Hidrocolonterapia: procedimento para ‘tirar cocô velho’ que Adriana Sant’Anna fez é contraindicado por médicos; entenda
Influencer Adriana Sant'Anna faz hidrocolonterapia e mostra procedimento para 'tirar cocô velho' — Foto: Reprodução/ Redes sociais
Por Camila Quaresma *
A hidrocolonterapia promete tirar restos de fezes acumulados no intestino humano e promover diversos benefícios. A técnica, que já foi alvo de críticas de especialistas, voltou a ser motivo de debate nas redes sociais depois de uma publicação da influencer e ex-BBB Adriana Sant’Anna, que mostrou em vídeo uma sessão na qual ela se submete ao procedimento.
“Uma das 7 maravilhas do mundo!!”, escreveu Adriana no post em uma rede social. No começo da gravação, ela mostra a barriga inchada e, depois, o abdômen menor.
No entanto, o procedimento é contraindicado por médicos. Ele, em geral, é feito por outros profissionais e não há estudos que comprovem os benefícios. A Sociedade Brasileira de Coloproctologia (especialidade médica e cirúrgica que estuda as doenças do intestino grosso, do reto e do ânus) não reconhece a prática.
A Sociedade Brasileira de Coloprocterapia afirma que “a limpeza sistemática do intestino, além de não ter nenhum benefício comprovado, acarreta potenciais riscos à saúde das pessoas”.
Um dos motivos que a “lavagem” ser contraindicada é a possibilidade de que a prática retarde a identificação de causa concretas da constipação em pessoas que sofrem o problema.
Hipotireoidismo, câncer, diabetes, dieta inadequada e outros podem estar envolvidos e serem a causa da constipação (intestino preso).
O que é hidrocolonterapia?
A hidrocolonterapia é feita com um tipo de mangueira que é introduzida pelo ânus com o objetivo de limpar, com líquido, as fezes que supostamente estariam acumuladas ali. Geralmente é feito em pessoas que têm o intestino preso.
A gastroenterologista Priscilla Couto afirma que o procedimento só tira fezes acumuladas de pessoas que realmente estão com problemas na evacuação há algum tempo, caso contrário, não sai nada no procedimento.
A gastro explica que cada intestino, ou microbiota, funciona de um jeito e que, por isso, não tem como limpá-la completamente uma vez por semana, porque o armazenamento de fezes e a evacuação de cada um funciona de uma forma única.
“A nossa é microbiota vem a partir da nossa mãe. Com as experiências, alimentação e doenças que a gente vai adquirindo na infância, a gente vai remodelando a nossa flora intestinal. Quando chega na idade adulta a gente consegue ter uma microbiota intestinal mais determinada e a partir daí estudar e identificar a microbiota única daquele paciente”, explica.
⚠️ Em ambos os casos – com ou sem intestino preso – a hidrocolonterapia pode retirar bactérias boas e necessárias para o funcionamento do intestino e causar uma disbiose (desequilíbrio de bactérias).
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia afirma que estudos já foram realizados em procedimentos cirúrgicos e autópsias e nunca foram vistas fezes firmemente aderidas nas paredes do intestino grosso.
“A ideia de que as fezes poderiam ficar presas à parede do intestino por vários anos também é completamente descabida”, afirma nota da sociedade.
Como é feito o procedimento?
Para o procedimento são usados de 2 a 30 litros de soro que podem ser misturados com outras substâncias como, por exemplo, cafeína – o que pode aumentar o risco de infecção através do desequilíbrio das bactérias (disbiose).
A quantidade de líquido em si é um risco: no corpo humano há 1,5 metro de intestino e a pressão pode fazer o órgão romper, além do risco de a própria mangueira atravessar o tecido.
“Nenhum trabalho mostrou benefício real. Eu diria que hoje em dia talvez traga mais riscos do que possíveis benefícios”, opina Vladimir Schraibman, cirurgião geral e do aparelho digestivo pela Universidade Federal de São Paulo.
👉 Para fazer exames mais invasivos como colonoscopia é feita uma limpeza mais intensa do intestino, mas o líquido ingerido é pela boca. Outras lavagens tradicionais usam cerca de 100 a 200 ml para limpar o canal, enquanto a hidrocolonterapia usa litros.
“A lavagem é simplesmente colocar um pouco de líquido e fazer limpar as fezes que estão na parte mais final do intestino”, explica Vladimir sobre lavagens indicadas por médicos.
O que a hidrocolonterapia causa?
Os pacientes que fazem esse tipo de procedimento dizem se sentir melhores e mais leves.
“É que nem fazer xixi quando está muito apertado ou evacuar. Quando você está com muita vontade não te dá um alívio?”, explica o médico-cirurgião.
No entanto, os relatos de que melhoram a pele e que a terapia libera toxinas não é comprovada. Tudo o que há até o momento são relatos.
A Sociedade Brasileira de Coloprocterapia informa que a suposta autointoxicação pelo acúmulo de fezes antigas no intestino foi “cientificamente desmentida por volta de 1920, quando estudos científicos demonstraram não haver qualquer relação entre a presença de fezes no cólon e algum tipo de intoxicação no nosso organismo”.
Quais são os perigos da hidrocolonterapia?
A hidrocolonterapia pode causar algumas complicações para os pacientes como:
- Perfuração do intestino
- Infecção intestinal
- Alteração na flora intestinal (microbiota)
- Desidratação
- Desequilíbrio hidroeletrolítico – que afeta o sódio e o potássio presentes no corpo, por exemplo.
- distensão abdominal
- cólicas
- sangramento
As clínicas que fazem o procedimento costumam sugerir que seja realizado uma vez por semana para que dê tempo de o intestino ser preenchido por fezes mais uma vez. Priscilla Couto, gastroenterologista da Segmedic, é contra a indicação. Ela afirma que não é indicado fazer a lavagem para “regulação intestinal”, já que essa é uma das funções naturais do corpo.
(*estagiária, sob supervisão de Ardilhes Moreira)