Morcegos são cegos? Cães veem em preto e branco? Saiba como bichos enxergam

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por Folhapress

Ave em contato com biólogo durante manejo em zoológico – Bruno Santos/Folhapress

Nem todo mundo vê as coisas como nós. Para alguns, o mundo pode ter cores diferentes, e ser mais nítido ou embaçado. Entre os animais, o sentido da visão varia bastante e de formas bem curiosas.

Saiba a seguir mais sobre como alguns bichos enxergam o mundo e suas maravilhas.

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Tubarões e raias
Mesmo com aqueles olhinhos pequenininhos quando comparados ao resto do seu corpo, os tubarões e raias usam bastante o sentido da visão nas suas atividades diárias e nas interações sociais.

É por meio dela que esses animais identificam presas, acompanham o movimento de predadores e procuram ambientes mais favoráveis para se esconder ou descansar.

“Além disso, alguns estudos têm mostrado que a visão auxilia os tubarões e raias na hora do namoro e na busca por parceiros de acasalamento”, afirma Bianca Rangel, coordenadora do Projeto Tubarões e Raias de Noronha e pesquisadora bolsista do Instituto de Biociências da USP (IB-USP).

As raias têm visão dicromática ou tricromática, ou seja, elas têm duas ou três classes de células da retina responsáveis por perceber cores e detalhes. “Infelizmente, existem poucos estudos comportamentais de discriminam de cores nestes animais para testar se eles enxergam as mesmas cores que nós”, diz Rangel.

Já os tubarões apresentam visão monocromática, em sua maioria. “Isso não significa que eles enxerguem simplesmente em preto e branco, mas que possuem apenas uma classe de fotorreceptores da retina”, completa a bióloga.

Ao longo de mais de 420 milhões de anos de evolução, tanto os tubarões quanto as raias se adaptaram aos diferentes ambientes que ocupam –praticamente todos os habitats marinhos oceânicos e costeiros, incluindo os rios.

“Tubarões de águas profundas geralmente apresentam olhos relativamente maiores e maior sensibilidade à luz azul, a faixa do espectro que predomina nesses ambientes. Em contrapartida, essa maior sensibilidade pode estar associada a uma menor acuidade visual”, ensina a bióloga.

“Assim como outros tubarões, os tubarões de profundidade também têm o ‘tapetum lucidum’, que é como um pequeno espelho que fica atrás dos olhos e reflete a luz de volta para a retina, dando aos fotorreceptores uma segunda chance de captá-la e melhorando a visão em baixa luminosidade.”

Pássaros

A posição dos olhos das aves é um bom indicativo do seu comportamento na natureza. Olhos que ficam na frente da cabeça, como acontece com gaviões, falcões e corujas, por exemplo, são um sinal de que aquelas aves são caçadoras ativas.

“Elas usam a visão binocular, ou seja, os dois olhos focam o mesmo ponto. Isto reduz o campo de visão total, mas aumenta a noção de profundidade e permite maior eficiência para visualizar suas presas”, diz Pilar L. Maia Braga, bióloga e doutora em ecologia. Os olhos nas laterais da cabeça, por sua vez, presentes na maioria destes animais, garantem uma visão panorâmica de 360 graus.

“Neste caso, a visão é usada de forma monocular, ou seja, cada olho vê algo diferente, o que aumenta o campo de visão, mas diminuem a noção de profundidade”, diz Pilar. Pombos e papagaios, por exemplo, têm os olhinhos assim. Seja o pássaro que for, sua visão será sempre mais complexa que a dos seres humanos.

“As aves têm a capacidade de ver os raios ultravioleta, o que faz com que sua visão seja mais rica em detalhes”, afirma a bióloga. Essa percepção dos raios UV ajuda em muitas coisas, entre elas identificar predadores, encontrar alimentos e perceber as cores das penas das outras aves, o que favorece a comunicação dentro dos bandos e a escolha dos melhores parceiros reprodutivos.

Enquanto os humanos têm só três tipos de células receptoras de cor, a maioria das aves diurnas têm visão tetracromática, ou seja, quatro tipos. “As espécies noturnas, como os bacuraus e corujas, possuem milhões de células bastonetes, que são sensíveis à luz. Nessas espécies, a percepção das cores é sacrificada em função de enxergar formas na escuridão.”

Morcegos

Antes de qualquer coisa, não, os morcegos não são cegos. “Esse é um dos maiores mitos que existem sobre esses animais”, afirma Thaís Alves, consultora ambiental e mestre em biologia animal pela Universidade Federal de Viçosa. Para ela, essa confusão se criou porque muitas espécies de morcegos também usam outra ferramenta poderosa para perceber o ambiente: a ecolocalização.

Também não se pode dizer que os morcegos enxergam da mesma maneira. Alguns têm olhos muito pequenos e usam bastante a ecolocalização para se orientar, e outros têm olhos maiores e uma visão muito boa. “A importância da visão para estes animais vai variar conforme a espécie, e inclusive tem muitas com uma visão muito boa.”

Mas o que é a ecolocalização? Quando os morcegos precisam se mover pelos ambientes, eles emitem sons muito, muito agudos, tão agudos que nós humanos não conseguimos ouvi-los, segundo Thaís.

“Aí esses sons batem em tudo que há ao redor e voltam em forma de eco. O morcego consegue escutar esses ecos e a partir daí ele tem informações do que existe ao seu redor.”

É assim que eles encontram seus alimentos, por exemplo –quer dizer, é assim, mas não só assim.

“Existem algumas espécies que conseguem combinar essas informações visuais e acústicas. Tem um estudo que mostra que alguns morcegos frugívoros egípcios continuam usando a ecolocalização mesmo quando tem luz suficiente para usar a visão. Então, não é necessariamente ou um ou outro sentido.”

Outra curiosidade: os morcegos conseguem acelerar os sons quando precisam de mais informações.

“Quando eles se aproximam de uma presa, eles aumentam bastante a frequência desses sinais que enviam, e assim recebem mais informações mais rapidamente conforme se aproximam. É como se ele fizesse mais perguntas enquanto está chegando mais perto do que vai comer.”

Cachorros

E por falar em mitos, a ideia de que os cachorros enxergam em preto e branco também é enganosa. Eles conseguem ver cores, sim, mas não da mesma maneira que os seres humanos veem.

Os cães têm apenas dois pigmentos na retina, e isso diminui a quantidade de cores que eles podem identificar. Os cientistas não sabem ao certo quais são as cores que eles enxergam (talvez azul e vermelho, talvez azul e amarelo), mas uma certeza eles têm: cachorros não conseguem distinguir verde.

Eles também têm um pouco de dificuldade de detectar os detalhes nos rostos das pessoas, mas são bons com as sombras e os movimentos –tipo a bolinha que você joga para ele brincar.

Mas, como um consolo –e talvez uma forma de compensar as falhas da sua visão–, os cães evoluíram para ser animais com um olfato excelente.

Aranhas

A maioria das aranhas enxerga mal –normalmente, elas só conseguem distinguir claro e escuro. Mas elas dão um jeito de compensar essa dificuldade e contam com outros sentidos para perceber o ambiente, os outros indivíduos e as presas.

É comum para isso usarem recepção química ou vibrações elétricas, por exemplo.

As aranhas da família Deinopidae têm dois olhões bem grandes. “Isso provavelmente contribuiu para elas serem conhecidas como aranha cara-de-ogro”, lembra Guilherme Piva, licenciado em ciências biológicas pelo IF Sudeste MG, e mestre em ecologia pela Universidade Federal de Viçosa.

Essas aranhas possuem a melhor visão noturna entre as aranhas, o que faz todo sentido quando se pensa que elas precisam enxergar muito bem para caçar com precisão.

“Mas as aranhas que se destacam mesmo são as papa-moscas, as aranhas fofinhas da família Salticidae”, diz Guilherme. “Elas têm dois olhos grandes na frente, que são mais sofisticados, e têm córnea e uma retina de quatro camadas, onde as câmaras dois a quatro permitem perceber cores, e a camada um funciona na percepção em alta precisão de forma.”

Em resumo, as papa-moscas conseguem formar imagens e perceber cores. A exatidão da visão dessas aranhas é comparável à da visão de gatos domésticos. “Isso é realmente único entre os invertebrados”, afirma Piva.

Em relação à quantidade de olhos, a ideia de que as aranhas se destacam no mundo animal não é errada. É possível encontrar aranhas com dois, seis ou oito olhos –assim como também existem aranhas com zero olhos, como algumas da família Oonopida.

“Também temos as troglóbias, que são aranhas que vivem dentro de cavernas e têm uma série de adaptações para viver nesse ambiente, que pode ter pouca ou nenhuma entrada de luz. Muitas vezes elas não apresentam olhos, ou apresentam o que a gente chama de olhos vestigiais, que é quando tem uns ‘calombos’ onde era para ter olhos”, diz Paiva.

Uma curiosidade: como o número e a posição dos olhos das aranhas varia muito, essas características são muito usadas pelos cientistas para identificar algumas das principais famílias destes bichinhos.

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