Chacina do Rangel: 15 anos depois, depoimentos relembram assassinato ‘brutal’ de pai, mãe grávida e três crianças na PB

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Casa onde ocorreu há 15 anos na casa de número 100 da rua Oswaldo Lemos — Foto: TV Cabo Branco

“Um assassinato por si só é deplorável, condenável. Mas um crime que acaba com toda uma família e em que se dá 24 foiçadas na cabeça de uma criança de três anos é, sem dúvida, uma agressão brutal”, relata o juiz Marcos William, que presidiu o julgamento dos acusados da chacina que ocorreu há 15 anos na casa de número 100 da rua Oswaldo Lemos, no bairro do Rangel, em João Pessoa.

No episódio que ficou conhecido como “Chacina do Rangel”, toda uma família foi destruída: o pai, Moisés Soares Filho; a mãe, Divanise Lima dos Santos, grávida de gêmeos, de 35 anos; e as crianças Rayssa dos Santos, de 2 anos; Ray dos Santos, de 4 anos; e Raquel dos Santos Soares, de 10 anos. Todos sofreram golpes que marcaram suas vidas.

Outros dois filhos do casal sobreviveram à chacina. Um menino de 7 anos foi levado para o Hospital de Emergência e Trauma em estado grave com cortes no rosto, pescoço e nuca, mas conseguiu sobreviver. Outro menino, de 14 anos, se escondeu embaixo da cama e foi peça chave para ajudar a prender os responsáveis pelo crime.

De posse de um facão, Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira invadiu a residência e desferiram golpes contra membros da família. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
De posse de um facão, Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira invadiu a residência e desferiram golpes contra membros da família. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco

A Chacina do Rangel

Na noite do dia 9 de julho de 2009, a residência do casal foi invadida por Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira, vizinhos que resolveram se vingar do casal por conta de uma discussão entre os filhos deles.

O policial militar Gilson José Barbosa, que hoje é lotado no Corpo de Bombeiros, relata em detalhes o momento em que chegou à casa onde ocorreu a chacina. “Em 19 anos de carreira, nunca vi uma cena tão triste como aquela. A mulher agonizando em cima da cama, pedindo socorro, toda cortada, e as criancinhas mortas”, relembra. Por conta dos gritos de agonia da mulher, os vizinhos acionaram a Polícia Militar.

Policial militar Gilson José Barbosa, hoje lotado no Corpo de Bombeiros, ainda lembra do momento em que entrou na residência e primeiras impressões sobre o crime. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
Policial militar Gilson José Barbosa, hoje lotado no Corpo de Bombeiros, ainda lembra do momento em que entrou na residência e primeiras impressões sobre o crime. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco

O relato do adolescente de 14 anos, que durante a invasão da casa se escondeu debaixo da cama e acompanhou o assassinato do pai, da mãe grávida e de mais três irmãos, além da tentativa contra o irmão de 7 anos, foi fundamental para a condenação dos assassinos.

De acordo com o juiz Marcos William, para preservar o menino, que já estava muito traumatizado, ele recorreu a uma forma lúdica de colher o seu depoimento, durante o júri:

Disse a ele que ali todos eram Batmans e chamei essa criança para brincar com a gente. Como todos nós estávamos togados, todos de preto, realmente para ele fazia sentido. Em meio à conversa, de vez em quando eu fazia uma pergunta sobre aquela noite e ele dizia como tinha sido”, contou.

Sob a presidência do juiz Marcos William, foram redigidas e calculadas as penas do casal autor do crime — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
Sob a presidência do juiz Marcos William, foram redigidas e calculadas as penas do casal autor do crime — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco

Segundo o relato do menino, o casal entrou na casa pela porta da frente, executou a primeira criança na sala com diversos golpes de instrumentos contundentes, e, em seguida, foi para o quarto dos pais, onde golpeou a mãe, o pai e as outras crianças. “Foi ele, foi ele quem matou minha família, ele mora ali”, dizia o adolescente sobrevivente ao policial militar, apontando para a casa dos acusados.

O promotor do caso na época, José Guilherme Lemos, ainda hoje se assusta com a crueldade do crime. “A intenção homicida deles é inequívoca pela forma como os crimes foram praticados, principalmente porque todos os golpes foram praticados em regiões vitais do corpo“, detalha.

O casal Carlos José e Edileuza foi levado a julgamento nos dias 16 e 17 de setembro de 2010. Carlos foi condenado a 116 anos e Edileuza a prisão por 120 anos de reclusão. Ambos seguem presos.

Carlos José e Edileuza, durante julgamento do caso da chacina do Rangel em João Pessoa, em 2010 — Foto: Francisco França/G1/Arquivo
Carlos José e Edileuza, durante julgamento do caso da chacina do Rangel em João Pessoa, em 2010 — Foto: Francisco França/G1/Arquivo

Carlos José já cumpriu 15 anos da pena e, há pelo menos 13 anos, trabalha na cozinha do presídio de segurança máxima PB1 e tem bom comportamento. Como na época da condenação dele a lei previa que o tempo máximo de prisão no Brasil era de 30 anos, a soltura dele deve acontecer em maio de 2038.

Edileuza também segue presa e cumpriu 15 anos da pena, no presídio feminino Júlia Maranhão, em João Pessoa. A soltura deve acontecer em janeiro de 2039.

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