Governo Lula convoca embaixador na Argentina após ataque de Milei a Moraes

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por Folhapress

Embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, em audiência no Senado, em 2024 – Pedro França – 18.jul.24/Agência Senado

O governo Lula convocou o embaixador do Brasil na Argentina após o ataque do presidente Javier Milei ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), no último sábado (25), em São Paulo.

A decisão foi revelada pelo UOL e confirmada pela Folha. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores disse que a decisão foi tomada na madrugada de domingo (26). O embaixador Julio Bitelli chegará ao Brasil nesta segunda-feira (27).

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Horas após a convocação de Bitelli, o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi foi convocado ao Itamaraty no final da tarde. Trata-se de um segundo instrumento de protesto sobre as declarações de Milei na convenção.

A convocação de um embaixador é um dos principais instrumentos diplomáticos de demonstração de descontentamento entre países. Ao chamar seu representante de volta para consultas, um governo sinaliza que considera a relação bilateral em um momento de tensão e avalia os próximos passos de sua política externa.

Fontes do Itamaraty afirmam que esse tipo de ação só teve precedente na crise diplomática com Israel em 2024. Na ocasião, o presidente Lula foi classificado como “persona non grata” por criticar os ataques israelenses contra civis na Palestina.

Naquela crise, o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o então embaixador israelense no Brasil, Daniel Zonshine, para uma reunião. Ao mesmo tempo, chamou o representante brasileiro em Tel Aviv de volta a Brasília.

No sábado, o presidente argentino chamou Moraes de “lixo careca” por não ter autorizado que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em Brasília por tentativa de golpe de Estado. A declaração fez parte de um longo discurso de Milei na convenção do PL que homologou a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Integrantes da cúpula do Itamaraty ouvidos pela Folha afirmam que a convocação do embaixador brasileiro na Argentina para consultas não encontra precedentes desde quando os países vizinhos retomaram suas democracias, na década de 1980. Diplomatas dizem não se recordar de episódio semelhante, nem mesmo durante o período dos regimes militares nos dois países, o que reforça o caráter excepcional da medida adotada agora para manifestar o descontentamento do governo brasileiro.

Bitelli já havia sido chamado a Brasília em 2024, mas para consultas internas e troca de informações sobre a relação bilateral entre os dois países. Desta vez, a convocação tem caráter distinto e serve para expressar o desagrado do governo brasileiro com a postura de Milei.

A medida da convocação do embaixador não implica, necessariamente, rompimento de relações diplomáticas, mas funciona como um gesto político de forte peso simbólico, frequentemente adotado em resposta a crises, declarações consideradas ofensivas ou decisões do outro país.

Moraes negou o pedido de Milei logo após ter proibido visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao pai por 90 dias.

Julio Bitelli é titular do posto diplomático na Argentina desde 2023, quando foi aprovado pelo Senado. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, estava em deslocamento da Ásia para o Brasil e ficou sabendo das ofensas ainda durante o voo.

Logo após a fala de Milei contra Moraes, o presidente do STF ministro Edson Fachin, criticou a postura do presidente argentino. Em nota, disse que “a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”.

Ainda sobre a participação de Milei no evento de Flávio Bolsonaro, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou a PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o pré-candidato. No documento, ele reclama da participação do presidente argentino no evento, alegando que houve um ataque “contra a jurisdição brasileira”.

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