxo de informações e atuação integrada em áreas transfronteiriças, e criou a Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente na PF.
Em outro ofício enviado à CPI, a Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afirmou que as principais organizações atuam também em crimes ambientais, como garimpo ilegal, desmatamento e grilagem de terras públicas.
“Com base nas análises produzidas pela Inteligência Penitenciária, o tráfico de drogas, especialmente a cocaína, é o principal motor do crime organizado na Amazônia”, disse a Senappen.
“Neste contexto, foram identificadas duas rotas para o escoamento do tráfico: (a) Rota Solimões (fluvial), ligação importante no eixo Amazonas-Pará, utilizada pelas principais organizações criminosas intercontinentais do país; e a (b) rota terrestre BR-364, principal via do sudoeste amazônico, ligando Acre e Rondônia ao Mato Grosso e, subsequentemente, ao Sul e Sudeste do Brasil.”
A Senappen também entregou à CPI o panorama de 2025 das facções criminosas. Foram identificadas 90 organizações em atuação no território nacional —ante 88 em 2024 e 70 em 2023.
O levantamento classifica esses grupos conforme o alcance territorial em quatro categorias: 74 locais (que atuam apenas no estado de origem), 14 regionais (presentes em mais de um estado), 2 nacionais e 2 transnacionais (que ultrapassam os continentes e as fronteiras do país) —o PCC e o Comando Vermelho estão nos dois últimos casos.
O documento, intitulado Mapa de Orcrims (organizações criminosas), apresenta o resultado de um monitoramento realizado nos últimos três anos pela Secretaria Nacional de Políticas Penais em parceria com a Rede Nacional de Inteligência Penitenciária.
Os dados do relatório mostram que a região Nordeste é a que possui o maior número de grupos mapeados, totalizando 46 organizações. Em seguida, aparecem o Sul (24), o Sudeste (18), o Norte (17) e o Centro-Oeste (9).
Um ponto de destaque é a presença de três organizações criminosas de origem venezuelana operando no Norte do país: o Sindicato de Las Claritas, o Tren de Aragua e o Tren de Guayana.
Os Estados Unidos designaram em fevereiro a gangue venezuelana Tren de Aragua e outros cartéis narcotraficantes como organizações terroristas globais, de acordo com um aviso no Registro Federal americano.
O governo Donald Trump avalia classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Autoridades brasileiras são contra a medida sob a alegação de que isso daria margem para interferências externas.