Terras raras, tarifas, agro e IA: entenda o que Trump e Xi negociam e os impactos para o Brasil

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Por Ismael Jales, g1 

Trump e Xi nos Estados Unidos — Foto: REUTERS
Trump e Xi nos Estados Unidos — Foto: REUTERS

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, se reuniram nesta quinta-feira (24), na Casa Branca, em Washington, para discutir os próximos passos da relação entre as duas maiores economias do mundo.

➡️ A pauta incluiu tarifas, terras raras, compras de produtos agrícolas, inteligência artificial, chips, aviação e investimentos, além de questões geopolíticas como Taiwan e Irã.

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Qualquer mudança na relação entre Washington e Pequim pode reverberar no comércio global, afetando preços, cadeias de produção e empresas de diferentes países.

A relação comercial entre Estados Unidos e China passou por uma forte escalada nos últimos anos, com os dois países aumentando tarifas e adotando medidas de retaliação.

Em 2025, as tarifas chegaram a níveis superiores a 100% em alguns produtos, antes que negociações levassem a uma trégua para reduzir a tensão e dar espaço a novos acordos.

A trégua, que tinha prazo até novembro, foi prorrogada agora até 10 de janeiro de 2027. A extensão evita, por enquanto, uma nova escalada tarifária, mas não encerra as disputas entre Washington e Pequim.

Agora, Washington e Pequim ainda precisam avançar em temas como o fornecimento de terras raras, as compras chinesas de produtos agrícolas americanos, a redução de tarifas sobre determinados produtos e as restrições ao comércio de tecnologia.

Para o Brasil, dois setores concentram parte importante dos possíveis efeitos: o agronegócio, principalmente a soja, e a mineração, diante da busca internacional por fornecedores de terras raras fora da China.

Tarifas: uma trégua para ganhar tempo

A guerra comercial entre Estados Unidos e China levou as tarifas dos dois lados para a casa dos três dígitos, antes das reduções negociadas posteriormente.

➡️ Um dos pontos em negociação é a retirada mútua de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em produtos considerados não sensíveis. A lista ainda não foi fechada, mas os dois lados discutem categorias como produtos agrícolas e energia dos EUA, além de bens de consumo e dispositivos médicos chineses.

🚢 A negociação também envolve as taxas portuárias impostas pelos dois países a navios ligados ao outro.

Os EUA criaram cobranças para embarcações chinesas ou construídas na China que atracam em portos americanos, como parte de uma política para pressionar o setor naval chinês.

Pequim respondeu com taxas sobre navios ligados aos EUA. As medidas foram suspensas por um ano no acordo comercial de 2025 e estão entre os pontos que precisam ser resolvidos nas novas negociações.

💰 Para outros países, inclusive o Brasil, mudanças nas rotas de comércio entre as duas maiores economias podem alterar a concorrência por mercados e fornecedores. Isso é especialmente relevante para produtos agrícolas e minerais.

Terras raras: o trunfo da China

As terras raras são um grupo de minerais usados em produtos como motores elétricos, eletrônicos, equipamentos de defesa, turbinas e componentes de alta tecnologia.

A China domina boa parte dessa cadeia e tem usado controles de exportação como instrumento de pressão nas negociações com os Estados Unidos. O país responde por cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, 85% do refino e 90% da produção de ligas e ímãs.

O problema para os americanos não está apenas em encontrar minério. A concentração chinesa também ocorre nas etapas de processamento e fabricação de produtos derivados, o que torna mais difícil substituir rapidamente os fornecedores.

Por isso, Washington busca garantir um fluxo mais previsível de minerais críticos enquanto tenta desenvolver alternativas à cadeia chinesa.

É nesse ponto que o Brasil entra na equação.

O país possui grandes recursos de terras raras, mas ainda tem uma participação pequena na produção e, principalmente, no processamento desses minerais. A tentativa de Estados Unidos e outros países de diversificar fornecedores pode aumentar o interesse por projetos brasileiros e abrir espaço para investimentos no setor.

Nesse cenário, o Brasil também vem ampliando as conversas com outros parceiros para desenvolver o setor de terras raras, segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel.

“O Brasil tem buscado ao longo do ano diversificar parcerias no setor de terras raras, sobretudo com a União Europeia, Austrália e Canadá, justamente para diminuir a dependência e o risco dela com os EUA e a China.”

Agro: a soja está no centro da disputa

A agricultura é outro ponto em que a negociação interessa diretamente ao Brasil.

A China é o maior comprador mundial de soja e compra grandes volumes tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil. Durante a guerra comercial, tarifas chinesas reduziram a competitividade da soja americana e favoreceram os embarques brasileiros.

Agora, Pequim voltou a ampliar as compras dos Estados Unidos.

➡️ Como parte dos acordos anteriores, a China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028. Além disso, assumiu o compromisso de comprar pelo menos US$ 17 bilhões por ano em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos em 2026, 2027 e 2028.

As compras de soja americana já começaram a aumentar. Até 10 de setembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) havia confirmado a venda de quase 10 milhões de toneladas da safra atual para a China.

O movimento não significa que a China deixará de comprar soja brasileira. O mercado chinês é grande o suficiente para absorver volumes dos dois países, e fatores como preço, frete, disponibilidade e período de colheita influenciam a escolha do fornecedor.

Mas uma presença maior da soja americana aumenta a concorrência pelo mercado chinês e pode influenciar a formação dos preços internacionais, inclusive das cotações negociadas em Chicago.

Para o produtor brasileiro, portanto, uma eventual ampliação dos compromissos entre Washington e Pequim pode mudar as condições de disputa por um dos principais mercados do agronegócio nacional.

IA e chips: a disputa pela tecnologia

A tecnologia também está no centro da relação econômica entre os dois países.

Os Estados Unidos tentam limitar o acesso chinês a chips avançados e a tecnologias consideradas estratégicas para o desenvolvimento de inteligência artificial. Pequim, por sua vez, busca reduzir essas restrições e ampliar sua capacidade de desenvolver tecnologia própria.

➡️ Uma das propostas em discussão é a criação de um canal direto entre os dois países para comunicação sobre incidentes graves envolvendo inteligência artificial. A medida teria como objetivo evitar que problemas relacionados ao uso da tecnologia provoquem uma escalada entre Washington e Pequim.

Ao mesmo tempo, as restrições americanas sobre tecnologias avançadas continuam sendo um dos principais pontos de atrito.

A disputa interessa ao restante do mundo porque chips, equipamentos de computação e sistemas de inteligência artificial estão espalhados por cadeias globais de produção. Mudanças nas regras de exportação podem afetar fabricantes, investimentos e fornecedores de tecnologia em outros países.

Boeing, serviços e outros negócios

A agenda econômica também inclui acordos empresariais.

A China se comprometeu a avançar na compra de 200 aeronaves comerciais da Boeing produzidas nos Estados Unidos. Parte desse compromisso começou a avançar, mas a execução do acordo ainda é acompanhada pelos dois governos.

Também estão em discussão serviços financeiros, investimentos e mecanismos para facilitar a relação comercial entre empresas dos dois países.

São temas que mostram que a negociação vai além das tarifas. O objetivo é estabelecer regras para diferentes áreas da relação econômica enquanto os dois países tentam evitar uma nova escalada comercial.

Por que o encontro acontece agora?

A reunião ocorre durante a visita de Estado de Xi aos Estados Unidos, sua primeira ao país desde 2015. O líder chinês também está nos EUA no contexto da agenda da Assembleia Geral da ONU.

Para Roberto Uebel, o momento da visita está mais relacionado à presença de Xi nos Estados Unidos por causa da agenda internacional do que a um cálculo específico ligado às eleições americanas, previstas para daqui a cerca de um mês e meio.

Na avaliação do professor, o encontro também faz parte de uma tentativa de Trump de retomar uma estratégia de “minilateralismo”, baseada na construção de acordos e arranjos bilaterais entre países, em contraste com negociações mais amplas em organismos multilaterais.

Em encontro de rivais, Trump fala em ‘amizade verdadeira’, e Xi Jinping defende política de não confronto

Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping — os dois maiores rivais geopolíticos da atualidade — se reuniram nesta quinta-feira (24) em Washington e sinalizaram que pretendem cooperar para um “futuro comum”.

Xi Jinping reconheceu a rivalidade entre as duas principais potências econômicas mundiais, mas pediu que os dois países evitem um confronto.

“A China e os Estados Unidos devem manter a linha de não conflito e não confronto entre si”, afirmou o líder chinês, recepcionado com pompa por Trump durante a visita de dois dias que faz ao país rival.

Após ser recebido com tapete vermelho em sua chegada aos EUA, na quarta-feira (23), Xi Jinping ganhou uma cerimônia inteira na Casa Branca — protocolo reservado a poucos líderes mundiais.

Acompanhado de Donald Trump e sua esposa, a primeira-dama Melania Trump, Xi passou tropas em revista e assistiu a uma apresentação com direito ao sobrevoo do poderoso “avião invisível” dos EUA, como é chamado o bombardeiro B-2 Spirit, capaz de passar incólume a radares de defesa do mundo inteiro.

Mais tarde, o líder chinês foi homenageado com uma recepção e um jantar oferecidos pelo governo Trump, ambos também na Casa Branca.

Em discurso em cerimônia dentro da Casa Branca, Trump repetiu que mantém “uma verdadeira amizade” com seu rival, “baseada no respeito mútuo e o interesse do nosso povo”.

Já Xi Jinping, que se referiu à relação com o homólogo apenas como uma relação de respeito, falou ter vontade de “se entender melhor” com os EUA e disse que os dois países, embora rivais, devem evitar ao máximo um conflito.

O presidente chinês se disse pronto para, junto de Trump, “conduzir o gigantesco navio das relações sino-americanas” em uma rota firme rumo ao futuro. “Os interesses da China e dos Estados Unidos estão profundamente entrelaçados, e há muito espaço para trabalharmos juntos”.

“A China e os Estados Unidos, como duas grandes nações, assumem a responsabilidade histórica de promover o desenvolvimento e o progresso humanos”, disse Xi.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ouve o discurso do presidente chinês, Xi Jinping, na Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 24 de setembro de 2026 — Foto: Evan Vucci/Reuters
O presidente dos EUA, Donald Trump, ouve o discurso do presidente chinês, Xi Jinping, na Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 24 de setembro de 2026 — Foto: Evan Vucci/Reuters

Sobre a inteligência artificial, que Trump disse que seria o tema central da reunião entre os dois, Xi indicou ter preocupação em regular o avanço da tecnologia — o norte-americano, pelo contrário, tem feito apelos para o avanço rápido da IA nas últimas semanas, com o argumento de não perder a corrida tecnológica para Pequim.

“Temos tanto a capacidade quanto a responsabilidade de desenvolver e gerir a IA para o bem e garantir que o desenvolvimento da IA ​​permaneça sempre sob controle humano e sirva ao bem-estar das pessoas”, disse o líder chinês.

👉 Xi Jinping não falará na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que acontece nesta semana também nos Estados Unidos. Especialistas avaliam que ele prefere tratar diretamente com outros líderes por meio de reuniões bilaterais.

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