Lula orienta ministros a apontar Flávio como traidor e a valorizar inaugurações até a eleição
Lula discursa em evento da Petrobras em Sergipe - Ricardo Stuckert - 29.mai.26/Divulgação PR
O presidente Lula (PT) sugeriu à sua equipe que associe Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a uma imagem de traidor do Brasil, especialmente depois da nova ameaça de tarifaço dos EUA, e cobrou a presença de ministros em inaugurações de obras pelo país.
Os recados que miram sua projeção com a proximidade das eleições e desgaste ao seu principal adversário na disputa foram dados em reunião ministerial de quarta-feira (3), na qual Lula disse que Flávio é capaz de “vender o país por interesses mesquinhos”.
“O que é triste é que tem brasileiros fomentando essa briga na perspectiva de que, se ele taxar a gente, ele vai prejudicar uma candidatura a presidente da República”, afirmou Lula, sem citar diretamente a família Bolsonaro. “Um imbecil desses não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula.”
O presidente cobrou engajamento da equipe nas inaugurações, em meio à avaliação de que governadores e prefeitos adversários têm faturado sozinhos os ganhos de popularidade de algumas ações da gestão federal.
“Se você não estiver de corpo presente, ninguém de fora vai dizer quem está fazendo o que nesse país. Ou seja, tanto para o prefeito quanto para o governador quanto para outra pessoa qualquer que estiver falando não terá nenhuma importância esclarecer quem fez [a obra]”, declarou.
Lula já havia compartilhado essa percepção com auxiliares, mas o assunto passou a ser visto internamente mais urgente conforme a eleição se aproxima. O presidente tentará renovar o mandato, e a entrega de obras é uma de suas principais apostas para fortalecer a candidatura à reeleição.
Após declarações iniciais com recados contra Flávio transmitidos oficialmente, houve a parte fechada do encontro, quando Lula manifestou otimismo para a disputa eleitoral, estimulou seus ministros e manifestou preocupações com possíveis pautas-bomba no Congresso.
Ainda sobre a relação com o Legislativo, o presidente fez menção à rejeição de Jorge Messias pelo Senado, mas reforçou querer o advogado-geral da União como ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).
Também foram tema da reunião os relatórios publicados pela USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) nessa semana pedindo novas taxações contra o Brasil. Combinadas, elas podem atingir 21% da pauta de exportação brasileira aos EUA com uma alíquota de 37,5%.
Na terça-feira (2), em meio aos anúncios, o presidente Donald Trump publicou foto do encontro com Flávio, ocorrido na semana passada, elogiando-o como um “jovem inteligente” –o parlamentar diz ter pedido a Trump que não aplique tarifas contra o Brasil e também nesta terça publicou carta que afirma ter enviado à Casa Branca com esse mesmo pedido.
Na abertura da reunião, Lula manifestou a intenção de enviar uma carta para Trump para tratar do tema. Há uma perspectiva de que os dois tenham uma reunião bilateral na cúpula do G7, marcada para 15 a 17 de junho. O brasileiro confirmou presença durante o encontro no Planalto.
Sobre as tarifas americanas, o vice-presidente Geraldo Alckmin fez uma exposição de argumentos, durante a parte fechada da reunião. Em sua fala, ele citou contradições nos pontos elencados pelo governo americano contra o Brasil. O governo brasileiro rebate acusações relativas a dados de desmatamento e censuras ao Pix, por exemplo, e classifica os dados como infundados.
“Pedir uma punição ao país na perspectiva de derrotar uma candidatura ou de levar vantagem é de uma grosseria que eu não posso encontrar outro nome a não ser dizer: em qualquer país do mundo, em qualquer momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria. É o que eles fizeram”, disse Lula na reunião ministerial.
“Vocês ministros não podem deixar de dizer em alto e bom som: estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, com interesses rasteiros de uma disputa eleitoral. E não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, a alguém que é capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos”, declarou.
Lula quer que os ministros visitem os estados e reivindiquem para o governo federal o mérito pelas entregas. Um dos principais focos é o programa Minha Casa Minha Vida, voltado para a habitação.
O presidente e seu entorno planejam acelerar o ritmo de inaugurações e entregas de obras nas próximas semanas para aumentar a presença de Lula nos estados –sem prejuízo de ministros fazerem inaugurações menores representando o chefe do Executivo federal.
Lula disse que os ministros devem se concentrar nas medidas que já estão em andamento. “Ninguém me apresente absolutamente nada novo. Agora é entregar o que já foi pensado”, declarou o presidente.
O prazo para essas atividades está perto do fim. De 4 de julho em diante, as regras eleitorais vedam que candidatos inaugurem obras públicas. O primeiro turno da eleição está marcado para 4 de outubro.
Lula já disse publicamente, por exemplo, que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) não dá os devidos créditos ao governo federal por suas obras.
“Aqui em São Paulo praticamente 60% das casas construídas são do Minha Casa Minha Vida, que eles dão o nome de Casa Paulista. O governador tem inaugurado muito dessas casas paulistas, e ele poderia ter a singeleza de dizer: essas casas são feitas pelo governo federal, no Minha Casa Minha Vida”, declarou o petista em março em discurso em São Paulo.
Uma pessoa próxima a Lula mencionou um descontentamento específico com inaugurações do Minha Casa Minha Vida pelo governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD).
Tanto Tarcísio quanto Ratinho são de grupos políticos adversários do presidente da República e de estados em que Lula precisa alavancar sua popularidade para garantir a reeleição.
