Pré-campanha de Lula tem disputa interna, e aliados travam embates do jurídico à comunicação

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião ministerial no Palácio do Planalto - Gabriela Bilo - 3.jun.26/Folhapress

A cerca de um mês do começo oficial da corrida presidencial, a pré-campanha do presidente Lula (PT) vive disputas por espaço no núcleo de decisões de seu comitê eleitoral. A briga por poder vai da equipe de comunicação à definição do plano de governo para um eventual Lula 4, passando ainda pelo jurídico.

Os embates ocorrem em momento em que o presidente consolida sua vantagem em relação a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e tem uma recuperação na aprovação do governo. Segundo pesquisa Quaest divulgada na quarta (15), o petista abriu vantagem de oito pontos sobre o senador.

A comunicação tem sido alvo de disputas constantes no núcleo do petista, a ponto de o ministro da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), Sidônio Palmeira, e o chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, terem travado um debate diante do presidente sobre os rumos da campanha. Segundo dois aliados próximos, Lula teve que dar um soco na mesa para interromper a discussão.

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De acordo com esses relatos, Lula reclamava com Sidônio do tom festivo de uma peça publicitária produzida pela Secom, lembrando que já havia se manifestado contrário a esse estilo de propaganda. Enquanto Sidônio contra-argumentava, Marcola apoiou a opinião do presidente, desencadeando uma discussão entre os dois.

A peleja entre dois grupos palacianos cresceu com a transferência das contas pessoais do presidente para o PT. O partido tem Nicole Briones, mulher de Marcola, à frente da coordenação digital.

A mudança deixou os perfis de Lula a cargo do ex-secretário de produção e divulgação de conteúdo audiovisual, Ricardo Stuckert. E, por decisão do presidente, Sidônio permanecerá no governo.

Embora o ministro fique fora do marketing da campanha, o publicitário Raul Rabelo, seu ex-sócio, integrará a equipe, ao lado de Stuckert, Nicole e do secretário de comunicação do PT, Edén Valadares. O trabalho será coordenado pelo presidente do PT, Edinho Silva.

Sidônio tem minimizado o episódio com Marcola em conversas com pessoas próximas e disse que não houve briga. Aliados do marqueteiro também negam haver mal-estar entre ele e outros auxiliares de Lula, dizendo que o próprio presidente pediu que ele ficasse no governo.

Tanto Sidônio quanto Marcola foram procurados para comentar o caso, mas não responderam.

A elaboração do plano de governo também causou entrevero, especialmente depois de o coordenador do programa, Sérgio Gabrielli, questionar, publicamente, a centralidade da política de juros no combate à inflação.

Segundo relatos, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), reagiu às críticas à condução da política econômica, sob a justificativa de que a equipe econômica não tinha sido consultada sobre o texto.

Gabrielli argumentou, durante reunião da coordenação da campanha, que está ouvindo governo e sociedade para redação da proposta —ainda em fase de construção. Lula determinou que só se fale sobre o programa de governo após aval da equipe econômica e de Haddad.

Gabrielli e Haddad também não responderam a pedido de comentário a respeito das rusgas na pré-campanha.

Além de arbitrar sobre desavenças, o presidente tem manifestado preocupação com o desempenho da equipe jurídica, diante de divergências entre o presidente do PT e o coordenador do grupo Prerrogativas, Marco Aurélio Carvalho.

Convencido da necessidade de uma atuação aguerrida e de teor mais político nos tribunais, há dois meses, Lula informou Edinho da decisão de escalar Marco Aurélio Carvalho para a coordenação jurídica da campanha. O presidente tem cobrado uma estrutura que faça frente à disseminação de fake news e ao uso de IA nas eleições.

Pesou para a escolha a veemência com que Marco Aurélio defende Lula publicamente. O advogado chegou a apresentar a Edinho uma proposta de trabalho sob seu comando.

Duas semanas depois, o presidente do PT avisou-lhe que não existiria a figura de um coordenador jurídico. Disse ainda que já vinha montando um time para a batalha nos tribunais.

Edinho defende a manutenção de parte da mesma equipe de 2022, à época liderada pelo atual ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Cristiano Zanin.

À Folha a assessoria do PT afirmou que “não há nenhuma disputa no jurídico da campanha”.

Hoje, quem conduz as principais ações do PT na Justiça Eleitoral é o escritório Ferraro, Rocha e Novaes. Uma das apostas do partido é a preparação de uma estratégia de combate à desinformação baseada na análise das redes sociais.

O grupo já apresentou ações que levaram à derrubada de postagens que associavam o PT ao crime organizado, além de representações contra a articulação de Flávio Bolsonaro com o governo dos Estados Unidos.

Quem defende sua manutenção aponta o temor de que a contundência de Marco Aurélio enfrente resistência entre magistrados, apesar do advogado dizer que conta com trânsito nos tribuinais superiores.

Já os que defendem a importância de uma atuação política ressaltam a chegada da ex-ministra do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Maria Claudia Bucchianeri na campanha de Flávio e dizem que o perfil discreto do atual escritório preocupa.

Dessa forma, cogita-se chamar outro advogado para assumir as sustentações orais em julgamentos na corte eleitoral, quando os representantes dos candidatos se manifestam no plenário.

Descrito com discreto e técnico, o advogado Angelo Ferraro integra a equipe do PT desde a campanha vitoriosa de Dilma Rousseff. Ele não tem participado das reuniões da coordenação de Lula.

Diante do impasse com Edinho, Marco Aurélio diz ter sido convidado por Lula para a coordenação-geral da campanha, sem subordinação ao presidente do PT.

“Marco Aurélio é meu amigo e profissionalmente muito preparado. Só pedi tempo para construir uma proposta de unidade, já que temos uma equipe trabalhando na pré-campanha e acumulando vitórias todos os dias”, afirmou Edinho.

Edinho acrescentou que essa é a quarta campanha presidencial de que participa da coordenação. “Sei o que acumula forças e o que desagrega. Minha responsabilidade é proteger a campanha do presidente.”

Marco Aurélio, por sua vez, disse respeitar a opinião do presidente do PT, mas deixou claro que discorda do papel definido para a assessoria jurídica da campanha. Segundo ele, a ameaça de uso de inteligência artificial nas eleições, associada às fake news, exigirá um trabalho político da equipe.

“Respeito a opinião dele [Edinho]. Mas tenho uma opinião distinta sobre o papel do coordenador jurídico sem um papel político”, afirmou.

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