Líbano e Israel abrirão negociações diretas, dizem EUA após encontro

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(Da esq. à dir.) O embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, o embaixador dos EUA no Líbano, Michel Issa, a embaixadora do Líbano nos EUA, Nada Hamadeh Moawad, e o embaixador de Israel nos EUA, Yechiel Leiter, antes da reunião no Departamento de Estado, em Washington - Kevin Lamarque - 14.abr.26/Reuters

por Folha de S.Paulo

Representantes do Líbano e de Israel se reuniram na terça-feira (14) em Washington para iniciar uma negociação com o objetivo de interromper os ataques e a ocupação israelense no território libanês. O encontro terminou sem um anúncio de cessar-fogo, mas com o compromisso de que Beirute e Tel Aviv realizarão tratativas diretas no futuro, sem mediação americana.

O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que as conversas são uma oportunidade histórica —embora tenha reconhecido que será preciso tempo para solucionar o conflito entre o Estado judeu e o Hezbollah. A facção xiita libanesa apoiada pelo Irã não esteve presente nas discussões e condenou sua realização.

“A esperança é de que consigamos esboçar a estrutura sobre a qual possamos desenvolver uma paz duradoura e permanente para que o povo de Israel possa viver em paz e o povo do Líbano possa viver não apenas em paz, mas com a prosperidade e segurança que merecem”, afirmou Rubio em breve comentários a jornalistas antes da reunião. “Esse é um processo, não um episódio. [Vai demorar] mais do que só um dia, e levará tempo”, disse.

Participaram da conversa o secretário de Estado americano, os embaixadores Nada Hamadeh Moawad (do Líbano nos EUA), Yechiel Leiter (de Israel nos EUA), Michel Issa (dos EUA no Líbano), Mike Waltz (representante dos EUA na ONU) e Michael Needham, conselheiro do departamento de Estado e chefe de gabinete de Rubio quando o secretário era senador.

Mais tarde, Leiter disse à imprensa americana que Beirute e Tel Aviv compartilham o objetivo de “libertar o Líbano do Hezbollah”, e que o futuro da fronteira entre os países, que não é oficialmente delimitada, foi tema da discussão.

Após a conclusão do encontro, o Departamento de Estado disse em nota que os dois lados realizaram “discussões produtivas” e que concordaram em “lançar negociações diretas em um momento e local conveniente”.

Líbano e Israel estão formalmente em guerra desde a criação do Estado judeu, em 1948, e poucas vezes trataram da relação por vias diplomáticas abertas. Ainda que de fato histórica sob esse ponto de vista, a negociação desta terça já era vista apenas como um primeiro passo de reaproximação possível na tensa relação entre os vizinhos no Oriente Médio.

As conversas são ainda um esforço paralelo às negociações entre para o fim da guerra EUA e Irã, mas muito embebidas no conflito maior entre os dois. O governo de Donald Trump é o principal aliado de Israel, e a República Islâmica em Teerã é a grande financiadora do Hezbollah.

Após os ataques de Israel e EUA ao Irã que deram origem ao conflito atual, a facção libanesa se juntou a Teerã atacando o vizinho ao sul, como já havia feito quando o Hamas, também parte do chamado eixo da resistência iraniano, atacou Israel em 2023 e serviu de estopim para a extensão do conflito na Faixa de Gaza.

Já Tel Aviv realizou seu maior ataque ao Líbano no dia em que o cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã foi anunciado. Se por um lado reitera seu esforço contra a facção libanesa, por outro Israel evita com isso que a trégua do aliado com o Irã termine em um acordo de paz mais amplo sem, contudo, desmantelar a estrutura iraniana regional hostil ao Estado judeu.

Enquanto a reunião da terça (14) tentou desenhar algum difícil entendimento comum, a facção libanesa anunciou ter atacado 13 locais no norte de Israel desde o início da negociação em Washington nesta terça. Israel, por outro lado, bombardeou subúrbios no sul de Beirute poucas horas após emitir alertas de evacuação.

Embora siga apoiando o aliado, Washington quer fazer avançar o fim das hostilidades entre Israel e Hezbollah e pressiona Tel Aviv. Isso porque a trégua no Líbano é uma das condições de Teerã para um acordo de paz duradouro em seu território —algo ainda muito incerto após uma semana de cessar-fogo, anunciado por Trump no último dia 7.

Um grupo de 25 países que apoiam a Unifil, as forças de paz da ONU no sul do Líbano, expressaram “profunda preocupação” com a violência na região. “Instamos Israel a se abster de quaisquer ataques contra infraestruturas civis e áreas densamente povoadas e a respeitar a soberania e a integridade territorial do Líbano”, disse o embaixador francês na ONU, Jerome Bonnafont.

O Hezbollah se opõe às conversas entre Tel Aviv e Beirute em Washington, chamando-as de inúteis e dizendo que o grupo vai continuar a responder a ataques de Israel.

Como o Hezbollah é também uma importante força política e social no Líbano, inclusive com importantes funções no governo nacional, as autoridades libanesas buscam um difícil equilíbrio para não sair das conversas alijando demais o grupo, que tem apoio entre parte importante da população muçulmana xiita do país, além de forças paramilitares mais poderosas que o próprio Exército libanês.

O Estado judeu, por sua vez, disse antes da reunião desta terça que não discutiria com Beirute um cessar-fogo com o Hezbollah. Para Israel, apenas o desmantelamento da facção como grupo armado pode fazer avançar qualquer diálogo com o vizinho que envolva o fim dos ataques.

A aparência de beco sem saída para a situação reflete a realidade no terreno. Desde que foi anunciada a rara conversa entre as partes, Israel não deixou de bombardear o Líbano, principalmente o sul, a capital, e áreas ao leste no vale do Beqaa, locais de maioria xiita e, consequentemente, mais capilaridade do Hezbollah. O governo libanês conta mais de 2.000 mortes desde o início do conflito atual.

A facção responde com combates às tropas israelenses que ocupam parte do sul do país e ainda lança foguetes e drones contra Israel.

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