Extrema direita vence eleição histórica na Alemanha, mas terá que negociar maioria

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por Folhapress

Homem de terno escuro e camisa branca segura microfone e está ao lado de mulher sorridente com blazer bege e blusa marrom. Bandeira desfocada nas cores vermelho, amarelo e preto aparece em primeiro plano à esquerda. Fundo escuro destaca os dois no palco.
Ulrich Siegmund, candidato do partido de extrema direita AfD, ao lado da esposa, Julia, comemora resultado da eleição estadual em Magdeburgo (Saxônia-Anhalt), no leste da Alemanha – Ronny Hartmann/AFP

Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial um partido de extrema direita alcançou a maior bancada de um Parlamento na Alemanha. Neste domingo (6), a AfD (Alternativa para a Alemanha), alcançou, segundo projeções, 44% dos votos na eleição estadual de Saxônia-Anhalt, no leste do país.

Ainda que esmagadora, a vitória não garante uma maioria capaz de transformar Ulrich Siegmund em ministro-presidente, cargo equivalente a governador. A Alemanha é uma República Federativa, como o Brasil, composto por 16 estados. O objetivo dependerá, provavelmente, de uma negociação com outros partidos, possibilidade inserida nos discursos do partido desde o fechamento das urnas.

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Alice Weidel, colíder da AfD, não esperou a consolidação dos resultados para declarar que a sigla obteve um “mandato claro”, “que não se limita à Saxônia-Anhalt, estende-se aos outros estados e até ao Bundestag [Parlamento alemão]”, em clara referência às eleições federais de 2029. Reiterou que o partido está disposto a dialogar com as outras legendas, até aqui refratárias em se associar à extrema direita.

“Não trabalhamos com partidos extremistas”, respondeu quase na mesma hora Franziska Hoppermann, secretária-geral da CDU, partido do primeiro-ministro Friedrich Merz, o grande derrotado do dia.

A eleição de Siegmund, que fez uma campanha de contornos populistas baseada no TikTok, resgatando memórias afetivas da ex-Alemanha Oriental, seria a primeira de um extremista de direita desde a era do Partido Nazista, de Adolf Hitler, há quase um século.

“Não importa o que venha a acontecer nas próximas horas, não importa o que aconteça nos próximos dias, estamos no caminho certo”, declarou o candidato antes de cantar o hino alemão, ao lado de seus correligionários.

Segundo os levantamentos, a CDU, do atual governador, Sven Schulze, conquistou 17,5% dos votos, algo como a metade do último pleito no estado, em 2021. A Esquerda (com 8,6%), os Verdes (8,9%) e os sociais-democratas do SPD (9,2%) também alcançaram o Parlamento, segundo as projeções. A BSW, que ventilou formar governo com a AfD, surpreendeu e pode ter superado a cláusula de barreira com 5,1%.

Nesse cenário, o partido de Siegmund teria 39 cadeiras, ficando próximo do objetivo (42), mas dependente de uma negociação de semanas com outras siglas para governar. “Estendemos a mão a todas as forças democráticas que desejam buscar políticas melhores. O que precisamos na política é confiança”, declarou o candidato, reafirmando que a AfD, em uma eventual negociação, não abriria mão de suas principais bandeiras —como imigração, segurança doméstica e uma reaproximação com a Rússia.

A declaração vai de encontro ao Brandmauer (firewall), a prática dos partidos democráticos de não se associar à AfD. Segundo os serviços de inteligência do país, a legenda é “comprovadamente de extrema direita” e tem integrantes investigados por discurso de ódio e neonazismo.

Ainda que parte dos conservadores transpire a ideia de uma coalizão com a AfD, é mais provável que os democratas-cristãos da CDU optem pela formação de um governo de minoria, se tiverem chance. Teriam que contar com o apoio pontual da Esquerda. O arranjo, proibido por resolução da CDU, já existe em outros estados da Alemanha.

“Isso é democracia”, declarou Schulze, da CDU, parabenizando os rivais, em evidente contraste com alguns de seus colegas, que lamentaram o resultado.

A derrota é ainda mais amarga para Merz. Para alguns observadores, a expressiva votação da AfD, de caráter antissistema, reflete a debilidade de seu governo. “É um sinal para Berlim”, afirmou Lars Klingbeil, líder do SPD e vice-premiê. Os sociais-democratas fazem parte do governo Merz.

O dia de votação na Saxônia-Anhalt foi relativamente tranquilo. O número de policiais nas ruas da capital Magdeburgo superava o de manifestantes, em vários dos protestos programados para a jornada. Uma pequena altercação entre militantes da AfD e de movimentos sociais foi testemunhada pela reportagem, assim como a chegada em segundos de dois policiais.

Dois homens de terno apertam as mãos em ambiente interno com cortinas azuis ao fundo. Um deles está de perfil, o outro de frente, ambos com expressão séria. Dois seguranças observam a cena ao fundo.
Sven Schulze (à esq.), atual governador, cumprimenta Ulrich Siegmund, da AfD, antes de entrevista conjunta dos candidatos na TV pública alemã logo após o anúncio dos primeiros resultados da eleição – Annegret Hilse/Reuters

Com um bebê no colo adornado com um adesivo “FCK, AFD”, um funcionário da prefeitura de Magdeburgo acompanhava com a mulher um protesto de movimentos sociais antes do fechamento das urnas. Uma imensa bandeira do arco-íris, símbolo LGBTQIA+ que a AfD promete banir, era estendida na Dom Platz.

“Deviam ter banido esse partido, que é flagrantemente inconstitucional, lá atrás. Quanto maior ele fica, mais difícil vai ser impedi-lo”, disse o servidor, que pediu para não informar o nome devido ao emprego.

“Vão sair fortes disso agora. Se não fizerem o governo agora, daqui a alguns anos vão fazer algum outro ou até mesmo o Bundestag, em Berlim. É preciso começar a chamá-los pelo nome: são uns fascistas.”

O pleito teve forte participação do eleitorado, com 78% de comparecimento. A mobilização, segundo observadores, reflete o esforço da AfD em buscar o voto de indecisos e dos desiludidos com a CDU, até 2021 a principal força no estado.

Criada por economistas em 2013, na esteira da crise do euro, a AfD se notabiliza por ganhar tração com temas controversos e por não ter nenhum pudor de repetir o passado. Surfou na onda anti-imigração, detonada a partir da política de portas abertas de Angela Merkel, de 2015, assim como na contestação de bandeiras associadas à esquerda, como ambientalismo, transição energética e direitos de minorias.

Siegmund é um dos produtos dessa lógica oportunista. Sua presença no partido cresceu durante a pandemia, quando viralizou com críticas às restrições impostas pelo governo.

A AfD replica padrões do populismo europeu, mas destaca-se de seus pares por abdicar, pelo menos até aqui, de qualquer tipo de amenização na prática política ou no discurso.

Defende forte intervenção na educação e na cultura, áreas de atuação estadual, mas também ideias radicais de atribuição federal, como remigração, deportação em massa, proibição de médicos estrangeiros, a volta do marco alemão e a saída da União Europeia.

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