A dificuldade de encontrar pastores de ovelhas

Aos 58 anos, Rogers tentou vários trabalhos. Cresceu em Hayden, no Colorado, onde seu pai possuía uma pequena fazenda e criava gado e ovelhas. Serviu no exército por 12 anos e fez uma turnê no Panamá antes de se juntar à Guarda Nacional. Além de pastorear gado e….

Floresta Nacional Dixie, Utah – “O objetivo é mantê-los pastando. Eles se empanturram e engordam”, disse Scott Stubbs ao olhar para os 1.470 cordeiros e ovelhas mastigando dente-de-leão, trevo e gramíneas em Castle Valley.

Stubbs, criador de ovelhas de quinta geração no sul de Utah, não esperava dar um curso prático de pastoreio este ano, mas não teve saída. Precisava de um segundo pastor experiente, e aquele que deveria chegar do Peru não conseguiu a aprovação do visto agrícola especial. Agora, atrasos em alguns departamentos de passaportes estrangeiros e em consulados americanos – agravados pela pandemia – estavam adiando uma substituição.

Foi por isso que em junho Stubbs contratou Duane Rogers, tipo de trabalhador mais raro do que um cordeiro azul nestas bandas: americano iniciante que estava ansioso para pastorear ovelhas.

A escassez de mão de obra se tornou comum este ano, especialmente em Utah, onde a taxa de desemprego é de 2,7 por cento. O Marriott em Cedar City não tinha camareiras suficientes para garantir a limpeza diária, e o restaurante Denny, nos arredores de Beaver, tinha uma placa na porta pedindo aos clientes que fossem pacientes com a equipe reduzida. Mas a situação que Stubbs e fazendeiros como ele estão enfrentando é mais duradoura e mais severa.

“Ninguém quer esse tipo de trabalho”, afirmou Stubbs sobre o pastoreio e o trabalho agrícola. E grande parte dos americanos não o quer há algum tempo – pelo menos com os salários que a maioria dos agricultores diz poder pagar. É por isso que mais de 200 mil trabalhadores temporários estrangeiros, a maioria do México, foram autorizados a entrar nos Estados Unidos no ano passado para colher cereja, tomate e tabaco ou para cuidar da pecuária. O número de vistos emitidos mais do que triplicou desde 2011 e aumentou em 2020, apesar da pandemia, depois que trabalhadores da área agrícola e de alimentação foram designados como parte da força de trabalho essencial.

Duane Rogers brinca com alguns de seus cães enquanto pastoreia ovelhas na Floresta Nacional Dixie, Utah, 15 de julho de 2021. (Juan Arredondo/The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group Duane Rogers brinca com alguns de seus cães enquanto pastoreia ovelhas na Floresta Nacional Dixie, Utah, 15 de julho de 2021. (Juan Arredondo/The New York Times)

Stubbs, de 54 anos, começou a usar o programa de vistos agrícolas, conhecido como H-2A, há oito anos. Por intermédio de uma agência, contratou um peruano, Ronal Leon Parejas, que ainda está com ele.

Stubs disse que antes disso, além de membros da família ou adolescentes ocasionais que trabalhavam por algumas semanas, as únicas pessoas nos últimos anos dispostas a pastorear ovelhas eram nativos americanos ou imigrantes ilegais no país. Este ano, o pastor navajo que trabalhava para ele precisou de uma operação no joelho. Com 68 anos, ele provavelmente não voltaria. “Você reúne um pequeno rebanho, mas não consegue contratar mão de obra. Está difícil”, comentou Stubbs, cujos animais produzem lã e carne.

Stubbs, que tinha cerca de seis anos quando seu avô o ensinou a conduzir um rebanho do prado para o riacho na floresta federal onde sua família tem direitos de pastagem desde 1800, sabe que é um trabalho difícil e solitário. Ele estava no oitavo ano quando enfrentou o primeiro mês de pastoreio solitário. “Achei que fosse morrer. Perdi 30 quilos em 30 dias”, contou, mesmo com sua mãe vindo de sua fazenda a cerca de 30 quilômetros de distância todos os dias para vê-lo.

Um pastor tem de ficar ao ar livre com as ovelhas 24 horas por dia durante o período de aproximadamente dez meses, ao sol e à chuva, sob granizo e neve, quer as temperaturas cheguem a 38 ºC ou caiam bem abaixo de zero. O dia de trabalho começa ao nascer do sol e termina ao pôr do sol, embora possa haver noites em que seja preciso ajudar os cães a espantar um coiote ou um leão da montanha. Não há folga nos fins de semana nem nos feriados.

O programa H-2A tem sido criticado pelos baixos salários e pela falta de proteção aos trabalhadores. Para aqueles que participam desse programa de vistos, o salário é definido pelo governo, e tem aumentado nos últimos anos. Em Utah, são US$ 1.728 por mês mais transporte, hospedagem e alimentação. Nesse caso, o quarto é um galpão de ovelhas de quatro metros por dois metros com uma cama, um fogão a lenha, uma churrasqueira a gás e um refrigerador. Stubbs entrega os alimentos solicitados – ovos, bacon, frios, pão, batata frita, biscoitos, refrigerante e latas de pimenta e milho – a cada poucos dias, além de água.

E esse foi o acordo que Rogers aceitou há três semanas. “Estou grato por Scott ter me dado uma chance”, disse ele.

Rogers vestiu suas luvas de couro. “Adoro estar nas montanhas, e não me importo de ficar sozinho.” Sua esposa, que conheceu há alguns anos no Western Match, serviço de encontros on-line para caubóis e “pessoas do campo”, vive no sul do Texas com um enteado e duas enteadas. Ele chegou a Utah com cinco cachorros e a sela velha do pai.

Aos 58 anos, Rogers tentou vários trabalhos. Cresceu em Hayden, no Colorado, onde seu pai possuía uma pequena fazenda e criava gado e ovelhas. Serviu no exército por 12 anos e fez uma turnê no Panamá antes de se juntar à Guarda Nacional. Além de pastorear gado e ajudar em serviços de fazendas, foi caminhoneiro, trabalhou na manutenção de rodovias, na construção civil, retirou neve das ruas e foi guarda de mulheres e crianças que haviam sido presas na fronteira e levadas para centros de detenção – trabalho que ele afirmou ter odiado por causa das condições.

Rogers contou que, durante uma longa reabilitação depois de um acidente de caminhão em 2017, passou muito tempo pensando no que queria fazer. Já havia cuidado de pequenos rebanhos de ovelhas em áreas fechadas, mas a ideia de trabalhar com um grande rebanho a céu aberto sempre o atraiu. Era fascinado pela vida nômade, tinha assistido a dezenas de documentários sobre o assunto e queria treinar seus cães para pastorear ovelhas.

Ele estava desempregado quando viu o anúncio no site de empregos do estado e se candidatou. “Eu gosto de gado, mas as ovelhas são muito mais divertidas e muito mais inteligentes do que as pessoas pensam”, afirmou.

As ovelhas promoviam uma sinfonia de balidos guturais pontuada com o som oco dos sinos pendurados no pescoço enquanto Rogers e os cães as direcionavam para um veio de água ao meio-dia. Enquanto ovelhas e cordeiros iam andando, chutavam enxames de gafanhotos que podem devorar uma plantação mais rapidamente que qualquer rebanho. Essa é uma das várias dificuldades que prejudicam os agricultores ocidentais nesta temporada, além do calor extremo e de uma seca prolongada que estão encolhendo as colheitas e matando pastos.

A demora na contratação de um segundo pastor proporcionou a Stubbs outro desafio. Como não havia ninguém que levasse as ovelhas para pastar, foi preciso mantê-las na fazenda, alimentando-as com fardos de feno que poderiam ter sido vendidos.

Nas últimas semanas, seu filho Marty tem ajudado a treinar Rogers no pastoreio, e por isso não tem ajudado seu pai com o trabalho na fazenda nem tem cuidado das próprias ovelhas. Stubbs contou que houve muitos dias em que ele e sua filha adolescente acabaram trabalhando até meia-noite.

Parejas, de 32 anos, não consegue voltar para sua pequena fazenda no Peru e para seu filho de quatro anos desde fevereiro de 2020, antes do início da pandemia. Ele espera ir em dezembro, quando a temporada terminar, desde que isso não interfira em seus esforços para obter um green card – prêmio que lhe permitiria trabalhar e viver nos Estados Unidos sem restrições. “É muito difícil e muito solitário. Sinto falta da minha família”, disse ele com a ajuda de um tradutor.

Agora, está tentando ajudar seu sobrinho a obter um visto H-2A para que também possa trabalhar para Stubbs. Parejas comentou que provavelmente poderia ganhar o mesmo, ou mais, no Peru, mas que conseguir um emprego em casa para pagar suas dívidas pode ser difícil e que o trabalho aqui garante um salário confiável.

Rogers também aprecia o salário confiável e o fato de não ter despesas durante a temporada, podendo poupar tudo que recebe. Ele espera poder começar a pagar uma grande dívida.

Mesmo assim, afirma que os ganhos são secundários para ele. “Dinheiro não é tudo, viver é tudo. O que você deixa é sua história, e a minha é uma boa história para contar aos meus netos.”

c. 2021 The New York Times Company

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