Os endividados e o desarranjo econômico

Mais dívidas e mais pagamentos atrasados complicam a vida já difícil das famílias brasileiras, num ambiente de alto desemprego e perda de renda. Sem perspectiva de rápido recuo da inflação e de atividade mais vigorosa, a inadimplência deve continuar elevada, enquanto se espera a definição mais clara de um rumo para a economia. Essa definição deve incluir um compromisso mais confiável de boa condução das contas oficiais e de contenção da dívida pública. Enquanto se esperam essas mudanças, permanecem as condições favoráveis à multiplicação do “devedor crônico”, sempre em dificuldade, mesmo quando consegue resolver ou equacionar um problema financeiro.

A tendência de piora é evidente, mesmo com alguma oscilação dos indicadores. Em maio, 77,4% das famílias estavam endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Houve recuo de 0,3 ponto porcentual em relação ao número de abril, com aumento de 9,4 pontos sobre o nível de maio do ano anterior (68%). Em maio de 2019, no início do mandato do presidente Jair Bolsonaro, as famílias endividadas eram 63,4%. Nesse intervalo de três anos, a parcela das inadimplentes cresceu de 24,1% para 28,7%.

No mesmo período, o comprometimento médio da renda familiar com dívidas passou de 29,3% para 30,4%. A parcela das famílias autodeclaradas sem condição de pagar aumentou de 9,5% em maio de 2019 para 10,6% em 2020 e a partir daí pouco variou, atingindo 10,8% em maio deste ano.

O agravamento da maior parte dos indicadores de endividamento, nos últimos três anos, coincidiu com um período de inflação crescente, de baixo nível médio de atividade econômica e de más condições no mercado de emprego. Para tentar conter a alta de preços, o Banco Central (BC) aumentou os juros a partir de 2021, tornando mais difícil a obtenção de crédito e a redução dos problemas dos endividados. O alívio mais notável foi proporcionado, nesse período, pelas campanhas de renegociação promovidas por algumas entidades ligadas ao comércio.

A intensa alta de preços de bens e serviços muito importantes, como alimentos, energia elétrica, transporte público e gás de cozinha, ampliou a pressão sobre os orçamentos familiares, num quadro de desemprego muito elevado. O cenário melhorou ligeiramente nos primeiros meses deste ano, mas ainda houve 11,3 milhões de desocupados no trimestre móvel de fevereiro a abril. Nesse período, a renda média habitual foi 7,5% menor que a de um ano antes, descontada a inflação.

Entre janeiro e março, quando os desempregados eram 11,9 milhões, 1,5 milhão procurava emprego há mais de um ano e 3,5 milhões, há mais de dois. Quanto mais longa a desocupação, maior a dificuldade para encontrar uma vaga, como têm mostrado pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e análises de especialistas.

O quadro do endividamento e da inadimplência contém, portanto, muito mais do que a história de indivíduos e de famílias com dificuldades para controlar seu orçamento. Educação financeira, frequentemente recomendada como forma de evitar ou de corrigir esses problemas, responde apenas a uma parcela minúscula, e nem de longe a mais importante, desse conjunto de problemas.

O quadro geral corresponde a questões macroeconômicas só passíveis de enfrentamento por meio de ações políticas. Essas ações devem abranger definição de rumos e medidas para o crescimento econômico, a defesa e a promoção do emprego, a contenção da alta de preços e o amparo aos mais necessitados. Não basta, no caso dos preços, uma ação corretiva do Banco Central por meio da alta de juros, se faltar uma eficiente e séria gestão das finanças públicas. Inadmissíveis em quaisquer circunstâncias, gastos eleitoreiros e aberrações como um orçamento secreto são quase inimagináveis quando um governo se defronta com enormes problemas de emprego e de inflação. Em resumo, famílias com endividamento crescente e indesejado e forçadas à prática de calotes são basicamente personagens de uma história sinistra de macrodesajustes.

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