Ex-subsecretária de Defesa dos EUA diz que ações de Trump contra o Brasil têm objetivo de apoiar Bolsonaro

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Jana Nelson, brasileira-americana que foi subsecretária de Defesa dos EUA - Divulgação

A relação entre Brasil e Estados Unidos, os dois maiores países das Américas, atravessa novas tensões. Na última semana, houve a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano, o resultado parcial da investigação comercial contra o Brasil que prevê novas tarifas de 25%, e declarações de integrantes do governo Donald Trump que reacenderam o debate sobre os rumos da parceria bilateral.

As medidas ocorreram em meio à aproximação de aliados de Trump com a família Bolsonaro e alimentaram questionamentos sobre o início da tentativa de interferência nas eleições por parte de Washington.

À Folha, Jana Nelson, subsecretária de Defesa para o Hemisfério Ocidental no governo Joe Biden, diz que as ações recentes de Trump não podem ser vistas como coincidência. Ela avalia que representam um sinal político de apoio ao campo bolsonarista, embora de forma menos explícita.

Nelson é a brasileira-americana que chegou mais longe na hierarquia do governo dos EUA e hoje trabalha como professora de política externa e econômica dos EUA na Universidade Cornell.

Formada em relações internacionais pela Universidade de Brasília e mestre pela Universidade Georgetown, ela foi subsecretária de Defesa dos EUA para o Hemisfério Ocidental até janeiro de 2025 e integrou a equipe responsável pelo Brasil no Departamento de Estado americano de 2010 a 2015.

Na entrevista, ela também analisa os impactos da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, os efeitos de longo prazo sobre a confiança entre os dois países e os desafios para o diálogo entre Brasília e Washington.

Como a senhora enxerga esse vai e volta da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos? Como podemos ler esse momento?
O presidente Trump tem deixado muito claro que ele tem como objetivo apoiar candidatos de direita no mundo inteiro. Isso foi bem evidente no caso da Hungria, com Viktor Orbán, onde ele pediu para o vice-presidente viajar para o país durante a campanha. Também foi evidente em Honduras, onde o próprio Trump fez comentários favoráveis a um candidato específico, que acabou vencendo.

O fato é que ele tem como objetivo se envolver em eleições ou, se não diretamente em eleições, apoiar líderes de direita.

Muitas iniciativas de política externa do governo Trump são direcionadas a governadores e líderes de direita, excluindo líderes de esquerda. Por exemplo, no Escudo das Américas [grupo com países da América Latina para combater o crime organizado da região], os convidados eram todos presidentes de direita. Se estamos falando de segurança regional, seria natural imaginar que México e Colômbia participassem, mas eles não foram convidados.

Isso tem sido bastante claro e evidente, se não nas palavras, certamente nas ações do governo Trump. O apoio à família Bolsonaro ou a um candidato Bolsonaro talvez não seja explícito, mas as ações contra o governo brasileiro, que é um governo de esquerda, essas sim são explícitas.

A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, seguida da conclusão da investigação comercial, das falas de Marco Rubio criticando o Brasil e o post de Trump com Flávio Bolsonaro, podem ser vistas como coincidência?
Não. De nenhuma maneira.

Como você interpreta os elogios que Trump frequentemente faz a Lula, ao mesmo tempo em que recebe Flávio Bolsonaro e adota medidas contra o governo brasileiro?
Parece estranho porque a gente imagina que um líder com determinados objetivos políticos se manteria coerente com esses objetivos em todas as circunstâncias. Mas não é o caso do Trump.

Ele fala muito bem da presidente Claudia Sheinbaum, no México. Também falou muito bem de líderes de esquerda em outras situações. Um exemplo foi o prefeito Zohran Mamdani, em Nova York.

Você tem vários casos em que, no plano pessoal, ele é simpático, carismático e elogioso, inclusive quando a pessoa não está presente. Mas as ações de política pública são outra história.

É nelas que a maior parte da atenção deve ser colocada. Porque, por mais que ele fale bem de alguém, pode adotar uma política que prejudique essa mesma pessoa logo em seguida. E acho que estamos vendo isso agora com o Lula.

A possibilidade de novas tarifas representa o início de um processo de interferência americana no Brasil?
As tarifas já vinham sendo discutidas havia muito tempo. Tudo o que está escrito ali são temas sobre os quais o governo americano reclama há bastante tempo. Algumas questões estão mais ligadas ao Trump; outras são problemas históricos entre os dois países.

A questão principal é o timing. Se estavam segurando para anunciar depois, se poderiam ter anunciado antes, isso é outra discussão. Mas o fato de terem sido divulgadas logo depois da visita do Flávio Bolsonaro indica apoio político a ele.

Acho que existe uma compreensão dentro do governo Trump —e suspeito que a própria família Bolsonaro tenha transmitido isso— de que intervenções explícitas não seriam bem recebidas no Brasil e provavelmente não ajudariam eleitoralmente. Intervenções indiretas talvez sejam mais viáveis.

O próprio [Flávio] Bolsonaro afirmou que pediu várias vezes que a investigação 301 não avançasse e que as tarifas não fossem implementadas. Se isso for verdade, e eu não tenho razões para duvidar, então essa foi uma decisão unilateral do governo Trump. Se haverá novas ações, eu não sei. Mas essa ação específica demonstra apoio político ao candidato Bolsonaro.

Como você avalia a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas? Isso pode melhorar a segurança ou é uma medida política?
Eu acho que as duas coisas. Assim como no caso da investigação comercial, existe um fundo de verdade nas críticas que o governo americano faz. No caso do PCC e do Comando Vermelho, fiquei surpresa por ter demorado tanto.

As designações que vimos ao longo do último ano envolveram cartéis e organizações muito menores do que PCC e Comando Vermelho. O governo americano vem sinalizando há cerca de um ano que pretendia fazer isso, enquanto o governo brasileiro vinha tentando impedir.

Eu tendo a acreditar que a decisão demorou porque o governo brasileiro fez um trabalho eficiente de convencimento. Imagino também que empresas tenham conversado com Washington para evitar essa classificação. No caso do Brasil, o impacto tende a ser maior do que no México ou na Colômbia.

Empresas que investem nesses países já entram sabendo que precisam mitigar riscos associados ao crime organizado. Elas monitoram constantemente esses riscos.

No Brasil, a lógica é diferente. Empresas investem pensando em um grande mercado consumidor, capital humano qualificado e oportunidades econômicas. Elas não entram pensando no crime organizado.

Por isso, empresas estrangeiras que já estão no Brasil terão mais dificuldade para se adaptar rapidamente a essa nova realidade do que empresas que operam em países como México ou Colômbia. Então, sim, isso tende a afetar investimentos no Brasil.

Mas PCC e Comando Vermelho representam uma ameaça para os Estados Unidos?
Sim. Eles têm presença internacional. O PCC está presente em países andinos, no Paraguai, na Bolívia. O Comando Vermelho tem forte presença no Peru.

Produtos ilegais ligados a essas redes —cocaína, ouro ilegal e outros— chegam ao mercado americano. É muito difícil monitorar cadeias produtivas ilegais. Se já é difícil monitorar uma cadeia legal, é quase impossível monitorar uma cadeia ilegal.

Então é difícil afirmar exatamente qual porcentagem de determinado produto ilegal está ligada ao PCC ou ao Comando Vermelho.

Mas o fato é que essas organizações têm presença regional e produzem efeitos internacionais. Portanto, a preocupação americana não é apenas com o Brasil.

Como você vê a reação do governo brasileiro ao sugerir que o Pix estaria sob ameaça após a designação?
Eu acho que existe uma preocupação de que, em algum momento, fique demonstrado que essas organizações criminosas utilizam o Pix.

O grande argumento a favor do Pix é justamente a visibilidade das transações. Tudo passa pelo sistema e, em teoria, isso permite ao governo identificar movimentações suspeitas, corrupção ou atividades ilícitas.

O Pix poderia ser um instrumento importante de combate à corrupção e de monitoramento financeiro. Se organizações criminosas estiverem utilizando o sistema de maneira relevante, isso reduz parte do valor moral e social que o Pix possui.

No ano passado você disse que as ações de Trump deixariam sequelas permanentes na relação bilateral. Hoje estamos diante de algo mais profundo?
Eu não sei se é mais profundo. Acho que é mais do mesmo. Existe uma narrativa muito forte no Brasil relacionada ao apoio americano à ditadura militar. E eu não digo que essa narrativa esteja errada. Ela é consequência de decisões tomadas nos anos 1970.

Eu sempre tive esperança de que, à medida que novas gerações chegassem ao poder, fosse possível fazer um reset da relação bilateral. Mas isso não vai acontecer.

Depois desses anos de bullying do governo Trump contra o governo brasileiro, você terá pelo menos uma ou duas novas gerações que se lembrarão desse período. A ressaca da relação bilateral talvez deixe de ser a ditadura e passe a ser o governo Trump.

Vai existir uma memória coletiva de que “não dá para confiar nos Estados Unidos porque eles fizeram isso, isso e aquilo”. As sequelas continuam existindo. Quanto mais ações contra o Brasil forem tomadas, maiores serão.

Como você vê a relação bilateral daqui para frente?
Por um lado, os dois países têm relativamente pouca relação comercial e, como resultado do tarifaço ano passado, cada vez menos. Isso faz com que o tema seja mais político do que econômico.

Hoje a principal carta que o Brasil possui é a questão dos minerais críticos. Essa é uma das razões pelas quais Trump reduziu o foco no tarifaço anterior. Mesmo agora, a proposta associada à investigação 301 tem diversas exceções que preservam setores importantes, como carne e laranja.

Mas o que me chamou mais atenção foi a questão da regulação das redes sociais. Ali existe uma diferença profunda de valores.

Os EUA veem determinadas ações brasileiras como ameaça à liberdade de expressão. Já o Brasil vê essas mesmas ações como proteção da democracia contra a desinformação. Eu acho que os dois lados possuem argumentos válidos.

O problema é que eles partem de visões de mundo completamente diferentes. E quando a divergência é de princípios e valores, o diálogo se torna muito mais difícil.

Acredita que as críticas de Lula a Trump e episódios como a negativa de visto a Darren Beattie chegam a influenciar Washington?
Eu acho que não. Primeiro porque muitas dessas declarações acontecem em português. Pouquíssimas pessoas em Washington acompanham o debate político brasileiro de forma detalhada. Existe uma barreira linguística importante.

Além disso, tudo isso aconteceu em um período em que havia temas internacionais muito mais urgentes para os EUA. Quanto ao caso do Darren Beattie [assessor de Trump que queria visitar Jair Bolsonaro na cadeia, mas que teve visto revogado por governo Lula], talvez tenha gerado alguma irritação. Mas nada que eu veja como capaz de chegar ao Trump ou provocar as medidas que estamos vendo agora.

Hoje existe falta de pessoas capazes de traduzir Brasil e EUA um para o outro?
Sim. Esse sempre foi um dos meus objetivos. Brasil e EUA têm visões de mundo diferentes. Muitas das pessoas que antes faziam essa ponte já não estão mais no governo.

O que você tem hoje são pessoas que, em alguns casos, desenvolveram uma certa antipatia pelo Brasil. Muitos republicanos que trabalham com América Latina estão acostumados a lidar com países menores, que frequentemente aceitam as posições americanas. Eles se surpreendem quando descobrem que o Brasil não faz isso.

O Brasil possui interesses nacionais próprios e não abre mão deles facilmente, como qualquer país deveria fazer. Em muitos casos, essa surpresa acaba virando frustração e até ressentimento. Hoje há pessoas administrando a relação bilateral que simplesmente já não demonstram interesse em compreender o Brasil. É uma pena.


Raio-X | Jana Nelson, 42

É formada em relações internacionais pela Universidade de Brasília e tem mestrado pela Universidade Georgetown. Ela foi subsecretária de Defesa dos EUA para o Hemisfério Ocidental (deixou o cargo em janeiro de 2025), assessora sênior da missão dos EUA na ONU, e integrante da equipe responsável pelo Brasil no Departamento de Estado (2010-2015). Atualmente, é professora na Universidade de Cornell de Política Externa e Econômica dos Estados Unidos.

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