Depoimento: Trilha na Indonésia é muito difícil, mas ninguém te explica isso

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A médica Adélia Gazzinelli Marçal no topo do vulcão Rinjani, na Indonésia - Arquivo pessoal

A montanhista Adélia Gazzinelli Marçal, 26, médica ligada à Abmar (Associação Brasileira de Medicina em Áreas Remotas) esteve em agosto do ano passado no mesmo vulcão na Indonésia onde a brasileira Juliana Marins foi encontrada morta na terça-feira (24).

Adélia estava em meio a uma viagem de oito meses de mochilão pelo mundo e conta que os perrengues começaram antes mesmo da saída, quando foi cobrada por um valor equivalente a R$ 1.500, o dobro do que seus demais colegas haviam pago pelo mesmo passeio.

Em relato ao jornal Folha de S.Paulo, ela fala sobre as condições precárias da estrutura turística oferecida na região.

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Eu fiz a trilha ao vulcão Rinjani entre 15 e 17 de agosto do ano passado. É uma trilha muito difícil, mas que é vendida em todo o mundo sem nenhum tipo de questionário, sem explicação do nível de dificuldade. Em nenhum momento as companhias que vendem o passeio perguntam de sua experiência.

O lugar é muito turístico. A maioria dos grupos que vão são de dez pessoas, que seguem acompanhadas por um a dois guias. Como a grande maioria das pessoas sobe ao cume para ver o nascer do sol, é uma subida de madrugada, com lanternas.

No meu grupo, por exemplo, uma menina teve mal de altitude, então ela parou no acampamento, não subiu. A gente chega no fim do primeiro dia, acampa e acorda às duas horas da manhã para subir. Ela não conseguiu, estava passando mal. Os guias não tinham nenhum tipo de medicação, nem kit de primeiros socorros. Se acontecer alguma coisa, não tem nenhum tipo de preparo.

E você não anda junto dos seus guias, não anda como grupo. Você tem o guia —de tempo em tempo ele reencontra as pessoas—, mas as pessoas acabam fazendo por conta própria. O segundo dia, da descida do cume até a lagoa para depois subir, tem um nível de dificuldade maior.

Você está mais cansado e é mais difícil que chegar no cume. Há mais pontos de queda. Então, nessa segunda parte, um monte de gente vai embora pelo mesmo caminho que veio, e tem as pessoas que vão atravessar, descem no lago e sobem. Nessa parte, o guia está o tempo inteiro junto. No meu caso eu ainda tive um problema.

Eu estava num grupo de dez pessoas —seis iriam fazer bate e volta, quatro iriam fazer a rota de três dias e duas noites. Duas pessoas desse último grupo desistiram porque acharam muito difícil. Outra, uma chinesa, queria pagar um guia próprio, porque ela era muito devagar, não conseguia acompanhar o ritmo do grupo e acabou desistindo.

Sobramos eu e o meu guia. Primeiro, ele tentou me convencer a desistir, porque ele não queria ir, já que um grupo de oito pessoas voltaria com um só guia. Depois, quis me deixar com uns carregadores que não falavam inglês nenhum.

Aí eu tive que brigar, falei que não iria, e ele acabou me acompanhando. Se eu tivesse aceitado, ele simplesmente teria me largado lá, o que mostra o despreparo e a falta de consciência de guias. São todos muito mal pagos, não têm nenhum suporte do governo.

Além de tudo, o lugar não tem estrutura nenhuma. Você chega lá em cima, no acampamento principal, não tem coleta de lixo nem banheiro. Na trilha, algumas partes tinham umas cordas, mas a parte do cume, a parte do risco maior de queda, não tem absolutamente nada.

É um lugar muito frequentado, mas é uma coisa muito amadora. À entrada do parque, eles apresentam um questionário que a gente assina, no qual eles recomendam que pessoas a partir de certa faixa etária ou com alguns problemas de saúde não vão, mas só.

Tem também um checkpoint antes de começar a visita, que deveria ser uma consulta com um médico —eles cobram por ela, inclusive. Eu já era médica quando fui lá, então questionei e aquilo é praticamente uma mentira. É um papel assinado por um médico que mede sua pressão, sua saturação e diz que você passou por um exame e que ele te liberou, mas em momento algum ele me avaliou. É só mais uma taxa que você paga para subir.

No meu grupo mesmo, no dia de subir ao cume, um italiano que estava sozinho não conseguiu subir. Depois, ele me contou que havia ficado muito cansado e dormiu no caminho, de madrugada, sem que ninguém soubesse onde ele estava.

Os guias não o acharam. Ele decidiu, sem comunicação nenhuma com o grupo, tentar o cume. Acabou chegando umas duas ou três horas além horário em que deveria e voltou.

 

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