Psicodélicos e depressão: veja os principais avanços no tratamento

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Por Juliana Contaifer

Nos últimos anos, a depressão deixou de ser uma tristeza forte e passou a ser reconhecida pela população mundial como uma doença crônica, que não tem cura e precisa de tratamento e acompanhamento. Apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimar que mais de 300 milhões de indivíduos no mundo inteiro sofrem com a condição, ainda há muito o que aprender sobre a doença.

A principal definição de depressão é uma alteração de humor caracterizada por tristeza profunda, baixa autoestima e pessimismo que afeta a vida diária do paciente. A condição é causada por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e psicológicos, e estima-se que 60% dos casos tenham relação com o ambiente no qual o indivíduo está inserido. Em julho, foi publicada uma pesquisa confirmando que a doença não é causada apenas por uma baixa na serotonina.

O tratamento primário da depressão, que resolve o problema de um terço dos pacientes, envolve o uso de antidepressivos e terapia. Caso não funcione, os médicos têm mais algumas classes de medicamentos para testar, e podem também usar métodos como a eletroconvulsoterapia — ao final dessa etapa, dois terços dos pacientes percebem melhora. O desafio está no último terço dos pacientes, que possuem casos de depressão profunda e são resistentes a todos os tratamentos existentes.

“No início dos anos 2000, foram descritos os efeitos antidepressivos da ketamina e, a partir daí, começaram a surgir novas perspectivas de tratamento. Observamos uma limitação nos antidepressivos monoaminérgicos, que lidam com a serotonina e a dopamina. Existem outras vias metabólicas no sistema nervoso que estão relacionadas com a depressão”, explica o psiquiatra Leonardo Sodré, professor do departamento de medicina da Universidade de Brasília (UnB).

A ketamina é considerada um psicodélico, uma vez que tem efeitos dissociativos. A substância atua no reparo e na reconstrução de caminhos cerebrais e vem mostrando bons efeitos contra a depressão quando injetada nos pacientes. A escetamina, uma “purificação” da ketamina, age de maneira semelhante, mas é administrada em forma de spray nasal. A ideia é que as substâncias sejam usada no hospital, com acompanhamento médico, uma vez que é preciso monitorar o paciente depois da aplicação.

“Esses tratamentos têm um efeito muito interessante. É importante frisar que eles não suspendem os tratamentos anteriores. Quando usamos esses métodos, fazemos de maneira complementar ao convencional. O paciente continua usando o antidepressivo clássico”, alerta Sodré.

Outro psicodélico promissor é a psilocibina, uma substância proveniente de cogumelos alucinógenos que está passando por estudos clínicos e, até agora, apresenta bons resultados contra a depressão.

Sodré explica que, apesar das medicações com efeito psicodélico estarem se mostrando promissoras, é preciso tomar cuidado com alguns riscos. O medicamento deve ser usado na dose indicada, e não em rituais, ou consumido em casa. Pacientes que têm quadros psicóticos ou suspeita de transtorno bipolar não devem tomar essa classe de medicamentos — em alguns casos, o remédio pode até piorar a situação do paciente.

Terapia de choque

Outro tratamento que ainda enfrenta muito estigma mas é considerado promissor pelos psiquiatras é a eletroconvulsoterapia, que usa choques no cérebro para tratar a depressão. Na mesma linha, há a estimulação magnética transcraniana e a de corrente contínua.

Estudos recentes mostraram que a estimulação elétrica profunda, implantada por cirurgia, é promissora para pacientes com quadro grave que não respondem a medicamentos.

Nos Estados Unidos, uma paciente de 36 anos com depressão profunda passou por um procedimento que inseriu eletrodos em diversos locais do cérebro. O dispositivo analisa 24h biomarcadores neurais para reconhecer um momento de crise e, só então, envia o estímulo elétrico para o cérebro. Os pesquisadores perceberam melhora “rápida e sustentada” na depressão dela.

Perspectivas

“O futuro do tratamento de depressão é a integração de várias possibilidades, tornando a abordagem mais individualizada. A associação de vários métodos é essencial para o tratamento, não só com medicamento, mas estilo de vida, alimentação e aporte psicossocial do paciente”, explica o psiquiatra da UnB.

Ele explica que, no Brasil, a escetamina é liberada pela Anvisa, e a ketamina, apesar de ser uma droga antiga, ainda é usada apenas em abordagem off label, ou seja, sem indicação direta para a depressão. A psilocibina, em contrapartida, ainda está sendo pesquisada e não foi liberada para uso até o momento.

Sodré explica que entre a pesquisa e o uso, demora bastante para uma nova tecnologia ser incorporada no Brasil. A escetamina, por exemplo, vinha se mostrando promissora em pesquisa desde 2015, mas só foi aprovada no país em 2021.

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