EUA enviam centenas de soldados à América Latina sob argumento de combate ao narcotráfico

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por The New York Times
Helicóptero militar Black Hawk pintado em verde-oliva está estacionado em pista de concreto. Um operador está posicionado no rotor principal, realizando manutenção ou inspeção. Ao fundo, há vegetação densa e árvores.
Um helicóptero Black Hawk das Forças Armadas dos EUA, durante um exercício na Base Aérea Tenente Octavio Rodríguez Garrido, no Panamá – Martin Bernetti /AFP

Os Estados Unidos estão enviando centenas de soldados do Exército para treinar e realizar exercícios com forças locais na América Latina, enquanto o Pentágono amplia sua campanha de combate ao narcotráfico na região, segundo autoridades militares americanas.

Os primeiros integrantes de um batalhão de 600 soldados da 10ª Divisão de Montanha, sediada em Fort Drum, no estado de Nova York, começaram a ser enviados para uma nova instalação de treinamento na selva no Panamá, disseram as autoridades, que falaram sob condição de anonimato para tratar de questões operacionais.

Os militares acabarão treinando com forças locais na Colômbia e em Honduras e também poderão dar apoio a militares das Forças de Operações Especiais americanas que assessoram forças armadas envolvidas em operações contra acusados de tráfico de drogas, segundo as autoridades.

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Além dos deslocamentos para a América Central e a América do Sul, autoridades afirmaram que várias centenas de soldados da 10ª Divisão de Montanha estariam sendo preparados para ajudar a compor um novo comando de operações no Hemisfério Ocidental, sediado em Miami.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, criou recentemente um escritório no Pentágono para ajudar a supervisionar as atividades militares de combate aos cartéis.

Os deslocamentos e a ampliação do comando, ainda não divulgados anteriormente, somados à recente transferência, pelo Pentágono, de vários drones MQ-9 Reaper da África para a Colômbia e o Equador, marcam a mais recente expansão da luta do Departamento de Defesa contra traficantes na região.

Adam Isacson, diretor de Supervisão da Defesa do Escritório de Washington para a América Latina (Wola, na sigla em inglês), disse não se lembrar de nenhum envio de soldados americanos à região “que sequer tenha chegado perto de 600, exceto em situações excepcionais, como invasões ou desastres naturais”.

As medidas também ocorrem enquanto o governo Trump pressiona líderes de toda a região a intensificar suas ofensivas militares contra grupos do narcotráfico e a permitir operações conjuntas com a Casa Branca.

O principal comandante militar americano responsável pela maior parte da América Latina, general Francis L. Donovan, afirmou que os EUA planejam ampliar as operações, passando de ataques a embarcações para ofensivas terrestres.

Em toda a América Latina, eleitores elegeram recentemente líderes que colocaram o combate a grupos criminosos e o restabelecimento da segurança no topo de suas agendas. Mas a perspectiva de operações americanas em território latino-americano gerou preocupações com a soberania e evocou uma longa e sangrenta história de intervenções americanas na região.

Embora muitos países latino-americanos tenham aderido a uma nova aliança política e militar liderada por Washington para combater grupos criminosos, apenas alguns concordaram oficialmente em permitir operações conjuntas dentro de suas fronteiras, entre eles Colômbia e Honduras. Ambos os países são governados por presidentes recém-eleitos que receberam o apoio de Donald Trump.

Autoridades do Panamá, da Colômbia e de Honduras não responderam de imediato aos pedidos de comentário sobre os planos americanos.

O Comando Sul das Forças Armadas encaminhou ao Pentágono as perguntas sobre os novos deslocamentos. Em nota, o órgão não quis comentar a movimentação, limitando-se a dizer que está comprometido com uma “abordagem de trabalho com aliados e parceiros capacitados para aprofundar a colaboração e manter pressão constante contra redes de ameaças no hemisfério”.

O governo Trump tornou prioridade exercer maior influência na América Latina. O governo formou uma coalizão militar de parceiros regionais, incluindo os EUA, que prometeu ajudar a desmantelar cartéis. O slogan oficial do grupo é: “Fazemos coisas ruins a pessoas ruins”.

No início desta semana, o general Joseph A. Ryan, chefe do Comando do Hemisfério Ocidental do Exército, descreveu os grandes desafios das Forças Armadas em seu retorno a uma região que, durante décadas, não esteve em foco. Trata-se de uma parte do mundo onde a China exerce influência econômica crescente e onde os cartéis construíram sofisticadas redes globais para vender seus produtos ilícitos, afirmou.

“Cedemos o domínio econômico da região a um adversário, e isso é um fato”, afirmou Ryan durante a conferência anual da Associação do Exército dos EUA, em Washington. “Agora estamos lutando para retomar terreno —marítimo e terrestre, terreno humano, terreno cognitivo— que, em muitos casos, abandonamos anteriormente.”

O Comando Sul americano reforçou treinamentos e exercícios com forças armadas da região para enfrentar as ameaças mais urgentes representadas pelos cartéis, disse Ryan.

O envio de soldados está alinhado ao novo foco do governo, disseram autoridades a par do assunto. Os militares irão primeiro para o Panamá, onde participarão de exercícios de treinamento na selva. De lá, seguirão para a Colômbia, onde participarão do “Southern Vanguard”, um exercício militar previsto para começar ainda neste mês. Outros contingentes seguirão para Honduras para treinar com parceiros locais.

Parte dos soldados poderá ser empregada para reforçar a segurança dos helicópteros americanos na região, que vêm dando apoio às Forças de Operações Especiais. Os militares da 10ª Divisão de Montanha também poderão ser mobilizados caso as Forças de Operações Especiais enfrentem dificuldades, disseram as autoridades.

Os contingentes serão temporários, mas poderão se tornar uma presença mais permanente das Forças Armadas americanas na região.

Enquanto Hegseth pressiona o Comando Sul dos EUA a adotar uma postura mais agressiva na região, alguns militares de alto escalão manifestaram preocupação com o fato de que ele e outros líderes do governo Trump não tenham definido um objetivo claro para a operação.

Se grupos armados atacarem soldados americanos, o governo poderá se sentir obrigado a intensificar a ação. Já sobrecarregadas pela guerra no Irã e por compromissos na Europa e na Ásia, as forças americanas poderiam acabar arrastadas mais profundamente para um conflito em outra parte do mundo, sem um plano claro de saída, disse uma autoridade.

Em agosto, o Comando Sul das Forças Armadas anunciou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, estabelecendo a infraestrutura para ampliar sua guerra às drogas em cooperação com aliados regionais.

A força-tarefa, liderada pelo major-general Kevin J. Jarrard, do Corpo de Fuzileiros Navais, dá continuidade a uma campanha de um ano do Pentágono no Caribe e no Pacífico Oriental, onde os militares realizaram 71 ataques contra embarcações, matando ao menos 239 pessoas que, segundo afirmam —sem apresentar provas—, traficavam drogas.

Especialistas afirmam que os ataques tiveram pouco efeito sobre a disponibilidade de cocaína nos EUA.

Juristas alertaram que os bombardeios são ilegais, porque os militares não podem ter civis como alvos deliberados se eles não estiverem participando diretamente das hostilidades, ainda que estejam infringindo a lei. Segundo eles, o tráfico não atinge o patamar necessário para ser considerado uma hostilidade.

Levar os ataques para o interior também gera preocupações com vítimas civis. Os atuais ataques contra embarcações ocorrem longe de qualquer costa, principalmente em águas internacionais. Ataques em terra criam a possibilidade de atingir acidentalmente infraestruturas civis, como escolas ou estradas, colocando muito mais vidas em risco.

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