Supersalários sem limites: falta de controle efetivo e lei clara dificulta frear ‘penduricalhos’ no serviço público

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Especialistas avaliam decisão de Dino, cobram nova lei do Congresso e alertam para fragilidades no atual modelo de fiscalização

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Mão direita da estátua que fica diante da sede do Supremo Tribunal Federal, em BrasíliaMão direita da estátua que fica diante da sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília — Foto: Luiz Silveira/STF

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), voltou a apertar o cerco contra pagamentos a servidores públicos que extrapolam o teto constitucional por meio de “penduricalhos” e verbas indenizatórias.

A decisão mais recente do ministro Flávio Dino, que cobra do Congresso a regulamentação definitiva do tema, evidencia a falta de controle efetivo sobre a remuneração de servidores, especialmente no Judiciário e no Ministério Público, apontam estudiosos do tema ouvidos pelo GLOBO.

Pesquisador acostumado a enfrentar obstáculos técnicos e burocráticos para levantar dados sobre os salários de servidores que ganham acima do teto constitucional, o cientista político Sérgio Guedes-Reis, da Universidade da Califórnia, chama a atenção para a falta de controle externo sobre a remuneração de boa parte dos órgãos públicos, especialmente no Judiciário e no Ministério Público.

‘Comissão externa’

Para Guedes-Reis, essa fragilidade deveria ser considerada numa regulamentação dos supersalários que pode ser feita no Congresso. Uma das determinações do ministro Flávio Dino, inclusive, é que o Congresso Nacional aprove uma lei com esse objetivo, cumprindo uma exigência incluída na Constituição por emenda em 2024.

— Precisamos de um modelo de governança do tipo comissão externa. Um órgão externo para verificar e aprovar as remunerações — afirmou.

Segundo o pesquisador, no Judiciário, hoje o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deveria exercer esse papel, mas, na prática, não tem cumprido essa função. Guedes-Reis defende que a regulação se concentre menos na classificação dos diferentes “penduricalhos” e na criação de exceções, e mais na definição de um teto global anual que não possa ser ultrapassado em nenhuma hipótese.

Corrida de ‘penduricalhos’ barrada

Na avaliação de Juliana Sakai, diretora executiva da ONG Transparência Brasil, o principal avanço da decisão mais recente de Dino foi fechar brechas para a legalização de novos benefícios criados por atos administrativos, sobretudo no Judiciário.

— Tínhamos receio de que, com a proibição do pagamento de verbas indenizatórias definidas apenas administrativamente, houvesse uma corrida legislativa para legalizar esses pagamentos — disse.

A expectativa, segundo ela, é que o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirme a decisão do ministro. Com isso, a atenção da entidade se voltará para a tramitação do projeto de lei que regulamenta o teto do funcionalismo.

Juliana avalia que a versão atualmente em debate no Congresso é ruim e tende a piorar o quadro. Para ela, a decisão de Dino tem a vantagem de estabelecer parâmetros para a futura legislação, ao lembrar que a Constituição já prevê que pagamentos extras não podem ser permanentes nem incorporados ao salário e que é necessário disciplinar o pagamento de valores retroativos.

Um jurista especializado em Direito Constitucional ouvido pelo GLOBO, que pediu anonimato, concorda que a decisão acerta no mérito ao reforçar a regra constitucional de que nenhum servidor pode receber acima do teto. No entanto, ele aponta fragilidades na forma como a medida foi adotada.

Segundo o jurista, o problema está no fato de Dino ter tomado decisões com efeitos gerais sobre todo o funcionalismo, em todos os poderes e esferas de governo, dentro de uma ação judicial específica, que tratava do caso de procuradores municipais de Praia Grande, em São Paulo.

O rito jurídico, afirma, prevê que decisões sejam tomadas a partir de casos concretos, mediante provocação dos cidadãos, o que tornaria o caminho escolhido passível de questionamentos.

Apesar das divergências, especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o debate reforça a pressão sobre o Congresso para aprovar uma lei que estabeleça regras mais claras, amplie a fiscalização e limite, de forma efetiva, os supersalários no serviço público.

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