Ex-ministro de Geisel condenado por fraude está entre maiores doadores da campanha de Flávio Bolsonaro
por Folhapress

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem entre seus principais doadores para a campanha à Presidência Ângelo Calmon de Sá, ex-ministro de Indústria e Comércio do governo Ernesto Geisel e banqueiro do Banco Econômico condenado por fraude.
Calmon de Sá, 91, doou R$ 400 mil à Direção Nacional do PL, segundo dados coletados no sistema Divulgacand do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A prática de doar ao partido em vez de diretamente ao candidato, como mostrou a Folha, vem sendo adotada para ocultar o elo eleitoral.
Com a soma, Calmon de Sá é o terceiro maior doador pessoa física da campanha de Flávio. Ele fica atrás apenas das quantias de R$ 500 mil doadas por Fernando de Castro Marques, CEO da União Química Farmacêutica, e por Erasmo Carlos Battistella, dono da Be8, uma das maiores produtoras de biodiesel do país. A maior quantia, de R$ 42 milhões, vem do Fundo Especial do PL.
Engenheiro civil, Calmon de Sá foi presidente do Banco do Brasil durante a gestão Emílio Garrastazu Médici, na ditadura, e integrou a equipe ministerial de Geisel, o quarto mandatário do regime militar, de 1977 a 1979. Segundo o acervo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da FGV (Fundação Getulio Vargas), ele teve como prioridade de mandato o aumento de exportações de produtos manufaturados e agropecuários diante do aumento do preço do petróleo.
Na saída da pasta, Calmon de Sá assumiu a presidência do Banco Econômico, em 1979. Dez anos depois, o BC (Banco Central), que até então não era independente do governo federal, apresentou um relatório que classificava a gestão de Calmon de Sá como temerária.
A seção regional do BC em Salvador havia aberto processos de investigação por conta de empréstimos irregulares a empresas ligadas a diretores do Econômico. No ano seguinte, a equipe de fiscalização do BC recomendou uma intervenção no banco de Calmon de Sá, arquivada pela diretoria do órgão.
Calmon de Sá ficou na presidência do Econômico até ser nomeado pelo presidente Fernando Collor para o Ministério do Desenvolvimento Regional, em abril de 1992. A posse ocorreu logo após as denúncias de Pedro Collor de Melo, irmão de Fernando, sobre a existência do esquema de corrupção que culminaria no impeachment do primeiro presidente eleito após a redemocratização.
No ministério, Calmon de Sá obteve junto ao Banco Econômico, segundo o acervo da FGV, um empréstimo no valor de US$ 600 mil ao grupo empresarial pertencente à família Collor de Melo. “Além disso, fez ampla distribuição de verbas a parlamentares das regiões Norte e Nordeste do país, o que, dadas as circunstâncias políticas, foi considerado uma tentativa de conquistar votos contra a abertura do processo de impeachment”, diz o texto do acervo.
Ele foi exonerado do cargo pelo sucessor de Collor, Itamar Franco, em outubro do mesmo ano. De lá, voltou para o Banco Econômico, onde autorizou empréstimos “vultosos” a empresas que não apresentavam garantias adequadas, como o grupo de engenharia Concic. “Estes deslizes administrativos eram encobertos pelos lucros advindos das aplicações especulativas do banco no mercado inflacionário”, diz o verbete da FGV.
Após a implementação do Plano Real em 1994, que domou a hiperinflação do país, o Econômico deixou de ter lucros, passou a registrar patrimônio negativo e apresentou balanços supostamente maquiados.
Apesar da influência de Calmon de Sá na esfera pública, o BC interveio na instituição em agosto de 1995, e o banqueiro teve seus bens e contas bloqueados.
Foi nessa época que o BC descobriu o escândalo da “pasta rosa”. Segundo registros, o Econômico doou US$ 2,4 milhões para candidaturas das eleições de 1990. A legislação eleitoral proibia doações de empresas jurídicas, e o BC apurou que o Econômico lançava os gastos como pagamento a empresas e a pessoas que forneciam recibos relativos a serviços fictícios. A Polícia Federal considerou a fraude como crime tributário.
No ano seguinte da intervenção, o BC decretou a liquidação do Econômico. Segundo registros, 900 mil clientes tiveram suas contas bloqueadas, 276 agências fecharam as portas e 9.500 funcionários do banco foram demitidos. No início de setembro, os clientes foram autorizados a retirar até R$ 5.000 de suas contas como parte do processo de venda do banco.
A Folha relatou na época que um dos filhos de Calmon de Sá, Francisco de Sá Neto, havia sacado R$ 250 mil; alguns diretores, R$ 800 mil. Cerca de US$ 25 milhões ainda haviam sido transferidos para a Transworld Bank and Trust, empresa sediada nas Ilhas Caiman e controlada pelo Econômico.
Calmon de Sá foi condenado a 13 anos e 4 meses de prisão em regime fechado pela Justiça Federal no dia 3 de outubro de 2007, mais de 12 anos após a intervenção do BC. O juiz responsável pela sentença considerou o banqueiro como o principal estrategista das irregularidades. “Promotor e mandante dos fatos da denúncia, além de destinatário dos recursos ilicitamente captados no exterior e desviados para o banco, em última análise, em seu próprio benefício”, disse o juiz.
Não há registros de cumprimento da pena. A defesa impetrou recursos e pedidos de habeas corpus ao longo dos anos, alegando prescrição de penas e idade avançada. Os espólios do Econômico foram comprados pelo BTG Pactual em 2022, e instituição ganhou o nome de BESA.
A Folha não localizou Calmon de Sá para comentar.
Os maiores doadores da campanha de Flávio Bolsonaro
O senador do PL lidera até o momento a arrecadação de doações eleitorais na disputa pela Presidência da República, com R$ 44,4 milhões em recursos captados.
A maioria, R$ 42 milhões, partiram do Fundo Eleitoral do PL. Além de Calmon de Sá, outros grandes doadores são Fernando de Castros Marques, CEO da União Química Farmacêutica, e Erasmo Carlos Battistella, dono da Be8, que aportaram R$ 500 mil cada.
Walter Schlatter, prefeito de Chapadão do Sul (MS), doou R$ 300 mil à campanha de Flávio. Waldemar Verdi Júnior, presidente do conselho de administração da Rodobens, R$ 180 mil.
Flávio ainda entrou com recursos próprios para a campanha, tendo aportado R$ 12.285, segundo o TSE.


