Contra Trump, Lula apoia África do Sul por declaração final do G20
Os presidentes Lula e Cyril Ramaphosa em Joanesburgo, na África do Sul - Ricardo Stuckert/Divulgação PR
Adotando posição oposta à de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reiterou apoio ao seu homólogo da África do Sul, Cyril Ramaphosa, no esforço para produzir uma declaração final do encontro de líderes do G20, que será realizado neste fim de semana em Joanesburgo.
O presidente dos EUA boicotou o G20 e anunciou que não assinará nenhum documento oficial que saia do evento. Trump discorda da agenda proposta pela África do Sul como atual anfitriã e presidente do grupo que reúne as 19 principais economias do mundo, mais os blocos União Europeia e União Africana.
O slogan do encontro é “Solidariedade, Igualdade, Sustentabilidade”. Na agenda, aparecem temas que vão na contramão das prioridades de Trump, incluindo crescimento econômico inclusivo, redução da desigualdade, segurança alimentar e uso sustentável da inteligência artificial.
Lula e Ramaphosa tiveram um encontro bilateral de 40 minutos na tarde de sexta (21), em um centro de convenções da cidade sul-africana. A reunião ocorreu a portas fechadas, mas participantes relataram o teor da conversa.
Segundo o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência para a política externa e integrante da comitiva brasileira, “há uma grande empatia” entre os presidentes brasileiro e sul-africano. Para ele, isso ajuda a encontrar afinidades.
Em tese, Trump não tem poder para vetar uma declaração final do G20. Mas Amorim ressalvou que ela costuma ser produzida por consenso, o que abre espaço para que não haja um documento formal.
Ao ser questionado esta semana sobre o boicote do presidente americano, Cyril Ramaphosa respondeu que o “azar é dele [Trump]”.
Ironicamente, caberia a Ramaphosa entregar ao próprio Trump a presidência do G20 ao final da cúpula. O encontro de 2026 ocorrerá em um resort na Flórida pertencente ao presidente americano. Amorim admitiu que a falta da passagem formal é um constrangimento para a organização do encontro.
Sem evidências, Trump acusa Ramaphosa de perseguir a minoria branca sul-africana, descendente dos colonizadores europeus e que hoje representa cerca de 7% da população.
Também pesam na crise entre os países o corte de ajuda externa americana com o desmantelamento da Usaid —Pretória era um dos principais recipientes dos recursos, principalmente no contexto de programas contra o HIV— e o processo movido pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça contra Israel, um dos maiores aliados dos EUA.
Lula chegou ao aeroporto internacional O.R. Tambo pouco antes das 12h locais (7h da manhã em Brasília). Um grupo de cinco dançarinos em trajes típicos fez uma apresentação para o presidente brasileiro logo na saída do avião.
Entre outros temas, Lula e Ramaphosa falaram sobre a COP30, que o brasileiro reiterou ser “a COP da verdade”; sobre as tarifas impostas por Trump a diversos países, inclusive Brasil e África do Sul; e sobre minerais críticos, recursos estratégicos possuídos por ambas as nações e que estão na agenda de temas do G20.
Os dois países foram atingidos pelo tarifaço imposto pelo presidente americano, e Brasília vem conseguindo recuos do governo Trump.
O brasileiro ainda convidou seu homólogo sul-africano a fazer uma visita oficial ao Brasil no ano que vem para participar de um seminário empresarial.
“Os dois líderes reconheceram que a balança comercial não condiz com o tamanho das duas economias e avaliam a possibilidade de negociações para ampliação do acordo entre Mercosul e a União Aduaneira da África Austral”, diz trecho de nota divulgada pelo Planalto após o encontro.
Neste sábado (22), Lula deve ser o segundo a discursar, logo após Ramaphosa, na sessão inaugural do encontro de líderes, às 10h15 locais (5h15 de Brasília). Às 14h10 (9h10 de Brasília), o presidente brasileiro se reúne, novamente a portas fechadas, com o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz.
Na pauta, além do apoio alemão ao TFFF, o fundo de preservação de florestas tropicais lançado pelo Brasil na COP30, eles falarão da visita prevista de Lula à feira industrial de Hannover, em abril do ano que vem. Espera-se ainda que abordem as polêmicas declarações de Merz esta semana, depreciando Belém.
O premiê disse que todos os jornalistas de seu país “ficaram contentes” com o retorno à Alemanha. “Especialmente daquele lugar onde estávamos”, disse ele sobre a cidade brasileira.
À tarde, Lula participa da segunda sessão do dia na cúpula, intitulada “Um mundo resiliente – a contribuição do G20”. Entre os temas, serão discutidos a redução do risco de desastres relacionados à mudança do clima, a transição energética e os sistemas alimentares.
Na quinta (20), Lula, Ramaphosa e o premiê da Espanha, Pedro Sánchez, assinaram artigo conjunto no jornal britânico Financial Times. Intitulado “Enfrentamos uma emergência de desigualdade”, o texto defende “um novo multilateralismo que coloque as necessidades das pessoas no centro da agenda internacional”.
As ausências de Donald Trump e Xi Jinping esvaziam, em parte, a cúpula deste fim de semana. A China anunciou a ida do primeiro-ministro Li Qiang, como já havia ocorrido na cúpula do Brics, no Rio, em julho.
Movimentos sociais prometeram manifestações em Joanesburgo durante os dois dias do G20. O presidente Ramaphosa anunciou um reforço do esquema de segurança, para que o evento não seja perturbado.
Na sexta, grupos feministas sul-africanos convocaram um “shutdown de mulheres”, como forma de chamar a atenção para a violência de gênero. Nas principais cidades do país, sul-africanas se deitaram no chão durante 15 minutos, ao meio-dia, para simbolizar as 15 mulheres que, segundo levantamento, são assassinadas diariamente na África do Sul. Em discurso, Ramaphosa admitiu que o feminicídio é um “desastre nacional”.
A comitiva brasileira para o G20 está hospedada no The Leonardo, um dos principais hotéis de Joanesburgo. Nos sites de reservas é possível achar diárias por cerca de 8.500 rands (R$ 2.600).
Também viajaram com Lula os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Fernando Haddad (Fazenda).


