democracia

Foto: Divulgação

O presidente americano Joe Biden convoca a Cúpula da Democracia no momento em que ideias antidemocráticas recuperaram espaço. Biden tem seus objetivos geopolíticos e econômicos, que concorrem inclusive com a soberania brasileira (não podemos ser ingênuos), mas os defende com base nos preceitos democráticos.

É fácil constatar que a democracia está entre as melhores invenções da humanidade, chegando a empatar com o pudim de leite. Basta imaginar um mundo em que o respeito mútuo e a qualidade de vida tenham alcançado todas as pessoas em todos os lugares.

Contudo, como acontece com o pudim, nem sempre o resultado é o imaginado, variando na receita, nos ingredientes e na mão artífice. Às vezes passa do ponto ou pode azedar, sem, no entanto, deixar de ser uma democracia.

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Atualmente, após trezentos anos de construção efetiva, as democracias vivem sua adolescência. Regimes antigos duraram milênios, envelheceram e caducaram. Alguns, mais recentes, não sobreviveram a um século. A democracia segue evoluindo, aprendendo com seus erros e os dos outros.

A rigor, a ideia de democracia já havia aparecido quinhentos anos antes da Era Cristã, em Atenas, sugerindo o que seria no futuro um governo para todos. Na ocasião, “todos” significava “nem todos e nenhuma”, restando menos de um terço da população no seleto grupo.

Contudo, ela ressurgiria dois mil anos depois, em 1688, agora de maneira sistemática, com a Revolução Gloriosa, na Inglaterra. Foi o primeiro freio de arrumação na monarquia absolutista, com fortalecimento do Parlamento sobre as liberdades do Rei, em favor da burguesia, o que não significou a libertação de suas colônias e a abolição da escravidão, nem o sufrágio universal.

A Revolução Americana de 1776 foi a estreia da democracia moderna. A independência das treze colônias atlânticas dos Estados Unidos em relação ao império britânico (que passara por sua própria revolução) foi o primeiro caso exitoso no Novo Mundo, somada à adoção de um governo republicano. Mais uma vez a democracia estava incompleta, mantendo o modo de produção escrava e restringindo a participação do povo nos rumos da política.

Mal os americanos consolidavam sua independência, os franceses (ainda no século XVIII) promoviam a mais importante transformação política de até então, conhecida como a Revolução Francesa. Desde então, a democracia de caráter burguês influenciou o futuro de grande parte da Europa, inspirando ainda (ao lado da Revolução Americana) as lutas pela independência nas colônias, a exemplo do que ocorreria no Haiti e na América do Sul.

No Brasil, o processo teve suas peculiaridades, como a transferência da corte portuguesa para cá no início do século XIX. Já havia por aqui movimentos em favor da independência e até mesmo da República, alguns à custa da execução dos revolucionários. A Independência seria proclamada, ainda em nome da monarquia, tornando o Brasil um império independente com sede na América.

Com isso, viria certo grau de liberalização da economia e, quase setenta anos mais tarde, a abolição da escravidão. Só depois haveria uma República no Brasil, começando mais positivista do que iluminista.

Em todo o mundo, assim como no Brasil, a democracia avança de modo desigual e incompleta, às vezes retrocedendo a níveis de barbárie, como na Alemanha do Nacional Socialismo, outras vezes alcançando a qualidade de utopia, como no Estado de bem-estar social do norte da Europa.

Se o Brasil pretende conquistar posições na economia e na governança global, que saiba fazê-lo segundo o pensamento democrático. Fora do campo da democracia só há ignorância, desigualdade, devastação e conflito.

Felipe Sampaio é cofundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC) e ex-secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020).

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