‘Filha de aluguel’: serviço para acompanhar idosos ganha espaço com envelhecimento da população

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por Folhapress

Mulher jovem de cabelo solto e vestido preto abraça e sorri para mulher idosa de cabelo grisalho preso, que apoia as mãos no rosto com expressão tranquila. Elas estão sob estrutura de madeira com prédios residenciais ao fundo.
Luciana Moulin acompanha uma de suas clientes mais antigas, Darilha Zaniboni Dallorto, 82, numa praça em Jardim Caburi, em Vitória (ES) – Bruno Miranda/Folhapress

A empresária Graziela Benossi, 49, percebeu que os idosos que iam à farmácia dela em São José do Rio Preto, a 440 quilômetros da cidade de São Paulo, não precisavam apenas de remédios. “Eles queriam companhia, alguém que parasse para ouvir”, diz à Folha.

Em 2023, ela vendeu o comércio e criou um serviço para acompanhar idosos em atividades do cotidiano, como consultas médicas, passeios e compras em supermercados —com o nome de “Filha de Aluguel”.

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“Transformei o que eu já fazia naturalmente em uma profissão”, conta. “O meu maior diferencial está na companhia. Eu coloco a música certa, ouço as histórias e percebo quando o idoso está quieto demais. Faço o que um filho gostaria de fazer, mas a rotina não permite.”

O serviço de acompanhantes de idosos deve se tornar cada vez mais comum no país, segundo especialistas, devido à nova configuração do envelhecimento no Brasil.

“As famílias são cada vez menores. Com o aumento da estimativa de vida, muitas dessas pessoas podem estar sozinhas, sem rede de suporte e sem condições de realizar o que precisam”, diz a geriatra Maysa Seabra, da Escola Paulista de Medicina.

Para a psicóloga Valmari Aranha, esse tipo de serviço é uma necessidade para muitas pessoas. Mas isso não significa que ele represente um abandono dos idosos, e sim um complemento ao que é feito pelas famílias, diz ela.

“Essa é uma realidade, principalmente nos grandes centros, onde as pessoas moram distantes. Existe uma dificuldade para as pessoas estarem próximas dos familiares idosos, independentemente do vínculo afetivo que se tenha”, afirma.

A empresária Josiane Martins, 55, sempre foi muito próxima à mãe, por isso percebeu uma dificuldade que acompanhava a matriarca e as amigas idosas dela quando saíam.

“Elas não sabiam mexer em aplicativos, então não conseguiam pegar um transporte pra voltar. Eu tinha que buscá-las, por isso brincava que eu era a ‘neta de aluguel’. No fim, virou um serviço e comecei a acompanhar vários idosos em supermercados, prova de vida ou outras atividades”, diz.

Hoje, ela tem uma empresa focada em cuidados com idosos em Vitória (ES). Além de acompanhantes, também começou a oferecer serviços com cuidadores.

As duas ações têm finalidades diferentes. As atividades de acompanhantes são destinadas a idosos que têm alguma autonomia e sem doenças graves. Já aqueles que têm algum tipo de limitação física ou cognitiva costumam precisar de um cuidador.

Muitos desses “familiares de aluguel” não têm formação na área de saúde, inclusive.

Para a professora Rosa Chubaci, do curso de Gerontologia da USP (Universidade de São Paulo), é importante que as acompanhantes façam algum tipo de treinamento.

“Não é só acompanhar, é preciso também estar atento a várias coisas, principalmente entender que é necessário fazer ações que ajudem o idoso. Por exemplo, prestar atenção na hora de caminhar, ficar atenta às dificuldades dele, às questões de alimentação, o que pode ou não comer, e também saber o que conversar”, afirma. “Se for algo sem preparo, sem o devido cuidado, a pessoa idosa pode correr risco.”

A aposentada Lucimara Camargo, 54, viralizou no Facebook no início de agosto com um post em que oferecia acompanhamento em tarefas como exames de rotina, auxílio com medição, compras ou até mesmo em um café.

“Muitas mulheres do Brasil inteiro me procuraram para saber como funciona esse trabalho, porque elas também pensaram em fazer algo assim, porque precisam ter uma renda. Algumas delas me disseram que já faziam isso para parentes.”

Lucimara afirma que já ajudava pessoas próximas, sem cobrar pelo serviço. “Eu levava elas a médicos, bancos ou lojas. Só que eu me aposentei no ano passado e acabei ficando sem trabalhar. Pensei: por que não fazer isso ganhando algo?”, diz.

Esses serviços têm sido procurados pelos próprios idosos ou por familiares próximos. As diárias não costumam sair por menos de R$ 80.

A publicitária Luciana Moulin, 50, que mora em Vitória, diz que a filha de uma idosa a procurou para acompanhar a mãe.

“Essa mãe havia ficado viúva recentemente e nunca tinha viajado sozinha. Ela foi viajar para visitar a filha. Então eu fui contratada para levar essa idosa ao aeroporto, fazer companhia para um café e fiquei com ela até o embarque”, conta Luciana, que começou a oferecer esse serviço em julho. Antes, trabalhava como motorista de aplicativo para complementar a renda.

Ela diz que a ideia de mudar de profissão surgiu quando começou a escutar relatos de idosos sobre as dificuldades no cotidiano. “Uma mulher me disse que teve que cancelar uma endoscopia porque o patrão do filho não liberou ele.”

“E aí comecei atendendo uma amiga da família. Levo ela ao psicólogo e para fazer exames. Depois, anunciei o meu serviço e apareceram mais clientes”, conta.

Um remédio contra a solidão

O aumento desse tipo de serviço ilustra o isolamento social de idosos, segundo os especialistas. “A solidão abre portas para uma série de outras doenças emocionais e físicas. Se a gente não cuidar da interação social, vamos ter uma série de outras doenças que poderiam ter sido evitadas”, diz a psicóloga Valmari.

“Até bem pouco tempo atrás, você precisava de cuidadores para pessoas que estavam com doenças ou limitações. Hoje, você tem muitas pessoas envelhecendo bem e que precisam de companhia para atividades do dia a dia”, acrescenta ela.

As acompanhantes afirmam que esse serviço não tem a função de substituir o papel das famílias dos idosos, mas pode representar um cuidado importante para eles. “O objetivo é ser a presença, o afeto, a escuta atenta e o tempo de qualidade”, diz Benossi.

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