‘Saiu exatamente como mandei’: Ciro Nogueira recebeu emenda do Master em envelope, diz investigação
O senador Ciro Nogueira em entrevista para a Folha em seu gabinete, em Brasília, em setembro de 2025 - Gabriela Biló/Folhapress
por Folha de S.Paulo
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) reproduziu na íntegra uma emenda produzida pelo Banco Master e depois apresentada ao Senado que buscava ampliar para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), afirmou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, em decisão que autorizou operação de busca e apreensão contra o parlamentar na quinta-feira (7).
O conteúdo teria sido elaborado pela equipe do banco e enviado em um envelope para a casa do senador. “De acordo com a Polícia Federal, o conteúdo da versão entregue é ‘reproduzido de forma integral pelo parlamentar’ ao Senado”, diz o ministro na decisão.
Ainda fazendo referência à investigação da PF, Mendonça cita afirmação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, logo após a publicação da proposta de emenda: “saiu exatamente como mandei”.
Procurada pela reportagem, a defesa de Ciro Nogueira afirmou repudiar ilações de ilicitude, “especialmente em sua atuação parlamentar”, e disse que o senador está comprometido a contribuir com a Justiça para esclarecer que não participou de atividades ilícitas.
“Segundo os autos, o texto da emenda foi elaborado pela assessoria do Banco Master, encaminhado por André Krushewsky Lima [diretor do banco] a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em envelope endereçado ‘Ciro’, no endereço residencial do senador, coincidente com aquele constante de seus dados fiscais”, afirma ainda a sentença de Mendonça, sempre citando conteúdo da investigação da PF (Polícia Federal).
A emenda, apelidada de ‘emenda Master’ nos bastidores do Congresso, beneficiaria o banco ao aumentar o volume de recursos garantidos pelo FGC, atraindo mais investidores para os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) vendidos pela instituição.
Os CDBs do Master eram oferecidos como os mais rentáveis do mercado, vendidos com o atrativo de terem a cobertura do FGC, que assegura pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em ativos de renda fixa.
Além de ter reproduzido a emenda que beneficiaria o banco, o senador e presidente do PP também é acusado na decisão de receber uma espécie de mesada do dono do Master, Daniel Vorcaro, no valor de R$ 500 mil. Os pagamentos seriam efetuados pelo primo de Vorcaro, Felipe Vorcaro, preso na manhã de quinta.
“Medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas”, diz a nota assinada pelo escritório Almeida Castro, Castro e Turbay advogados, que defende o senador.
A reportagem não localizou a defesa de Felipe Vorcaro.