Opinião: Por que é uma má ideia seguir o modelo econômico de Milei, inspiração de Flávio Bolsonaro

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por Laura Carvalho, Martin Guzman e Joseph E. Stiglitz*
Dois homens vestidos com ternos escuros estão sentados e seguram um objeto verde, parecendo interagir com ele. O homem à direita sorri enquanto segura o objeto, e o homem à esquerda observa atentamente. O fundo está desfocado com pessoas em roupas amarelas.
Flávio Bolsonaro (dir.) segura uma tesoura ao lado de Javier Milei na convenção do PL, em São Paulo – Nelson Almeida – 25.jul.26/AFP

[RESUMO] O experimento econômico de Javier Milei, assentado em corte de gastos, corrosão de aposentadorias e salários pela inflação e alto endividamento externo, fracassou e nem sequer é replicável no Brasil, sustentam os autores, ao contrário da ideia de modelo para o país defendida pelo campo bolsonarista.

A eleição presidencial brasileira vai ser decidida no segundo turno. Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair Bolsonaro, terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula (PT), mas nenhum obteve a maioria necessária para vencer nessa etapa.

O campo bolsonarista apresenta o programa econômico de Javier Milei como modelo para o Brasil. Isso, no entanto, ignora tanto as circunstâncias que levaram o presidente da Argentina ao poder quanto os resultados alcançados pelas suas políticas.

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Quando os argentinos elegeram Milei, o problema mais urgente do país era a inflação, que chegou a 211% em 2023. A inflação brasileira, em contraste, está em torno de 4,6%, embora os juros extremamente elevados intensifiquem as pressões fiscais.

A prioridade imediata da política econômica do governo Lula é elevar a renda real dos trabalhadores e criar empregos de melhor qualidade, além de reduzir os juros o suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB e abrir espaço para um aumento sustentado do investimento, o que ampliaria a capacidade produtiva e permitiria que o crescimento continuasse ou se acelerasse sem pressionar a inflação.

O que Milei realmente fez? O seu programa econômico se apoiou em três pilares. O primeiro era a eliminação rápida do déficit primário para acabar com o financiamento inflacionário do Tesouro pelo Banco Central. Isso foi alcançado principalmente por meio do corte de gastos com infraestrutura, ciência e universidades públicas e da corrosão, pela inflação, do valor real das aposentadorias e dos salários do setor público. O governo também reduziu os impostos dos mais ricos e ofereceu benefícios fiscais generosos a grandes investimentos, sobretudo no setor de commodities.

A estratégia de Milei de deixar a inflação corroer o valor real dos gastos públicos nem sequer é replicável em um ambiente de inflação baixa como o brasileiro. Além disso, diferentemente da Argentina, a falta de espaço fiscal no Brasil decorre quase inteiramente do custo muito elevado do serviço da dívida, próximo de 9% do PIB, devido aos juros reais nas alturas, não ao resultado primário.

Em seguida, veio a taxa de câmbio, que o governo administrou como a principal arma contra a inflação. Por fim, a promessa de Milei de desmantelar o Estado por meio de corte de gastos e de uma desregulamentação ampla. Como costuma acontecer com Milei, a retórica superou em muito a realidade.

Essas políticas deveriam acabar com a inflação. Milei prometeu que a taxa mensal começaria com zero em meados de 2026, o que significa que ficaria abaixo de 1%. O investimento, por sua vez, deveria disparar e “tornar a Argentina grande de novo”. Esse slogan se apoia no mito nostálgico de que as exportações de grãos e de carne bovina no fim do século 19 teriam transformado o país em uma potência econômica.

O governo Milei, contudo, superestimou a velocidade da queda da inflação e subestimou os danos que as políticas infligiriam à economia e ao mercado de trabalho. A inflação recuou, embora esteja longe de zero: a taxa acumulada em 12 meses é de 33,5% e há dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual a médio prazo.

A queda da inflação foi possibilitada, em parte, por um câmbio mais valorizado, que, por sua vez, depende do financiamento externo, incluindo um novo empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional) obtido sem apoio político amplo. Somando-se o novo empréstimo ao valor recorde tomado do FMI em 2018 e 2019, a Argentina deve hoje US$ 57 bilhões, montante que não vai conseguir pagar no cronograma atual, o que deixará o país dependente do fundo por muitos anos.

A população argentina pagou caro pelo experimento de Milei. Os salários reais caíram quase 8% desde que ele assumiu o cargo, enquanto o desemprego subiu de 5,7% para 7,9%. A informalidade aumentou à medida que trabalhadores desempregados assumiram postos de baixa remuneração no setor de serviços.

A queda da renda real tem deixado um número cada vez maior de famílias com dificuldade para pagar as dívidas. A inadimplência atingiu níveis recordes: 12,8% dos empréstimos bancários às famílias estão em atraso, ante 4,5% um ano antes. Isso equivale a 6 milhões de argentinos —mais de um quarto de todos os tomadores de crédito— e expressa, de longe, o maior nível de aperto financeiro das famílias desde que o Banco Central começou a compilar esses dados.

O consumo e o investimento também estão caindo. O investimento recuou 11,1% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior —um mau presságio para o futuro do país. Com a queda rápida do crédito em termos reais, o setor financeiro está se retraindo. Tudo isso apesar de termos de troca excepcionalmente favoráveis.

Não surpreende, portanto, que a economia tenha começado a encolher. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre em comparação com o primeiro, e a atividade econômica recuou 2,9% em julho em relação ao mês anterior, o que levou o JPMorgan a revisar para baixo a projeção de crescimento deste ano do país. Espera-se uma nova contração do PIB no terceiro trimestre, o que colocaria a Argentina, apesar das promessas de Milei, em recessão técnica.

A fragilidade do modelo Milei ficou exposta em 2025, quando o país sofreu duas corridas contra o peso. Em ambas, o governo precisou ser socorrido. Na primeira, em abril, o FMI entrou em cena com um empréstimo de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões já foram desembolsados. A segunda ocorreu nas semanas que antecederam as eleições legislativas de outubro, quando o Tesouro dos Estados Unidos interveio para sustentar o câmbio.

Sem o socorro externo, o peso teria se desvalorizado e a inflação teria voltado a subir. Essas intervenções tiveram um preço elevado, tanto em novos compromissos financeiros internacionais quanto em política externa. Agora dependente do apoio americano para evitar uma disparada da inflação, a Argentina se tornou, na prática, um Estado cliente dos EUA, que, sob Donald Trump, vêm usando regularmente o seu poder econômico para promover os próprios interesses sem consideração pelo direito ou pelas normas internacionais.

O experimento de Milei fracassou. O seu único êxito parcial, a redução da inflação, teve um custo enorme: o sistema produtivo argentino está mais pobre, os trabalhadores têm menos oportunidades e o setor público, ainda mais endividado com o FMI que quando Milei assumiu o cargo, depende perigosamente de apoio externo para sustentar o peso.

O Brasil não recorre ao FMI desde que quitou integralmente a sua dívida, em 2005. Isso conferiu ao país uma independência econômica considerável, que deve ser preservada e fortalecida.

O Brasil e a Argentina, os dois maiores membros do Mercosul, deveriam ter ambições maiores que as oferecidas pelo modelo de Milei. A eleição presidencial brasileira opõe dois futuros econômicos muito diferentes. Um busca uma economia mais desenvolvida, com uma base produtiva mais diversificada, inovadora e rica. O outro aponta para uma dependência maior de commodities, um mercado interno em retração e a condição de Estado cliente dos EUA.

O que está em jogo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro não é só a democracia brasileira, mas também a prosperidade econômica que o país tanto trabalhou para conquistar.

*Laura Carvalho é professora da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP e pesquisadora associada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). Autora de “Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico”; Martin Guzman é professor da Universidade Columbia e da Universidad Nacional de La Plata. Ex-ministro da Economia da Argentina (2019-2022); Joseph E. Stiglitz é professor da Universidade Columbia e vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2001. Autor, entre outros livros, de “Globalization and Its Discontents”, “Globalização: Como Dar Certo” e “Povo, Poder e Lucro”.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do portal PalavraPB.

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