Viagens, safári e imóveis: relação de Flávio Bolsonaro com advogado investigado na fraude do INSS entra na mira da PF

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por O Globo

Flávio Bolsonaro em viagem à África do Sul com o advogado Willer Tomaz
Flávio Bolsonaro em viagem à África do Sul com o advogado Willer Tomaz

Em março de 2025, nove meses antes de se lançar à corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro embarcou em um voo com destino à África do Sul com familiares e alguns amigos. No roteiro de uma semana, que incluiu um safári, estava acompanhado por Willer Tomaz, advogado investigado sob suspeita de envolvimento no escândalo do INSS, com quem estreitou relações nos últimos anos. Além de viagens, a dupla passou a compartilhar imóveis, jatinhos e parcerias em processos judiciais. A amizade, porém, virou motivo de dor de cabeça para o candidato.

No mês passado, Willer cedeu um apartamento na Vila Nova Conceição, na zona sul de São Paulo, para que Flávio utilizasse durante a campanha. A utilização do imóvel, revelada pela revista Piauí e confirmado pelo GLOBO, foi alvo de questionamento de adversários do senador no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O argumento é que o candidato deveria ter declarado como doação à campanha.

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Além disso, o imóvel se tornou outra fonte de desgaste para o presidenciável por estar vinculado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso sob suspeita de comandar a maior fraude ao sistema financeiro do país. Segundo a Piauí, antes de ser adquirido por Willer, ele pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela Polícia Federal como principal operador do banqueiro.

Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução/ Redes sociais
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução/ Redes sociais

Questionado, Willer diz, em nota, que “jamais manteve” relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. Ele não respondeu sobre o uso do imóvel por Flávio. O senador, por sua vez, não se manifestou.

A conexão de Flávio com Willer, contudo, vai além do uso do apartamento durante a campanha eleitoral e entrou na mira da Polícia Federal, que identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas em conjunto no primeiro semestre do ano passado. Depois da visita à África do Sul, que contou ainda com a companhia do senador Weverton Rocha (PDT-MA), outro alvo de investigações no escândalo no INSS, os dois fizeram visitas a Portugal e França. Antes, já haviam voado juntos para os Estados Unidos.

A identificação das viagens foi possível após a PF vasculhar o celular e a caixa de e-mails de Willer, onde encontrou fotografias, reservas e registros de voos e aluguel de veículos. Os conteúdos foram apreendidos durante buscas no escritório do advogado no mês passado. Em uma das imagens encontrada no celular do advogado por investigadores mostra Flávio, Weverton e Willer acompanhados de crianças, em uma área de savana.

Na pose, o trio aparece com camisetas iguais, estampadas com animais africanos e a inscrição “Big Five”, expressão utilizada no turismo de safári para se referir ao elefante, leão, leopardo, rinoceronte e búfalo. Nas redes sociais, Weverton também publicou fotos comemorando o aniversário da mulher durante a viagem. O grupo retornou ao país uma semana depois.

Escritório de Tomaz faz reserva de carros para viagem com Flávio à Europa — Foto: Arte O Globo
Escritório de Tomaz faz reserva de carros para viagem com Flávio à Europa — Foto: Arte O Globo

Procurado, Flávio disse manter “relação de amizade” com Willer “legítima” e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”. O senador não informou se teve despesas pagas pelo advogado.

Em nota, Willer afirmou que as viagens “são de caráter estritamente privado”, “decorrem de uma relação de amizade pessoal de longa data com o senador Flávio Bolsonaro e sua família” e “foram custeadas com recursos próprios e nada têm a ver com função pública, com contratos ou com qualquer interesse de terceiros”.

Weverton também disse manter relação de proximidade com Willer e não respondeu quando questionado sobre quem pagou sua viagem à África do Sul.

— Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos — disse ele.

Fraude no INSS

Tanto Weverton como Willer entraram na mira da PF em meio às investigações do escândalo do INSS. O advogado foi alvo de uma operação no mês passado, sob suspeita de manter uma estrutura de apoio formada por empresas e operadores financeiros para lavar ou ocultar recursos obtidos por meio de desvios ilegais de aposentadorias. Ele diz que não é investigado por fraudes contra o sistema previdenciário.

De acordo com relatório da PF que embasou buscas e apreensões em seu escritório, em Brasília, Willer atuava como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de envolvidos no suposto esquema de fraudes no INSS. A investigação aponta que o advogado tinha como função dar sustentação ao grupo por meio de “empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos”. Um dos elementos citados na representação policial é o repasse de R$ 11 milhões de empresas relacionadas a Willer para a mulher de Weverton.

O senador também foi alvo de uma operação da PF em dezembro. De acordo com a PF, o parlamentar atuou como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” do grupo que fraudou o INSS. Ele nega ter praticado qualquer irregularidade.

Os investigadores afirmam que o senador era o responsável por indicar beneficiários do suposto esquema, cobrar pagamentos, acompanhar repasses, além de interferir nas decisões patrimoniais do grupo. Familiares de Weverton foram alvo da mesma operação que mirou em Willer. A PF aponta que contas de postos de combustíveis foram utilizadas para lavar recursos desviados.

Portugal e França

Cerca de um mês depois de irem à África, Flávio e Willer embarcaram juntos novamente em abril de 2025, desta vez com destino a Portugal, e retornaram poucos dias depois, também no mesmo voo, segundo registros migratórios identificados pela PF durante a investigação. Weverton não estava presente.

No mês seguinte, em maio, Flávio e Willer partiram mais uma vez para a Europa, desta vez acompanhados das famílias. A viagem incluiu passagens por Portugal e França.

E-mails analisados pela PF mostram que, dias antes do embarque, uma representante da agência de viagens que organizou a ida do grupo à Europa informou a uma funcionária do escritório de Willer sobre a contratação de dois veículos: um para traslado em Lisboa, capital portuguesa, e outro em Nice, no sul da França.

A PF também identificou que, em janeiro de 2025, na véspera da posse de Donald Trump nos Estados Unidos, Flávio, a mulher e as duas filhas embarcaram em um voo em Fort Lauderdale, na Flórida, com destino a Brasília, ao lado de Willer e integrantes da família do advogado. O grupo viajou em um jatinho particular pertencente à Prime You, empresa de aviação executiva que teve entre seus sócios Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.

Vorcaro permaneceu como sócio direto da companhia até setembro de 2025. Willer afirmou que contratou os serviços da empresa como cliente e que desconhecia a participação do banqueiro na sociedade.

A passagem pelos Estados Unidos já havia chamado a atenção por outro episódio. Como revelou o colunista Lauro Jardim, em janeiro de 2025, Flávio e Willer passaram juntos parte do fim de semana anterior à posse de Trump, em 20 de janeiro, no Hard Rock Hotel & Casino, na região de Miami, também na Flórida.

Os dois voltaram aos EUA em maio, quando viajaram juntos para a Flórida em um jatinho emprestado por um empresário para quem Willer advogava, como revelou em abril reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. A viagem ocorreu no feriado do Dia do Trabalho e contou com a presença de Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. Na véspera, Flávio havia feito aniversário de 44 anos.

‘Meu amigo Willer’

A relação entre Flávio e Willer é antiga e antecede as viagens mapeadas pela PF. Conhecido em Brasília pelo trânsito entre políticos de diferentes grupos, o advogado mantém sociedade em seu escritório com Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Rousseff (PT). Segundo pessoas próximas, os dois se aproximaram durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

Uma reportagem da revista Veja de 2021 mostrou que Flávio frequentava uma propriedade de Willer no entorno de Brasília. O local, em Planaltina (DF), a 72 quilômetros do Palácio do Planalto, é conhecido como “Racho Tomaz” e usado pelo advogado para receber políticos com quem mantém relação.

Uma imagem encontrada pela PF durante as investigações da fraude no INSS mostra seis congressistas, de diferentes partidos, reunidos dentro e ao redor de uma piscina na mesma propriedade. A imagem, de um encontro em abril de 2023, foi localizada no celular de Weverton e divulgada pela revista Piauí no mês passado.

Durante a CPI da Covid no Senado, em 2021, Flávio chegou a sair em defesa de Willer após integrantes do colegiado tentarem quebrar o sigilo do advogado. Na ocasião, o senador se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”.

Além da amizade, os dois mantêm uma atividade profissional em conjunto. Levantamento publicado pelo GLOBO em julho mostrou que Flávio atua ao lado de Willer em processos judiciais. Em um deles, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), os dois representam um dos sócios de uma indústria do Rio Grande do Norte em uma disputa empresarial que envolve a execução de R$ 159 milhões.

Casas em Angra

O apartamento em São Paulo utilizado durante a campanha não é o único imóvel de Willer frequentado por Flávio. A lista inclui ainda uma casa na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, na Costa Verde. O advogado adquiriu direitos possessórios sobre a propriedade, que se tornou alvo de uma disputa judicial envolvendo uma empresa ligada ao jogador de futebol Richarlison. Flávio fez diversas visitas ao local a partir de 2020 e foi arrolado como testemunha de Willer no processo.

Outro imóvel de Willer em Angra foi usado pelo senador para comemorar o aniversário de uma das filhas, em fevereiro deste ano, conforme mostrou reportagem do site ICL Notícias. Em nota, o advogado afirmou ter emprestado a casa pela relação de amizade que tem com Flávio, “sem qualquer pagamento, contraprestação ou relação comercial”.

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