Trabalho infantil no Brasil volta a cair em 2025 e é o menor já registrado

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por O Globo

Trabalho infantil de todas as formas é proibido até 13 anos. Entre 14 e 17 anos, adolescentes podem trabalhar seguindo parâmetros específicos de acordo com idade
Trabalho infantil de todas as formas é proibido até 13 anos. Entre 14 e 17 anos, adolescentes podem trabalhar seguindo parâmetros específicos de acordo com idade

O número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil no Brasil voltou a cair em 2025, após uma alta no ano anterior, e atingiu o menor patamar da série histórica, iniciada em 2016. No ano passado, eram 1,499 milhão de pessoas nessa condição, uma queda de 9,2% em relação a 2024.

A redução foi concentrada em lares que recebiam Bolsa Família. Da queda de 151 mil pessoas no trabalho infantil, 144 mil correspondiam a moradores de domicílios beneficiados pelo programa — mais de 95% da redução nacional. O recuo também ocorre em meio ao aquecimento do mercado de trabalho, com a taxa de desemprego em mínimas históricas.

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Os dados são da pesquisa Pnad Contínua: Trabalho de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos (2025), divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE. Em 2024, o contingente no trabalho infantil havia crescido 2,1%, passando de 1,616 milhão para 1,650 milhão.

Trabalho infantil cai no Brasil e chega ao menor nível da série — Foto: Arte O Globo
Trabalho infantil cai no Brasil e chega ao menor nível da série — Foto: Arte O Globo

Com o recuo em 2025, o percentual de crianças e adolescentes que trabalhavam era de 4%, também o menor patamar da série.

Pela legislação brasileira, trabalho infantil é proibido. Enquadra-se nessa situação toda forma de trabalho feita por crianças e adolescentes que é prejudicial à sua saúde e educação. Mas há regras específicas para cada faixa etária:

  • Até 13 anos é proibido trabalhar em qualquer atividade;
  • de 14 a 15 anos, os adolescentes podem trabalhar como aprendiz. Isso não é considerado trabalho infantil;
  • de 16 e 17 anos, é permitido o trabalho apenas com carteira assinada.

Dos 14 aos 17 anos são proibidas atividades irregulares, perigosas e em horário noturno. Essas são consideradas como trabalho infantil.

Para o analista da pesquisa Gustavo Geaquinto Fontes, a redução do trabalho infantil pode estar associada a uma combinação de melhora nas condições econômicas das famílias e políticas públicas. Ele cita o aquecimento do mercado de trabalho e os programas de garantia de renda como possíveis fatores.

— A renda domiciliar per capita em 2025 aumentou, a renda do trabalho aumentou. Então, isso pode também ter contribuído para a queda do trabalho infantil. E existem políticas públicas voltadas especificamente para isso. O Bolsa Família, que garante uma renda mínima para famílias de renda mais baixa. Então, pode ser uma soma de fatores.

Emprego formal e políticas de proteção ajudam a explicar queda

Especialistas avaliam que a queda do trabalho infantil reflete uma combinação de melhora do mercado de trabalho e políticas de proteção. Janaína Feijó, pesquisadora de Economia Aplicada do FGV Ibre, destaca que as quedas do desemprego observadas em 2025 vieram acompanhadas de maior participação do emprego formal.

— No Caged, a maior massa de vínculos formais gerados é de jovens de até 24 anos. Então, se a gente pegar a parcela que seria até os 18 anos, de jovens que entram no mercado de trabalho através do programa Jovem Aprendiz, isso acaba fazendo com que essa taxa (de trabalho infantil) recue. Porque ele continua desenvolvendo uma atividade, mas ela agora é considerada formal e não entra para a conta do trabalho infantil.

Ela também fala da importância de programas como o Bolsa Família, que traz um reforço para a renda e pode ajudar a reduzir a pressão para que adolescentes comecem a trabalhar desde cedo, além do Acredita no Primeiro Passo, criado pelo Governo Federal para promover ações de inclusão produtiva a famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).

Já Luísa Carvalho Rodrigues, procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional da Coordinfância, do Ministério Público do Trabalho (MPT), acrescenta que a redução deve ser analisada como resultado de uma junção de medidas construídas ao longo dos últimos anos, como a proteção social, o fortalecimento da fiscalização, um maior financiamento das ações estratégicas e uma expansão da aprendizagem profissional.

Ela cita a retomada, em 2025, do cofinanciamento federal das ações do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, que havia sido interrompido em 2019, e o restabelecimento da participação da sociedade civil e do sistema de Justiça na Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil.

— Por trás do número tem crianças e adolescentes, que não são só o futuro do país, eles são o presente. Eles estão sendo crianças e adolescentes agora, ou deveriam estar sendo, mas muitas vezes não estão podendo ser. É um momento de certa forma de alegria, de ver que temos tido resultados positivos, mas também um momento de mobilização, porque temos que fazer mais. Ainda não é suficiente.

Faltam avanços na fiscalização e aprendizagem

Para sustentar a queda, Janaína defende maior fiscalização do trabalho realizado por menores de 14 anos e uma atuação mais próxima das escolas na orientação dos adolescentes sobre oportunidades de aprendizagem. Segundo ela, a dificuldade de encontrar empresas e conhecer os caminhos de contratação ainda limita o acesso ao trabalho protegido.

— A gente sabe que hoje, para conseguir o emprego, você precisa ter contato e conhecimento. No momento em que a escola viabiliza palestras, workshops para ensinar esse jovem a trabalhar de uma forma mais segura, sem comprometer o seu desempenho escolar, tendo uma carga de aprendizagem, isso vai fazer com que mais jovens entrem no mercado de trabalho da forma correta.

Luísa também defende ampliar a aprendizagem, com prioridade para adolescentes retirados do trabalho infantil, além de pensar na permanência na escola, na ampliação da educação em tempo integral e em respostas à exploração de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Para ela, também é necessário melhorar a estrutura e a capacitação de conselhos tutelares e serviços de assistência social.

— Quando a gente fala de criança e adolescente, a gente fala de um sistema de garantia dos direitos, de uma rede de proteção que envolve diferentes órgãos. Para tudo funcionar, todos têm que estar bem estruturados, bem equipados e atuando de maneira conjunta e articulada. Isso não é simples e é algo que demanda uma atenção contínua.

A procuradora ressalta ainda que a pesquisa domiciliar não mostra toda a dimensão do problema. Ela aponta a necessidade de diagnósticos específicos sobre exploração sexual e utilização de crianças e adolescentes no tráfico de drogas, além de maior alcance sobre pessoas em situação de ruas, que não são contempladas na Pnad.

— A pesquisa é realizada em domicílios, como o próprio nome diz, então ela não vai alcançar crianças e adolescentes que estão em situação de rua. Ela também não abrange dados como a exploração sexual de crianças e adolescentes. Então, é só uma ponta do iceberg, não nos dá a visão completa do problema. A gente precisa de mais diagnósticos e mais dados.

Lula fala em erradicação, Flávio não menciona em plano

Apesar do número ainda elevado de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que disputam o segundo turno da eleição presidencial, não apresentam propostas detalhadas para enfrentar o problema.

O programa de Lula prevê o fortalecimento das políticas de erradicação do trabalho infantil “em todas as suas formas e espaços de ocorrência”, incluindo os meios rural e urbano e as plataformas digitais, mas não especifica como isso será feito. Já o plano de Flávio não menciona o tema.

Adolescentes, meninos e negros

Os adolescentes de 16 e 17 anos representavam 58,1% das pessoas em situação de trabalho infantil em 2025, o equivalente a 871 mil. Outros 23,2% tinham 14 ou 15 anos, e 18,7% estavam na faixa de 5 a 13 anos.

O perfil do trabalho infantil — Foto: Arte O Globo
O perfil do trabalho infantil — Foto: Arte O Globo

Já considerando o total da população de cada faixa etária, a proporção de pessoas nessa condição aumenta com a idade. O trabalho infantil atingia em 2025:

  • 1,1% de todas as crianças de 5 a 13 anos;
  • 5,9% dos adolescentes de 14 e 15 anos;
  • 14,5% daqueles de 16 e 17 anos.

Nos três grupos, os percentuais foram os menores da série histórica.

Mais da metade (65,4%) do contingente em trabalho infantil eram meninos, em um total de 980 mil. Esse número caiu 10% na comparação com 2024, quando 1,089 milhão de meninos se encontravam nessa situação. Entre as meninas, o número saiu de 561 mil para 519 mil.

As crianças e adolescentes pretos ou pardos representavam 67% das pessoas em situação de trabalho infantil ante 32% de brancos. Esse percentual fica inclusive acima da participação dos negros no total da população de 5 a 17 anos, que é de 59,7%.

Frequência escolar menor

A frequência escolar era de 86,9% entre as crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, abaixo dos 97,5% registrados no conjunto da população de 5 a 17 anos.

Quanto à jornada, 21,4% dos trabalhadores infantis dedicavam 40 horas ou mais por semana a essas atividades, enquanto 38,2% trabalhavam até 14 horas. As jornadas mais extensas eram mais frequentes entre os adolescentes de 16 e 17 anos: 29,6% deles trabalhavam pelo menos 40 horas semanais.

Nessa mesma faixa etária, a informalidade atingia 67% dos que exerciam atividades econômicas, o equivalente a 705 mil adolescentes. A taxa foi a menor da série histórica, abaixo dos 69,4% registrados em 2024.

Norte tem maior proporção

O Sudeste reunia o maior número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil, seguido pelo Nordeste, com 408 mil. No Norte, eram 249 mil; no Sul, 233 mil; e no Centro-Oeste, 128 mil.

Em termos proporcionais, porém, o Norte tinha o maior percentual: 6,3% da população de 5 a 17 anos estava nessa condição. O Sudeste registrava o menor, de 3,3%.

Para identificar o trabalho infantil, o IBGE considera critérios como idade, atividade exercida, jornada, frequência escolar, trabalho perigoso e informalidade. Assim, nem toda atividade realizada por crianças e adolescentes é classificada nessa condição.

Em 2025, 1,808 milhão de pessoas de 5 a 17 anos exerciam atividades econômicas ou produziam para o próprio consumo, das quais 1,499 milhão foram enquadradas em trabalho infantil.

Os resultados são classificados pelo instituto como estatísticas experimentais, ainda em avaliação quanto a aspectos como metodologia, cobertura e harmonização.

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