Lula propõe cooperação internacional no combate ao crime organizado em discurso na ONU

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“Aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas para o próximo podem reconstruir.” Foi com Martin Luther King que Lula escolheu falar de esperança diante de um mundo atravessado por guerras, violência e intolerância. A frase apareceu perto do fim de seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22/09), em Nova Iorque, mas poderia estar no começo. Ela traduz uma ideia que acompanha a trajetória política do presidente do Brasil, a de que cuidar das pessoas também é uma forma de construir o futuro.

Lula na ONU: as tensões e incertezas que envolvem discurso nas Nações  Unidas - BBC News Brasil

 

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Na ONU, esse cuidado ganhou o nome de segurança. Lula falou de enfrentar as facções, interromper o fluxo de armas e dinheiro que alimenta o crime, proteger comunidades e garantir às mulheres uma vida sem violência, dentro ou fora de casa. E, diante do que a violência interrompe, apontou para aquilo que ainda pode ser reconstruído: a tranquilidade, a liberdade e o direito de voltar a fazer planos para o dia seguinte.

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime” — Presidente Lula.

Ao tratar do crime organizado, Lula partiu de quem sente a violência no cotidiano. “Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência”, afirmou. Para o presidente, enfrentar as facções é responsabilidade do Brasil, mas exige cooperação além das fronteiras. “Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, disse. E apontou onde essa parceria deve agir: “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.”

CERCO – A proposta apresentada por Lula é fechar caminhos. O enfrentamento, segundo Lula, precisa chegar também ao dinheiro que sustenta o crime. O presidente citou a proposta entregue aos Estados Unidos para combater a lavagem de recursos de criminosos brasileiros no exterior e, no país, defendeu maior integração das forças de segurança. “Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está mudando.”

Como exemplo, apontou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne autoridades dos nove países amazônicos. Destacou ainda que, em 2025, o Brasil realizou a maior operação contra o crime organizado de sua história e bateu recordes de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos.

O cerco, afirmou, alcança todos os níveis, “inclusive os magnatas do crime”. Lula também falou sobre a recém-aprovada Lei Antifacção, proposta por seu governo, que prevê para o crime organizado penas superiores às do terrorismo, e relacionou o enfrentamento às facções ao combate à corrupção: “Crime organizado e corrupção andam juntos. […] Ninguém está acima da lei.”

DENTRO DE CASA – Há violências que não atravessam fronteiras internacionais nem dependem das estruturas de uma facção. Algumas atravessam a porta de casa. Ao falar sobre as mulheres, já em outro momento do discurso, Lula ampliou o significado da segurança que havia defendido diante do crime organizado. Se o objetivo é garantir às pessoas o direito de viver sem medo, esse direito precisa existir também no espaço mais íntimo da vida.

O presidente falou de um Brasil em que mulheres não precisem pedir licença para ocupar espaços de poder ou entrar no mercado de trabalho. E colocou o enfrentamento ao feminicídio no horizonte do país que pretende construir. “Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência”, afirmou. Em seguida, transformou o compromisso em um chamado internacional. “Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar.”

Há uma linha que aproxima os dois momentos do discurso. Seja diante de uma organização criminosa que domina uma comunidade, seja diante da violência que ameaça uma mulher dentro de casa, segurança significa devolver às pessoas a liberdade de conduzir a própria vida.

ESPERANÇA – Foi depois de percorrer guerras, crime organizado, desigualdade, mudanças climáticas, tecnologia e direitos que Lula chegou a Martin Luther King. A escolha não foi casual. Ao receber o Nobel da Paz, o líder norte-americano falava sobre a possibilidade de reconstrução. Na ONU, Lula recuperou suas palavras diante de uma instituição que, segundo ele, vive hoje seu momento mais crítico, mas que nasceu justamente da tentativa de construir algo novo depois da destruição. “A ONU nasceu sob o signo da esperança”, afirmou.

Lula lembrou que, ao longo de oito décadas, as Nações Unidas participaram da descolonização, promoveram os direitos humanos, protegeram migrantes e refugiados e condenaram o racismo, o antissemitismo e a intolerância religiosa. Conquistas que, segundo ele, nasceram da indignação de homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como destino, o colonialismo como direito e o apartheid como sistema legítimo. Há esperança justamente nessa recusa.

Martin Luther King dizia que aquilo que alguns destroem outros podem reconstruir. Na voz de Lula, a frase se encontrou com a segurança e com a ideia de que enfrentar a violência também é reconstruir. É recuperar espaços tomados pelo crime, proteger mulheres, devolver tranquilidade às famílias e permitir que as pessoas voltem a viver sem medo. No fim, segurança também é a reconstrução das comunidades, da liberdade e da possibilidade de seguir em frente. O futuro é obra de quem escolhe cuidar do outro.

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