Israel reconhece que 70 mil palestinos foram mortos durante guerra em Gaza
Palestinos velam membro de família que morreu depois que um prédio em ruínas desabou na Faixa de Gaza - Omar al-Qattaa - 13.jan.26/AFP
Pela primeira vez, as Forças Armadas de Israel disseram na quinta-feira (29) que pelo menos 70 mil palestinos foram mortos durante a guerra na Faixa de Gaza, reconhecendo que o número do Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas, está correto.
O órgão palestino diz que 71.667 pessoas foram mortas durante os dois anos da guerra, que começou com o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 e terminou com o cessar-fogo firmado em outubro do ano passado.
Até aqui, as Forças Armadas israelenses, apesar de questionarem o dado do Ministério da Saúde, não haviam oferecido uma estimativa própria —a não ser quando disseram ter matado 22 mil terroristas do Hamas em Gaza de 2023 a 2025.
Entidades internacionais como a ONU sempre afirmaram que, em geral, os números do ministério palestino eram confiáveis. Se estiverem corretos, isso significa que cerca de 3,5% da população de Gaza, que tem 2 milhões de habitantes, foi morta no conflito. Estudos independentes, entretanto, apontam que os dados da pasta podem, na verdade, subestimar o real número de mortos no território.
Em julho de 2025, quando a contagem oficial do Hamas era de 45 mil mortos, um estudo da Universidade de Londres estimou que o número verdadeiro era 65% maior, contabilizando 75 mil óbitos. Destes, 56% seriam mulheres, crianças ou idosos. O estudo apontou ainda cerca de 8.000 mortes não violentas a mais do que seria o esperado, indicando possíveis casos de falta de tratamento médico adequado e remédios ou fome.
Outro estudo publicado em abril do ano passado por pesquisadores da Austrália, por sua vez, dizia que havia problemas tão sérios com os dados do Ministério da Saúde que eles deveriam ser desconsiderados e que provavelmente estavam inflados. Afirmou ainda que muitos dos menores de idade incluídos no número de crianças mortas por Israel eram na verdade integrantes do Hamas.
O governo Binyamin Netanyahu questionou a confiabilidade dos números do órgão ao longo de todo o conflito. Chamando a conta de errônea, a diplomacia de Tel Aviv atacou por diversas vezes veículos de mídia que usavam como base a contagem do ministério para reportar o número de mortos na guerra.
No anúncio desta quinta, as Forças Armadas israelenses não recuam da afirmação de que os dados do Ministério da Saúde têm problemas —eles não fazem distinção, por exemplo, entre combatentes e civis. Israel também nega que pelo menos 400 palestinos tenham morrido de fome, como afirma o órgão controlado pelo Hamas.
Em agosto de 2025, a ONU disse que 500 mil pessoas no território estavam em situação catastrófica de desnutrição.
Os militares israelenses dizem ainda que muitas das mortes não podem ser atribuídas diretamente a bombardeios contra terroristas. Ao mesmo tempo, autoridades de Israel ouvidas pela imprensa do país dizem que a taxa estimada da morte de civis é de dois a três para cada combatente morto.
O número de mulheres e crianças mortas no conflito, bem como a restrição de ajuda humanitária e de suprimentos básicos, destruição de hospitais, escolas e outros prédios civis, e declarações de autoridades israelenses contra palestinos fez com que entidades como a Anistia Internacional acusassem Israel de cometer genocídio na Faixa de Gaza.
Tel Aviv e aliados, como os Estados Unidos, negam a acusação, que foi feita também em denúncia da África do Sul na Corte Internacional de Justiça —à qual o Brasil se juntou em julho de 2025. O caso ainda está em julgamento.
O cessar-fogo entre Israel e Hamas, em vigor há quase quatro meses, deverá entrar em um momento crítico. Na segunda (26), o corpo do último refém que estava em Gaza foi encontrado e repatriado para Israel, momento simbólico que, ao mesmo tempo, representa o fim da primeira fase do acordo, mediado por Donald Trump.
A fase seguinte prevê que Israel reabra a passagem de Rafah, na fronteira entre Gaza e Egito, permitindo a entrada de pessoas, ajuda humanitária e mercadorias. Já o Hamas precisa, de acordo com os termos do tratado, entregar suas armas e aceitar o governo tecnocrático palestino supervisionado pelo Conselho da Paz de Trump.
O grupo terrorista, entretanto, não dá sinais de que vai aceitar a condição. Nesta quinta, Moussa Abu Marzouk, um dos líderes do Hamas, disse em entrevista à emissora Al Jazeera que a facção “nunca concordou” com a entrega de armas. No mesmo dia, Trump disse que “parece que o Hamas vai se desarmar”.